__________ Itapema, suas histórias... __________

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

CALDEIRA, pro Samba ferver

IRANILDO BENEVIDES CALDEIRA, OU APENAS CALDEIRA (CIDADÃO SAMBA).

Iranildo Benevides Caldeira (Cidadão Samba 2012), ou apenas CALDEIRA. Como definitivamente adotou pelo fato de querer homenagear o pai Inaldo Benevides, utilizando o sobrenome.
Nascido no dia 02 de Junho de 1962, a origem da família é similar a tantas outras migrantes que para aqui vieram construir a história do Distrito. Humildes, Prole numerosa 5 meninos e 1 menina (dentre eles, Caldeira). Chegaram de Olinda (PE) num itinerário de pau-de-arara até o ITAPEMA/SP em 1964, Ele estava tão somente com 2 anos de idade. No começo residiram na Rua Quarta Nº 521 (antiga região da Vila Pai-Cará), de onde Caldeira guarda muitas saudades, recordações da casa, de quando a maré enchia e vinha marulhar perto.
    CALDEIRA MENINO E A IRMÃ.

"(...)Depois meu pai veio pra Francisco Alves. Se ele soubesse que iria ter uma Escola de Samba ali, jamais compraria uma casa... (...)Porque meu pai era contra todo tipo de envolvimento dos filhos com a rua, ele queria blindar os filhos e a gente tinha aquela sede de conhecer tudo. Principalmente eu, o filho mais novo (dos homens). Porém, eu não revelava isto. Fazia escondido. Ninguém sabia que eu saía pra rua conhecia as pessoas... Voltava pra casa nem percebiam." - Conta o sambista Caldeira ao Blog 'ALMAnark ITAPEMA', num bate-papo na Praça 14-Bis, palco de ensaios do G.R.C.E.S. 'MOCIDADE AMAZONENSE'(SP).
  RUA FRANCISCO (ITAPEMA) ALVES, NO DISTRITO. AQUI MORA O SAMBA NA ILHA.

"A minha infância toda foi em maré, Morro do Itapema (atrás de coquinhos Ticum, passarinhos). A gente gostava muito de curtir... Ali onde hoje é a Amazonense e a CPFL também era nossa área de lazer. Era terreno da CODESP, havia muitas árvores (pé-de-cuca, goiaba, eucaliptos) e a gente ficava brincando ali. Daí nós fizemos um campinho de futebol..." - Local das "peladas" do Caldeira. Onde surgiu o Grêmio Maniche, 1º time de futebol da Rua Francisco (Itapema) Alves. Depois se tornou Aliança, mudou para Francisco Alves e agora Chico Viola.
O sambista tinha 8 anos quando ouve o chamado do Samba. Conduzido pela mão da mãe Maria do Carmo Caldeira aos ensaios da 'MOCIDADE AMAZONENSE', naquele tempo da "Pracinha", em derredor do antigo coreto, deu seus primeiros passos. 
"(...)Foi nesse enredo... Quando cheguei na Amazonense eu aprendi muito... (...)É, cheguei como criança, pegando os instrumentos da Bateira. Logo me envolvi com o Samba, aprendi a sambar com Mestre Bará... Ele ensinava as crianças mesmo! Na época tinha o Nego Zao, também era um cara que a gente ficava olhando como é que ele fazia... Esse Samba de raiz, do tempo de escravo, o Nego Zao dançava."
CALDEIRA E A MÃE MARIA DO CARMO.

Com a separação dos pais apesar de traumática o liberou para a vida.
"(...)Desfilava com minha mãe... Mas, pouco convivi com meu pai... (...)Foi onde eu me soltei também, né! Porque se meu pai tivesse aí, ele teria segurado a gente... (...)Aí comecei a trabalhar logo cedo..."
Ainda na juventude coordenou a ala carnavalesca da Rua Francisco Alves, junto com o Mesquita (agora evangélico). Desfilou pelo bloco caricato 'BAFO DA JAGUATIRICA', liderado por Paulinho Madrugada, 1º Compositor da 'MOCIDADE AMAZONENSE'. Detalhe, neste bloco todos os homens saíam vestidos de mulher.







"Aí em 1980, eu entrei na Ala de Compositores. Cheguei muito cedo ainda. Já tinha caderno com mais ou menos umas 30 músicas... (...)A música ela já estava dentro de mim, eu só canalizei pro samba. Porque como eu vivia, respirava samba não tinha porquê fazer outra música a não ser o samba..." - Aliás, a 1ª música feita, aos 14 anos, por Caldeira não seria um samba propriamente, porém um hino popular (com jeito de canção) em homenagem ao "Rei Pelé", na metade da década da Copa de 70.
"(...)Inclusive citava as 3 copas do mundo..." - Ele rememora a letra distante: "1958... 1962... 1970! É o criôlo da bola. O criôlo que é Tri-Campeão..." - Arrisca um improviso melódico. Mas adolescente, sucumbia a timidez, guardava suas músicas para si. E de repente...
"(...)Fui lá e pedi, falei que ia ser compositor. Que eu queria mostrar o trabalho. Queria compôr o enredo da Amazonense... Na época a rapaziada não levou muito a sério. Lembro que o Jodenir era o Presidente, ele armou com o pessoal que eu tava "aplicando". Eles começaram a brincar comigo, e fiquei chateado saí da reunião lá deles, fui embora com raiva... Depois saiu a lista de compositores no jornal, tava meu nome. Peguei o enredo para 82 e fiz o primeiro samba, que foi justamente: 'No Feitiço da Ilha' (autoria exclusiva)."
ALA DE COMPOSITORES DA 'MOCIDADE AMAZONENSE', DÉCADA DE 1980.

Caldeira traça seu perfil enquanto compositor da 'MOCIDADE AMAZONENSE', a maneira peculiar de escrever samba-enredo, o quanto suas composições suscitaram interesses.
"Eu ganhei dois carnavais na Amazonense... Porque cheguei lá com uma filosofia diferente, uma proposta nova... Primeiro eu ganhei 'Dona Beja, A Doce Tirana de Minas', em parceria com o Teixeira. Em 84 fiz o samba da 'Dona Beja', que dizia:
É Carnaval!...
Samba, suor e cerveja.
Lá vem a Mocidade
Pra falar de Dona Beja." - Manda ele no gogó, sem nem caixa de fósforo.
CALDEIRA NA PRAÇA 14-BIS (ITAPEMA), PALCO DE ENSAIOS DA 'MOCIDADE AMAZONENSE'.

"(...)Com esse samba aí eu quebrei a sequência de temas batidos. Porque era uma história não muito conhecida na região..." - Este samba provocou uma participação curiosa dos foliões durante os ensaios.
"(...)Como eu coloquei essa palavra "cerveja", o pessoal pegava as garrafas no alto, agitando, feito adereço... Virou uma febre, o pessoal com a cerveja na mão balançando... Aí inflamou o samba na quadra, e eu ganhei o samba pela 1ª vez na Amazonense..." - E revela mais curiosidades envolvendo esta composição. Nessa ocasião, visitavam a 'MOCIDADE AMAZONENSE' integrantes da Diretoria do G.R.E.S. 'IMPÉRIO SERRANO' (RJ), nossa Madrinha no Samba, que ficaram entusiasmados com a expressão "Samba, Suor e Cerveja" e perguntaram ao compositor de onde havia tirado o refrão, Caldeira disse ter criado da imaginação. Tal interesse levou à inspiração para o nome do enredo, de 1985, da 'IMPÉRIO', 'Samba, Suor e Cerveja'.
"(...)Então, aquele enredo nasceu aqui... Que até a letra diz assim:
Haja frio ôô
Ou calor, ôô...
Cervejando
Lá se vai o desamor. - (...)Foi o samba."
Será a partir daí que se tornaria um personagem controverso, pelos eventos importantes protagonizados por Caldeira.
"Ganhei também em 85, com parceria do Benê da Rosalina. Esse foi o samba que a minha proposta era diferente, que eu cheguei com uma poesia mais pura... Que era 'Sonhei que Voava e Um Dia Voei'. Coloquei uma linguagem mais poética... (...)O samba é...
Um dia sonhei
Que o universo
O infinito alcançaria
Nas asas da imaginação
Pra viver nesse mundo de alegria.

Quem sou eu, meu amor?
Que não posso envelhecer,
Nasci junto com o mundo
Eu sou rei, sou vagabundo
Com vontade de vencer.

(...)Sou a ilusão contida
Dentro dos humildes corações,
Sou talvez a própria vida
Dos fortes que lideram multidões.

Eu sou o sol, a tempestade,
Sou de fato a pura liberdade..." - Ele dá uma rápida "pala" do samba.
"(...)Então, eu dei essa volta todinha ( criou metáforas) pra falar de Liberdade... E o pessoal não tava acostumado com essa linguagem. Ih, deu uma polêmica! Tinha gente que achava o samba muito bonito. Outros achavam o samba bonito, mas que não ia pegar na avenida, que não tinha nada haver com Escola de Samba." - Ficou em 4º lugar no carnaval santista.
Seu processo de criação se dá no experimento da vivência, daquilo que vai absorvendo deste contato com o universo do Samba.
"Quando eu cheguei na Mocidade Amazonense, ainda criança, comecei ouvir samba-enredo, por exemplo, samba-enredo de raiz mesmo:
Incredo em cruz ê, ê
Virgem Maria!
As Pretas-velhas se benzem
Me arrepia...
Ô, ô, Xangô!
As Pretas-velhas não mentem,
Não Senhor. - Caldeira não desafina e nos apresenta a beleza deste samba.
"(...)Esse samba-enredo eu ouvia quando criança... (...)Sei cantar ele todo. Mas não lembro de que Escola era... (...)Aí eu fui aprendendo a fazer samba-enredo... Eu já tinha uma veia poética. Foi só pôr em prática." - Coisa bem típica da feitura e realização da Cultura Popular.
ANTES CALDEIRA ASSINAVA SUAS LETRAS COM O PSEUDÔNIMO, MONGOL.

"Justamente, nisso que eu estava ouvindo esses sambas, cantando os sambas dentro da quadra, eu tava pegando esse jeito inconscientemente... Quando fui colocar em prática pra fazer um samba-enredo, eu sabia que ele tinha que ter começo, o meio e um fim. Sabia que tinha que começar contando a história, tinha que ter um refrão principal e um de meio... Hoje mudou muitos estes aspectos, mas antigamente era o básico. Por exemplo:
Ô, Babá! Obaô, Babá!
É a Mãe-do-Ouro
Que vem nos salvar. - (...)Da Mangueira (RJ). Veja bem, um refrão pra puxar o povão."
Todos estes elementos destilam no espírito do compositor fecundando-lhe a criação.
CALDEIRA ABRAÇA AS GERAÇÕES DE COMPOSITORES.

 "(...)Nessa época também... Têm sambas de São Paulo que marcaram bastante. Porque a gente fala muito do Rio de Janeiro, somos influenciados demais aqui no samba da Ilha pelas Escolas de lá. Mas São Paulo tá logo ali... Eu lembro que fazia sucesso um samba assim:
Achei uma bola de ferro
Presa nela uma corrente
Tinha um osso de canela
Deu tristeza em minha mente,
Esse osso de canela
Veio de outro continente.

De jeito nenhum, não é preconceito
Negro, branco tem direito
A nossa Escola não faz distinção de cor
Pra falar sobre este tema
Foi que surgiu o problema
E o dilema se adesenhou... - (...)Esse samba já retrata o preconceito e falava do negro na sociedade brasileira."
 CALDEIRA NA AVENIDA DO SAMBA (ITAPEMA/SP) E A CORTE CARNAVALESCA 2012.

Nessas circunstâncias ele percebeu representar a classe negra. Descobriu sua negritude a despeito da família. Isso influenciou o trabalho quando a 'MOCIDADE AMAZONENSE' decidiu como tema de Enredo a África, no ano de 1993. Entretanto, seu samba com os parceiros tradicionais (Naldo do Beco, Rudney e Demontie) não seria escolhido para ir à Avenida.
"Nós fizemos esse samba em que houve a discórdia. Que eu saí, deixei de "puxar" samba pela Mocidade... (...)Nós ficamos bronqueados, porque nesse samba nós fomos enaltecidos na Baixada toda. A rádio veio pra cá dizendo que o samba seria histórico, e a Amazonense não colocou na Avenida... Daí teve a nossa discussão lá, e eu acabei me aborrecendo... E eu saí." - Por um bom tempo não cantaria mais pela Escola do coração.










Caldeira teve como parceiros figuras históricas da 'MOCIDADE AMAZONENSE'. Dentre tantos compositores (alguns já mencionados), foi parceiro de Djaca. Seus parceiros tradicionais também eram Rudney e Demontie, com quem venceu vários sambas. O maior parceiro seria Naldo do Beco, ganharam muitos sambas juntos, bem como estilo mais parecido. Ao lado desses três últimos citados ganhou Samba-Enredo no G.R.E.S.'SIMPATIA DA VILA ÁUREA' (SP) e 3 sambas pelo G.R.C.E.S. 'GUARUJÁ' (SP). Antes Caldeira assinava suas letras com o pseudônimo, Mongol.
CALDEIRA TEVE COMO PARCEIROS FIGURAS HISTÓRICAS DA AMAZONENSE.

"Eu tenho samba em parceria com o Natal pela 'Nações Unidas', lá de Cubatão (afilhada da 'Amazonense')... O samba vinha falando 'Brazil Com "Z" Que o Mundo Vê'. A gente vinha criticando. Dois caras que gostavam de criticar, eu e ele...
Brasil com "Z", Brasil com "Z"!...
E as Nações Unidas mostra para o mundo ver.
Vamos cantar para esquecer
Que somos ricos, com pobreza no viver.

Sumiu da nossa mesa o feijão,
Sobrou só esperança e muita fé.
O gostoso do melhor que é bom
O estrangeiro é que sabe como é.

Esse grito que ecoa no horizonte
Vem do Pé-da-Serra do Mar
Vamos sacudir este Gigante
Está na hora dele acordar.

Extra! Extra!... Notícia de primeira-mão.
Até nossas crianças,
Já virou produto de exportação." - Por aí vai...

No ano de 1986 levou Samba-Enredo no G.R.E.S. 'SÃO MIGUEL' (em parceria com Mário Lúcio). Como os compositores da 'AMAZONENSE' não podiam criar samba-enredo para outras Escolas, ele foi representado pelo amigo Boa-Sorte (numa combinação secreta). Por seu estilo característico, todos que ouviam o samba desconfiavam ser de autoria do Caldeira ('O Reino Encantado da Infância'), a 'SÃO MIGUEL' sagrou-se Campeã.
"(...)Inclusive tem uma brincadeira que eu fiz com o Prefeito da cidade na época, o "MM". Tinha um refrão que dizia:
Faz de conta que não tem inflação
Faz de conta que terra é feijão
Faz de conta que areia é farinha
Faz de conta que o Prefeito é o Tio Patinhas. - (...)Ele não gostou muito não. Mas era festa popular acabou aceitando de bom grado."
Em 1987 compôs samba para a 'GUARUJÁ' também inscrito por terceiro. A princípio seria assinado por Caldeira e Jorge da Cal. Entretanto, participou da seletiva em nome de Zé Carlos (filho da Ilza)... O samba falava sobre superstição... (...)Que eu lembro tinha um refrão assim:
Mas eu quero
Uma figa de Guiné
Tão botando olho-gordo
Em cima da minha mulher. - (...)Era mais ou menos desse jeito."
Caldeira considera normal essas incorporações as autorias, troca de melodias, junções de trechos de samba (expediente das Escolas), sem preocupações de vaidade.
  CALDEIRA FOI PRESIDENTE DA ALA DE COMPOSITORES DA'AMAZONENSE'.

"(...)E a gente como não tem essa preocupação, principalmente eu não tinha na época. Era muito novo também. Nessa altura do campeonato eu estava com 22 anos... Comecei fazer samba-enredo com 18 anos, meu primeiro, Protagonizava... Fui Presidente da Ala de Compositores comandava 44 compositores e todo mundo escrevia, eram bons... Tinha 18 caras que cantavam!..."
Ele comenta sobre essas parcerias:
"(...)por exemplo, eu fiz samba com o Benê da Rosalina... Fiz uma parte, parei pra ele poder concluir. Porque se deixar eu termino o samba. Aí fica chato, você chega no parceiro com o samba pronto, o cara vai falar, "pô e agora, vou fazer o quê se tá pronto". Tem gente que fala, põe meu nome aí e tá tudo certo. Tem outros que não aceitam, acham que tem que fazer. Então eu criei metade e parei, o Benê completou com a segunda parte que entra...
Como é lindo, meu amor
Ver o céu tão cintilante
O revoar da passarada
O arco-íris tão brilhante. - (...)O pessoal percebia claramente essa diferença de composição..."
Devido às rusgas entre Caldeira e a Diretoria, naquele ano de 1993, partiu para novos palcos. Neste mesmo ano fechou contrato com a Banda 'Star Five' para abrilhantar o carnaval de salão, cantando Samba-Enredo. Fez valer seu talento, disputou samba na 'X-9' (santista) e pela 'VAI-VAI' (SP). Portanto, junto com outros sambistas da região foi pioneiro na Capital concorrendo também com Samba-Enredo na 'ROSAS DE OURO' (SP) (por 5 anos, durante a década de 90), ao lado dos tradicionais parceiros de composição.
"Inclusive, eu fui chamado pra cantar samba-enredo lá na 'Rosas de Ouro' substituindo o Royce do Cavaco, pois ele havia acabado de sair. Só que houve uma pressão da comunidade, porque eu vim de fora pra tomar o lugar de gente que tava ali há muito tempo... E eu não tinha essa vivência que tenho hoje. O certo não era eu ir lá, tinha mandado alguém me representar. Mas fui lá, pus a cara pra bater. Me pressionaram, me ameaçaram até. Eu pensei, "não vim aqui pra brigar, pô"... Levei o Chiquinho do Cavaco, também foi convidado ir pra avenida com a 'Rosas'. Eu ia cantar e ele tocar. Pressionados pela comunidade, fomos ameaçados... Nós saímos de lá." - Ressente-se o sambista.
CALDEIRA, PRO SAMBA FERVER NA AVENIDA.

Ao longo dos carnavais, Caldeira amealhou diversas premiações. Pelo G.R.E.S. 'NAÇÕES UNIDAS' emplacou 9 sambas-enredos, 2 na 'AMAZONENSE', 3 na 'GUARUJÁ', 1 na 'SÃO MIGUEL', no G.R.E.S 'VILA ZILDA', 'SIMPATIA DA VILA ÁUREA',os quais foram para à avenida (foliões que ele botou pra sambar). Cerca de 25 sambas conta o compositor.
"Agora, naqueles tempos eu fazia uma média de 12 Sambas-Enredos por ano. Todo mundo que pedia samba-enredo eu criava... (...)Lia a sinopse pra entender e saber o tipo de assunto que ia contar... E os pontos-chaves, porque a Escola vai falar de tudo, mas o samba dá ênfase em algumas coisas... (...)O Samba-Enredo você faz pensando na avenida..." - Some-se a estas as conquistas máximas nas passarelas:
"(...)Eu tenho 5 títulos no carnaval santista... (...)Conquistei um 2º grupo que a 'Nações Unidas' ganhou. Tenho outro 2º grupo que a 'Guarujá' venceu, tenho o 2º grupo ganhado pela 'Amazonense', os Títulos de 1992 e 2009. são cinco títulos... Acredito que aqui na Ilha, só quem tem esses títulos sou eu..."









São trinta anos compondo, mais de 600 letras, Ele presume entre canções, sambas, Sambas-Enredos e jingles para campanhas políticas. Que Caldeira reune num caderno "universitário", mas pretende divulgar na internet, bem como a publicação de um livro com essas composições e detalhes sobre a criação das mais importantes. Além do mundo do Samba, o compositor teve outras influências musicais:
"(...)São as músicas do Rádio. Eu ouvia rádio o dia todo. Então, escutava Roberto Carlos, a Jovem-Guarda... (...)Depois também ouvia o pessoal da MPB, Caetano, Gilberto Gil, Chico Buarque... Eu ouvia tudo isso aí! Raul Seixas, antes dele morrer, sucesso no rádio... A Rita Lee, Secos e Molhados... Eu conheço essas músicas todas, que ficaram influenciando minhas letras."




Venceu o 1º Festival de Música Popular do Guarujá, defendendo o samba 'Gigante Comerciante'.
"Isso foi em 83... Naquela época, o samba era muito marginalizado. Pra você ter uma idéia, o Festival com mais de 100 músicas tinha um samba só, que era o meu... E eu levei!" - Um dos trechos do samba falava assim:
"(...)Espero só o dia
Em que esse mundo acabar.
Quem diz ter o morro inteiro
Com meu Deus vai se explicar.

E já existem certas praias
Que são particulares
Mas, será que o Deus gigante
Já virou comerciante?
Vende praia, vende morro
Onde é que vai parar?

Mas qualquer dia a gente pobre
Vai viver a flutuar
Sem poder pisar na terra,
Sem poder nadar no mar
Nossa pobre gente humilde
Vai ter que viver no ar." - Criticando as privatizações de praias na Ilha de Santo Amaro e o domínio dos morros pelo poder paralelo do crime organizado.






Com o triste silêncio imposto às Escolas de samba, naquele período de paralização do Carnaval (1995 à 2005) na Ilha, começou a animar Bandas. Fundou o Bloco Carnavalesco 'PÉ NA BUNDA', fez sambas cujo mote era críticas a Administração Municipal.
CALDEIRA CIDADÃO SAMBA 2012.

No carnaval 2012, recebeu a honraria de 'CIDADÃO SAMBA', através de indicação da Presidenta Sandra Oliveira ('MOCIDADE AMAZONENSE').
"Eu sou Cidadão Samba, e pra chegar a ser Cidadão eu tive que passar por todas essas etapas... Tá certo que tem gente que é Cidadão Samba e não passou por isso. Mas, esses são exceções, não é a regra... É bom quando você representa um a Classe, ser cidadão Samba é representar a Classe do Samba e você consegue corresponder a expectativa, quando alguém lhe cobrar tal tipo de atividade você fazer." - E reforça a grandeza da distinção.
CORTE CARNAVALESCA DE 2012 NA AVENIDA DO SAMBA (ITAPEMA/SP).

"(...)É um prêmio, né! Nós trabalhamos esse tempo todo em prol do Samba, sem reconhecimento nenhum. Até porque nós nem pensavamos nisso. A gente fazia por gostar mesmo, ia fazendo, ia fazendo... A coisa passou tão rápido e foram tantas coisas que nós fizemos..." - Caldeira se considera qualificado para dignificar a Comunidade do Samba.
A PRESIDENTA SANDRA OLIVEIRA ('AMAZONENSE')PRESTIGIA A CORTE CARNAVALESCA DE 2012.
    CORTE CARNAVALESCA 2012.

"(...)Eu acredito que assumi uma representatividade. Quando aceitei me candidatar e recebi o título de Cidadão Samba, tenho essa responsabilidade. Hoje em dia onde eu for tô representando o Samba, estando de faixa ou não."

Hoje caldeira é um Velha-Guarda (outra honraria), escreveu sua história no Carnaval e na 'MOCIDADE AMAZONENSE', reconhece o trabalho das muitas Diretorias passadas. Enaltece a figura de Jodenir, um dos fundadores da Escola e Mestre de Bateria.
"A época do Jodenir, Presidente, foi um tempo bom porque ele fez carteirinha de Sócio e se votava pra Presidente da Escola. Eu tinha carteirinha de Sócio. Era uma coisa mais democrática... Hoje não temos isso." - O sambista fez parte da Diretoria de Willian Rocha, enquanto Presidente da Ala de Compositores.
"(...)O Willian tratou muito da parte social. Então, pra ele fazer a parte social precisou mexer com algumas coisas... Mexeu com a gente. Eu mesmo discuti muito com ele... (...)Mas um cara que realizou um bom trabalho... (...)A Quadra o que é hoje, o prédio em si foi na gestão dele... Fez contatos políticos em São Paulo que ajudaram a Escola... (...)Junto com o Carlinhos da Pedreira, Presidente de Honra, que também ajudou muito."
 CALDEIRA COMPONDO A ALA MASCULINA DA VELHA-GUARDA DA 'MOCIDADE AMAZONENSE'.

Para Caldeira a 'MOCIDADE AMAZONENSE' (com o devido respeito às demais co-irmãs) é uma unanimidade, traz em si a distinção do Samba.
"Eu falo pras pessoas que a 'Amazonense' aqui na Ilha é unanimidade porque você vê as pessoas das outras Escolas, as vezes elas até falam mal da 'Mocidade', reclamam... Mas se a 'Amazonense' precisar delas, elas tão pronta a servir. Quando reclamam é porque não deram uma oportunidade, isso incomoda. E é mais a parte de se sentir a margem da nata. A 'Mocidade Amazonense' é a nata do Samba na Ilha e também da nata das Escolas da baixada... Quem consegue fazer carnaval hoje sem incluir a 'Amazonense'."
Ele se diz com sorte de ter convivido com personagens tradicionais da 'MOCIDADE AMAZONENSE', que fizeram a Escola até os anos 90 e ainda continuar com a nova geração após a retomada do carnaval.
"(...)Como eu cheguei novo no samba, né, ainda tô continuando a história. Não parei, mas muita gente boa ficou pelo caminho..." - Segue assim um Benevides.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A CAPTAIN'S SHACK NA ILHA

CARICATURA DO CAPITÃO JESSÉ ROLIM, O CORSÁRIO DO ITAPEMA/SP.

Embora seja carioca de nascimento, vindo ao mundo em 19 de Janeiro de 1944, duma família oriunda da Bahia (Santa Luzia), Jessé de Oliveira Rolim integrou-se perfeitamente ao imaginário coletivo da Ilha de Santo Amaro, na costa paulista do Atlântico Sul. Como bom cicerone destas paragens de Guaimbê. Conhecedor e contador de estórias da Ilha do Dragão Alado, especialmente do Distrito de Vicente de Carvalho, das coisas e fatos dos mares e seus navegantes.
O próprio cenário da natividade do menino-Capitão remete a mares bravios, costumes sociais antigos, conforme ele mesmo narra em entrevista ao blog ALMAnark ITAPEMA:
"(...)um fato incrível!... Eu nasci embaixo de uma lona de Marinha. Quando no dia em que nasci, deu uma tempestade muito grande, de granizo, vento... Sumiram as telhas do barraco, tal. E meu tio era oficial do 'Beneventes' (navio de guerra da Marinha Brasileira), ele tinha uma lona lá. Então abriram a lona, quatro vizinhos seguraram..." - Ficando a mãe aos cuidados da parteira, sob os clarões dos relâmpagos, o fragor dos trovões. Devido o susto no parto, a mãe perdeu a lactação sendo ele amamentado por uma Ama-de-leite, negra. Contudo, os bons ventos trouxeram a passageira bonança.
CAPITÃO JESSÉ, CONHECEDOR DAS ESTÓRIAS DA ILHA DE SANTO AMARO.

Um fato político da República Brasileira marca a vinda da Família Rolim para ITAPEMA/SP. No dia 17/04/1952 estava ele e o pai José Teixeira Rolim [liderança sindical, 1º Presidente do Sindicato dos Funcionários Civis do Arsenal de Marinha de Guerra do Rio de Janeiro], mais outros sindicalistas e simpatizantes participando de um Encontro Político Partidário no Palácio do Catete (Estado da Guanabara/RJ), suspeitas de condutas ali levantadas suscitaram a desconfiança do pai. Conta o Capitão Jessé:
"(...)Aconteceu o seguinte: o Gregório Fortunato (o Anjo Negro, Chefe da Guarda Particular de Vargas), ele junto com o pessoal da polícia política, eles tavam fotografando todos os líderes sindicais... As pessoas em geral. Mas, ênfase no pessoal do movimento sindical. Fazendo anotações, né. Meu pai estranhou aquilo, porque se aproximava um cara perguntava o nome, endereço... Meu pai falou, pô o negócio aqui tá meio... Né! Aí, conversou com uns caras... Ó, eu vou embora porque o negócio aqui acho que é xaveco..." - Entretidos no regabofe os camaradas desconsideram. Tendo retornado ao lar, dali duas horas, chega um outro camarada de José Rolim, informando que ele fugisse com a família, pois Gregório Fortunato (polêmico Tenente) saíra em diligências e efetuara diversas prisões de líderes sindicais para interrogatório. O Capitão Jessé comenta:
"(...)eu me lembro que meu pai pegou uma colcha botou no chão, pôs pinico, rádio, copo, talher, documento..." - Fugiram no último trem da Central do Brasil para São Paulo. Juntamente com a mãe Maria Nívea de Oliveira Rolim, a avó Maria Pia e os irmãos Nízia, Jefferson, Joelson e Nizi. Fazendo baldeações no Caminho da Serra do Mar, utilizando-se da rede de comunicação do Partido Comunista e do apoio nos diversos lugares. Cabreros que a polícia os estivesse seguindo naquela escapada.
Em 19 de Abril, descem na Estação Ferroviária São Paulo Railway (Santos), por volta das 14 horas tomavam a Barca para o Itapema...
"(...)Aí, vi a Bocaina cheia de navios, com bandeiras de tudo que é país... (...)a primeira coisa que eu pedi pro meu pai foi ele comprar um Atlas, porque era pra mim ver, identificar as bandeiras... Começou minha curiosidade." - Inicialmente abrigaram-se aos préstimos do Tio Epaminondas, comunista, morador dum terreno, onde hoje está a Praça 14-Bis. Foram anos de luta aqueles...
HOSPITALEIRO CICERONE DA ILHA DO DRAGÃO ALADO, CAPITÃO JESSÉ ROLIM.

"A minha mãe em 53, naquela época pra você ter uma idéia, ela fundou a Sociedade Feminina 'Anita Garibaldi'... Aqui no Itapema! E foi a 1ª Presidente. A minha mãe foi pioneira. Fundou essa Sociedade pra dar amparo aos perseguidos políticos do Getúlio... Eu muitas vezes andei nesses matos mais a minha mãe, com a lamparina... A minha mãe tinha uma "truta" (camarada) dela que trabalhava na Cruz Vermelha, na Praça dos Andradas (vizinha Santos/SP). Então tinha dias que eu ia com a minha mãe, cedinho! Ficava lá entocado, ali na rodoviária. E essa mulher arrumava pra ela medicamentos, gaze, mercúrio-cromo, esparadrapo, entendeu... Penicilina. Pra tratar dos ferimentos, porque tinha muito cara escondido aqui. Tinha de Caçapava, São Paulo... Uma meia-duzia de caras escondidos por esses matos, Parque Estuário, por aí... De noite a gente saia levando um jornal, roupa e mantimentos pra eles..." - Aqui em Itapema a Família cresce mais com a chegada da irmã Nívea de Oliveira Rolim, Registro nº 01, Folha nº 01, Livro nº 01. Portanto, a primeira criança a ser registrada no Cartório de Registro Civil e Anexo de Vicente de Carvalho. Telma, Neusi e José completaram a honrada estirpe da saga Rolim, que nos dias atuais caminha para a 5ª geração.
Do seu pai herdou a afeição pelo serviço de marinha, o desejo de singrar os oceanos. Ainda moço, travou o primeiro contato ativo manejando embarcações, utilizar canoas, chatas, barcos, a estudar as práticas do mar, trabalhar em pesqueiros. Fascinação que o levaria a intercâmbios com marinheiros de todo mundo, pesquisar livros sobre o assunto, bem como a gastronomia dos países e História mundial... O pai José Rolim trabalhou no Arsenal da Marinha de Guerra (Ilha das Cobras/RJ). Exerceu a função de mecânico de embarcações. Depois, embarcou em um navio mercante americano e periodicamente regressava ao Itapema.
Desse período subsistem as lembranças da paisagem itapemense, da avó e da mãe sempre na cozinha preparando pratos para os embarcados que aqui aportavam...





"Minha mãe teve venda aqui na Floriano Peixoto, esquina com a Backheuser... De secos e molhados. Vendia botão, linha, agulha, querosene, gasolina, peixe-seco, bacalhau, linguiça, carne-seca, vendia de tudo... Eu comecei a atender o pessoal e conversar. Tinha muitas das mulheres que moravam nas redondezas que elas mantinham um intercâmbio não só com o estrangeiro europeu, mas com muito marinheiro de barcos de pesca catarinense, gaúcho... Também chileno, argentino, uruguaio (que traziam atuns e outros peixes nobres do Oceano Pacífico para os Terminais pesqueiros daqui)... "(...)Então, umas trabalhavam nas "bocas" como prostitutas, outras eram lavadeiras e prestadoras de serviços... Esses varais do Itapema, os terrenos eram grandes, você via um montão de roupas, macacão com nome de empresas internacionais, bandeiras estrangeiras, que elas lavavam... Isso aqui era um negócio multicor, muito bonito." - São impressões resilentes dum Itapema remoto, antes da suburbanização do Distrito.








"Na Rua Terceira (atual Henchi Matsumoto) a minha avó e minha mãe já faziam rango pros pescadores. Porque a Salgado Filho era um enorme aparato de maritimidade. Tinha cara que fazia remo de caxeta, consertava redes. A gente via aquelas redes enormes penduradas lá, estaleiros... (...)o Itapema girava em torno da pesca, do aparato marítimo. A maioria dos rapazes, das pessoas daqui trabalhavam em relação à pesca, consertando motores, calafetando embarcações, trabalhando nos estaleiros, pescadores, carregadores de cesto de peixe, sardinha... (...)Então elas eram famosas pelas peixadas e caranguejadas." - Relembra o Capitão a transfigurar do passado o cotidiano itapemense, seus habitantes.

[à direita, Rolim Fabula Narratur]


"(...)Com essa aproximação de marítimos, naquela época não era de bom tom social receber esse tipo de pessoa dentro de casa, com a família... Aí, eles vinham buscar uma roupa. Demorava, ia passar, tal, não sei o quê, aquele negócio todo... Iam na venda da minha mãe, porque lá no quintal tinha umas mesas de madeira, embaixo dumas árvores (goiabeiras). Ficava ali bebendo uma cerveja, até fazia uma refeição..." - Inclusive o pai começou a trazer gringos dos navios atracados no Porto. Ou embarcados que eram amigos dos amigos dele pra vir saborear a comida da Família Rolim, tornando o lugar uma Torre de Babel.



Viveram alguns anos na Rua Henchi Matsumoto Nº 80, daí mudaram-se para a Avenida Thiago Ferreira, onde hoje é a 'Casas Pernambucanas'. Havia  um amplo chalé ali, cujo dono era Seo Mantião (funcionário do Instituto Brasileiro do Café). Dentre as curiosidades desses idos, o Capitão Jessé conta ter sido Ele a nomear a antiga Rua Sexta, como Rua Brasília:
"(...)Por causa de uma discussão do meu pai em 1959 (próximo à fundação de Brasília) com o pai do Maurici Mariano, do 'Depósito Mariano', que o velho falou irritado (isso imitando o sotaque lusitano), "porra, estes lugares aqui não têm a rua. O carroceiro vai entregar o material e volta"... Tava pra fundar Brasília. Eu puxei a manga do meu pai e disse pra ele, "fala Rua Brasília". Meu pai retrucou, "é Rua Brasília!"... Aí o que aconteceu, quando nós chegamos em casa, meu pai falou assim, "ó, agora você pinta uma placa e coloca lá no chafariz (que havia lá) pro cara se orientar". Eu pintei uma placa mais ou menos de um metro, amarela com as letras verdes: Rua Brasília e finquei no chafariz, ficou até hoje..."
 CAPITÃO JESSÉ E SEU ESTILOSO "CAMELÔ" A PERCORRER AS PARAGENS DE GUAIMBÊ.

Destemido Homem do Mar... Um "Ownie's Owner" (cão-sem-dono) como ele mesmo se entitula, o Capitão Jessé Rolim revela suas destrezas e peripécias mais audazes. Foi um valoroso Corsário do Itapema. Praticando "descaminhos", ao desviar mercadorias da alfândega portuária sem pagar impostos, fugindo da fiscalização. Atracando em píers não regulares na margem do Porto e outras localidades fora do destino de origem, no translado de produtos para embarcações cumplíces:
"(...)O último trabalho que fiz foi em 1983, mil e quinhentos vídeos-cassetes JVC - 2 cabeças, que nós tiramos lá na Ilha Monte de Trigo, ali depois da Bertioga... Mas, eu cheguei a tirar junto com os amigos em Laguna (SC), 4 mil caixas de uísque, em três barcos de pesca... (...)Eu comecei a levar muito relógio SEIKO, calça LEE pra 'Galeria Pagé' (SP)..." - Tais negócios nada lícitos possuía ramificações no cotidiano do Porto.
"(...)eu frequentava as "bocas"... Muitas vezes levei mulheres pra bordo e fui buscar nos navios de catráia. Eu conhecia os gringos, conversava em inglês. Então tinha aquele intercâmbio, fazia esses passeios..." - Furtivo empreendedor duma rentosa diplomacia paralela.
CORSÁRIO DO ITAPEMA, CAPITÃO JESSÉ ROLIM RELEMBRA SUAS PERIPÉCIAS.


Os navios que chegavam, sob suspeita de doença, ou ainda avarias precisavam ficar de quarentena ancorados à margem da bocaina.
"(...)Porque apesar do tráfego de embarcações e da ancoragem na Bocaina sem tento, os navios eram de menor porte... (...)Então eles podiam fundear ali. Como eram pequenos ficavam reunidos lá. Na Bocaina não tinha a rigidez das autoridades de hoje. Daí, um tripulante passava de um navio pro outro... Como eu falei pra você, vinha a mulherada da "zona" frequentava os navios. Não era permitido, mas a Polícia Marítima fazia "vista grossa"... (...)os tripulantes vinham no comércio do Itapema, como hoje andam por aqui, comprar uma carne pro churrasco, cachaça, limão pra fazer "caipirinha", tal..."
 CARTÃO DE VISITA DO CAPITÃO "OWNIE'S OWNER" ROLIM, NATIVO DA ILHA DO SOL.

[á direita o Capitão Jessé na primeira Captain's Shack no Itapema]

Anos mais tarde, Outubro de 1990, comandaria em Vicente de Carvalho a CAPTAIN'S SHACK (CABANA DO CAPITÃO). localizada à Rua Joana de Menezes Faro, 390 (antiga Rua Oliveira, imediações da "Feira do Rolo"), misto de Restaurante e "Embaixada do Mundo", conhecida nos 7 mares. Um típico Comandante de seu navio, tendo o característico lenço vermelho à cabeça ou bonés com logos da atividade marítima. Capitão de um dos mais pitorescos restaurantes da Ilha do Sol e que oferecia uma cozinha variada com pratos típicos, tanto da comida nordestina quanto da culinária internacional. Navegando os mares do globo em suas histórias, entretendo seus convivas acompanhados de uma boa cachaça artesanal, curtida e aromatizada com frutas e especiarias, pelo próprio Capitão Jessé - ou cerveja gelada, claro.
 ANTIGAS INSTALAÇÕES E OBJETOS REMANESCENTES DA CAPTAIN'S SHACK, "EMBAIXADA DO MUNDO".

Num ambiente repleto de utensílios, objetos inusitados e antigos: réplicas de embarcações, luneta de pirata datada do século XIX, timões, bússolas, modelos de cartas náuticas, mapas, globo terrestre, bandeiras e flâmulas de diversos países, moedas estrangeiras antigas, moldura de nós de marinheiro, lanternas marítimas, vigias, bóias salva-vidas, âncoras, carrancas de proa, estatuetas, entalhes e esculturas, quadros, gravuras, fotografias, jornais e revistas de época, diferentes garrafas, tachos e panelas, discos de vinil, vitrola de 1901 movida à manivela, máquinas de escrever aposentadas, caixas registradoras, mais souvenirs, fotos de frequentadores e cartões-postais que recebia de marinheiros de todos os portos do mundo, presentes de amigos e visitantes que por lá passaram.

[detalhes curiosos da Captain's Shack, página do 'The Daily News' - a matéria de capa noticia o naufrágio do Titanic.]




Enfim, uma coleção extravagante disposta pelas paredes, teto, por todo o espaço do estabelecimento. Essa decoração bem ao gosto de alguns bares europeus que tem como dono, antigos marujos aportados que além de comerciar, gostam de contar velhos "causos".
CAPITÃO JESSÉ ROLIM E ALGUNS QUADROS DA CAPTAIN'S SHACK.

Especialmente preparado por D. Elce Rolim, espôsa do Capitão, o Rancho de Bordo sempre foi o atrativo principal da casa, além do atendimento hospitaleiro. O cardápio prestigiava a culinária do nordeste brasileiro e pratos estrangeiros, desde que agendados previamente com ela para dar tempo de providenciar os ingredientes, pois os pratos eram preparados na hora, informa ela numa reportagem na década de 1990. Aliás, tive eu (URBAIN G.) também o prazer de saborear nesses idos a famosa Galinha à cabidela preparada por Dona Elce.
Outras sugestões apreciadas do Restaurante eram o Baião-de-dois (arroz, carne-seca desfiada e feijão-de-fava gratinado, coberto com queijo do sertão). E ainda, carne-seca com mandioca. Embasado do conhecimento culinário adquirido, ele não deixava de estabelecer seu juízo:
"Há um engano muito grande do pessoal nordestino de falar que o Baião-de-dois é comida do nordeste. Não é, é prato de marinha! Tanto que é prato de marinha, que era comida de pobre... Nos hospitais se servia feijão com carne-seca (podia ser o feijão que fosse) farinha e mandioca. Era o alimento mais barato. Você tava hospitalizado, fazia operação, parturiente, tal... Era essa comida que tinha, e acabou... Entendeu?... Mas, ficou perpetuado no forró de Luiz Gonzaga (gravado em 1950)... (...)O Baião-de-dois, ele só varia o feijão. Os outros ingredientes são: farinha, mandioca, carne-seca... Porque não tinha refrigeração nos navios... Então era o charque que viajava com os tropeiros e navios.
A SEGUNDA 'CABANA DO CAPITÃO' NA ESTÂNCIA BALNEÁRIA.

Após 14 anos funcionando no ITAPEMA/SP, a 'CABANA DO CAPITÃO' mudou-se em 2005 para a Sede, no Guarujá, à Rua Quintino Boacaiúva Nº 534 - Vila Maia (à quatro quadras da Praia de Pitangueiras), onde continuou a receber visitas de pessoas de várias nacionalidades, a maioria tripulantes de navios que ancoravam no Porto, alguns diretamente atracados na margem itapemense.
"Eu odeio clientes e adoro amigos." - Definia ele em entrevista ao Jornal 'A TRIBUNA', o apreço que tinha pelos frequentadores da 'CABANA DO CAPITÃO'. Revelando que a idéia de criar o estabelecimento surgiu da sua vontade de reunir amigos.
Quero conhecer pessoas, afinal como bom nativo sou canibal." - Graceja utilizando as máximas de vida dos marinheiros.
Não raramente recebia visitantes da Alemanha, Estados Unidos, Holanda, Itália, Coréia, Inglaterra e outros países. Alguns personagens famosos e importantes passaram pelo local: o Diretor de Ciências Exatas da Universidade de Nova Iorque, Anthony Braganza. Joseph Vann Luyten, Professor holandês, o maior colecionador de Literatura de Cordel do mundo. A educadora Esther Stoock Brand, Diretora da Universidade de Lawrence, Texas. Delfim Netto, economista. As Apresentadoras Adriane Galisteu e Suzana Alves, a Tiazinha. A cantora Elba Ramalho, dentre tantos.
CAPITÃO JESSÉ ROLIM, FABULA NARRATUR DA "EMBAIXADA DO MUNDO".

Por ser relevante persona do quadro social da cidade recebeu em 2000, o Título de "Cidadão Guarujaense".
"O único Título unanimidade nos 80 anos da Câmara Municipal de Guarujá, 21 vereadores votaram e assinaram. O "Atleta do Século" Edson Arantes do Nascimento, o "Pelé" recebeu o mesmo Título com apenas 14 votos." - Compara ele ao referir-se num perfil da internet.
Foi agraciado também, no ano de 2001, com o Título de Cidadão de Santa Luzia (BA), cidade de origem da Família Rolim.
Em 2003, tornou-se membro do Conselho Cultural da Câmara. Tem mais de 2000 crônicas suas publicadas em diversas mídias do Brasil e Exterior.
Uma distinção especial seria-lhe concedida, MENÇÃO HONROSA do Sindicato dos Marinheiros Mercantes da Alemanha (Hamburgo), pela Comemoração do Dia da Marinha. Por ter conciliado na mesma mesa "Wessies" e "Ossies" (Alemães ocidentais e orientais), quando da "Queda do Muro de Berlin" (09/11/1989). Este episódio memorável é assim descrito pelo Capitão:




"Um dia, logo depois que caiu o Muro de Berlin, eu recebi três pessoas (alemães ocidentais). Eram 2 horas da tarde... Karl Stronberg (Comandante do CAP. TRAFALGAR), Karl Friederich Walter (1º Oficial de Máquinas) e Werner Uldehoof (Imediato). Eles sentaram e eu já sabia que era o tradicional, a jarrona de "caipirinha". Coloquei a mesa e vi o Comandante toda hora olhando no relógio. Aí eu perguntei, "Herr Comandante, no have time out?" (Meu Comandante, não tem tempo de folga... Tempo aqui fora?). Ele falou (no bom sotaque alemão atrapalhado), "não, não... Eu marca no perucaria com Zé Barbeira aqui, né... Pra cortar pêlo. E ele falou daqui dez minutos lá"... (...)Quando ele ia saindo, chegaram 4 caras com uniforme de bordo (alemães orientais, marujos de 1ª viagem). Eles ficaram em posição de sentido na porta, não entraram esperando o Comandante sair... Eu olhei aquele fato e associei... Sentaram numa mesa bem longe dos outros dois Oficiais que já estavam lá. Pediram 4 Beers...
Daí fui no Werner e falei, Werner, não tem outro navio de bandeira alemã no cais. Esses caras não são do teu navio, não são alemães? Aí ele disse de chofre, "esses filho da peste do comunista! Nós não quer papo com esses filho da puta!... O moeda deles valia 40 menos que a Marco do Alemanha... Agora, eles tudo ladrão, bandido!... Começa a ter assalto, roubo no Alemanha. E o economia vai tá fudido, nós vamos pagar esses vagabundos comunistas..." - O Imediato germânico falou pra Odin escutar, não poupou adjetivos aos compatriotas. Enquanto isso, os quatro tripulantes alemães orientais (first-time) permaneceram nos seus lugares, pois não entendiam "bulhufas" do idioma brasileiro. Nesse ínterim o Comandante Stronberg retornou à companhia dos amigos "wessies". Combinaram um happy-hour lá pelas 20 horas, com porções de camarão-pistola... Ao saírem os Oficiais alemães ocidentais, os marinheiros "ossies" ficaram de pé... Um pouco depois pediram a conta, mas também decidiram retornar mais à noite, por volta do mesmo horário. O Capitão Rolim achou aquilo bem esquisito, sem sentido, e conversando com a mulher confessou:
"(...)Eu vou sacanear os oficiais do CAP. TRAFALGAR... Não, o Stronberg vai se fuder. O que ele tá pensando! Isso aqui é Itapema (Brasil). Não, não é isso não..." - Causou-lhe estranheza a indiferença de uns para com os outros, aquele sentimento discriminador. Então bolou um plano perspicaz. Reservou a pedido, a mesa para os Oficiais "wessies" e bem próximo, deixou outra mesa destinada aos marujos "ossies". Os demais lugares da CABANA, o Capitão ajeitou como reserva fictícia. De modo a obrigar que todos se sentassem juntos... Primeiro chegaram os Oficiais do CAP. TRAFALGAR, seguido dos marinheiros alemães "orientais". Notaram a presença dos Oficiais e dirigiram-se para uma daquelas mesas falsamente reservadas. Maroto, o Capitão indicou sentarem noutra à frente, perto do Comandante Stronberg...
"(...)e aí eles não queriam ir, meio vacilando, tal... Naquilo que um deles chegou perto da cadeira, eu sentei. Quando os outros puxaram as cadeiras pra sentar, eu peguei a mesa ("ossies") e encostei na mesa do Comandante, o Stronberg estrilou: "Filho do puta! Vai tomar pelo culo!... Você é doido do cabeça, caralho!! Fazer esses porras desses comunistas sentar junto com a gente... Que porra, você vai quebrar o hierarquia do meu navio..." Eu respondi, Stronberg, filho da puta é você! Que tá com resquício da Segunda Guerra Mundial... Seu navio tá lá no cais, aqui é meu navio! Aqui é Brasil, se junta preto, vermelho, amarelo, branco, judeu com muçulmano, árabe... Isso aqui é outra coisa. Não venha trazer este espírito capitalista, segregacionista pro Brasil. Principalmente, pro meu bar... Eu não vou deixar de servir ninguém." - Criou-se um verdadeiro impasse diplomático, porém resolvido no silêncio da sensatez.


"Eu comecei a servir... Daí coloquei pra tocar Fred Queen (cantor alemão que se vestia de marinheiro), Marlene Dietrich, Edith Piaf... (...)Quando foi 4 horas da manhã tava tudo bêbado, dançando um com o outro... Eu disse pro Werner, se você tiver que sair pra fumar um cigarro no passadiço, tá uma noite bonita, tá uma noite feia, você vai lá pro convés... E um cara desses tá de vigia, dá uma onda, um negócio qualquer e você dá um escorregão, cai no mar. É esse cara que vai gritar "Homem ao mar!", jogar o salva-vidas pra você... Pra que essa frescura de Alemanha ocidental, oriental!? Acaba com isso, rapaz... (...)Flag is big sheat! (Bandeira é uma grande merda!)... E esses marinheiros contaram lá no Sindicato de Hamburgo desse fato."
    CAPITÃO ROLIM EM CONTINÊNCIA AOS MERCANTES DO MUNDO.

Durante aquela Cerimônia do Dia da Marinha, teve o prazer de ouvir o comentário elogioso da Srª Dóris (Vice Cônsul da Alemanha, em Santos) compartilhado entre amigos:
"-  Este f.d.p. tem mais prestígio e confiabilidade do que eu dentro da Marinha Mercante Alemã" - Nisso levantou-se uma figura avantajada e abraçando-o também assentiu:
" - Concordo com os palavras desta Srª Dóris." - Pastor, dirigente da SEAMEN MISSION.











Como o processo de implementação de um Pólo Cultural previsto para a Ilha de Santo Amaro naufragou nas estâncias políticas e sua própria conjuntura pessoal, o Capitão Jessé Rolim preferiu recolher velas e lançar âncora ao encerrar as atividades da 'CABANA DO CAPITÃO', em 12 de Junho de 2008.
Todavia o Capitão continua por aí, tocando  o barco da vida, às vezes contra a maré, fiel a filosofia do mar: Nade ou afunde... Saudações Marinheiras!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Sociedade @lternativa ITAPEMA



Era uma daquelas noites festivas no '&ociedade @lternativa - &.@'. Duma só vez apareceram Tetê, Altério, os Bródis Pink e Floyd, mais grande elenco. Bartô atribulado com as porções assava na fornalha da cozinha... O alvoroço na entrada despertou a atenção. Um homem de roupas puídas, trazendo às costas uma trouxa distribuía pontapés nos cães itapemenses em seu encalço. Aparentava dez mil anos, mas não de decrepitude. Sentou no balcão pondo-se a conversar alto com D. Iaci, enquanto esta media a dose no copo.
- Como é admirável viver em sociedade! Gozar da Democracia... A senhora não acha? - Riu pousando a vista pelo recinto. A súcia rumorejava quando ele interrompeu. Nós estacamos um minuto. - Isto me soa tão familiar. A civilização global... Babélica!!... Do lugar donde vim essa falsa unidade nos dá certeza de que aqui fora apesar de junta, a humanidade sonha um sonho só. E sonhar só é estar sozinho... - Caminhou até o meio do salão.







- LiberOz lhes convida... Sejam benvindos! Estejam prontos para a viagem. Sem bagagens para velhas coisas... Próxima de Anarkland, paraíso sem fronteiras. Situadas no plexo solar e no limiar das nossas consciências. Está dentro de você. Muda primeiro o teu interior. A paisagem que te agrada seja a tua morada... Numa toda gente parou pra ganhar novo rumo. Noutra a cidade é de cabeça pra baixo. Nelas a igualdade está na diferença. Além disto, sabe o que há de incomum entre elas?... Não existem cânones ou dogmas sociais. Ninguém teme ser conforme sua própria vontade, pois é tudo da lei. É direito comum colher da árvore do conhecimento quantos frutos quiser. E aprender com a serpente seus ensinamentos. Morder os calcanhares daqueles que lhe pisam... Evoluir para o almejado nirvana das crisálidas. Lá nós não apenas planejamos o futuro, realizamos no agora...
  PRÉDIO ONDE FUNCIONOU NO TÉRREO, O BAR E RESTAURANTE 'ESTAÇÃO ITAPEMA' [2001], CENÁRIO DO UNIVERSO PARALELO DE PERSONAGENS DO BAR '&ociedade @lternativa'.

Isso é loucura? Insano mesmo é se fiar na fantasia dos filmes, das peças teatrais e nas novelas... Nos livros. Ao invés de transmutar nossa realidade, que os jornais descrevem como tragédia rotineira. E assim, o humano harmoniza-se com a natureza, seus semelhantes, consigo mesmo... Quando vocês vão se cansar de querer mudar aquilo que não tem conserto? Maquiar este sistema de face horripilante. Seu desejo é uma plástica bonitinha. Melhorar o aspecto, mas a feiúra está lá!... Nessa bonita ilusão. Vocês ainda guardam esperanças, alguns são jovens tem todo tempo disponível. Preferem ficar aí descansados, boquiabertos, em paz com vossas existências à espera do conforto no jazigo... - Pairava por entre as mesas um silêncio tumular. - Honrados cidadãos, lhes tiro meu chapéu!
E assim como tendo surgido, desapareceu... 
Então, eu disse a eles enquanto fui à entrada do bar verificar. Pois estávamos perplexos:
- Meu... Vocês viram o cara, que figura! - Ele dera uns "toques". Bródis Pink e Floyd podiam jurar, tocava justamente "The Number of the Beast", rock do ACDC, no walkman que dividiam... Ouvia-se apenas pela noite os latidos da matilha de cães do Itapema nos seus calcanhares.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

NOS BRAÇOS DE MARIA BONITA E CIA

PANFLETO UTILIZADO PARA DIVULGAÇÃO DA PIONEIRA CASA DOS PRAZERES EM ITAPEMA/SP.

"...Que novidade era aquela!? Propaganda corpo a corpo dum puteiro?" - A jovem ao entregar-me de passagem o panfleto, numa mesa do Skina Lanches, sorria instigante, as voluptosas formas incontidas dentro da minúscula peça de roupa... Haveria de conferir. Separado já algum tempo e sozinho nada tinha a perder. Às vezes é melhor pagar do que empreender adulações num relacionamento sério, visando os prazeres da alcova. No frigir dos ovos, de graça também não seria. Aprendera ser prático. Sem compromisso de responsabilidade mútua, promover felicidade ou cumprir promessas. Apenas o extravasamento puro e simples do gozo...
[Antigo prédio da casa dos prazeres 'MARIA BONITA']


Como assíduo frequentador, logo fiquei íntimo conhecedor dos bastidores daquele prazeroso antro. Conheci um casal de lésbicas, cuja "sapata" não permitia sequer que sua parceira a tocasse com carícias femininas. Fazia questão de armar-se com um strap-on à cintura para estocar masculamente a frágil companheira.
Passava horas a saborear o inábil strip-tease das garotas, encharcava-se de suor e cerveja decidindo a escolhida da noite. Num canto a cafetina vigiava atenta o movimento. Vez ou outra atiravam fora um caminhoneiro insolente. Um visitante local sem grana convidado a sair, porque ali não era boteco. Contrariando a propaganda...
- Veio fazer o quê aqui sem grana? Procurar namorada?
- Não tenho hoje... Posso ter amanhã.
- Então passa depois...

[Entrada da antiga casa dos prazeres 'MARIA BONITA' em Itapema/sp]


Apareceu por lá uma vez, a vadia mais tesuda que transei nesses anos todos. Ceiça, fêmea capaz das maiores diabruras por dinheiro. Depressa quis provar-lhe o gosto. A preços módicos arquitetamos deliciosos menáges, que nos levavam à exaustão.
Ficamos amigos. Contou que na escola passara por santa, a recatada da turma. Me daria tudo menos o coração, pois era minha e de tantos outros. Debochava maliciosa da ingenuidade dos homens. Mesmo assim, quase me deixei enganar pelo seu teatro bem representado, vítima duma paixão repentina. Mas felizmente, como por desencanto ela sumiu...
Muito tempo depois encontrei-a, puxava uma criança pelo braço e trazia outra na barriga estufada. Sua beleza havia sido subtraída, nem parecia aquela Ceiça. Viera visitar os pais, ainda morando em Vicente de Carvalho. Sequer tocou no assunto da antiga profissão. Casou-se, disse-me, levando vida de mulher doméstica.
   

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

POLTERGEIST NA RUA NOVA ESPERANÇA

REALIDADE OU MITO? TERIA OCORRIDO UM FENÔMENO POLTERGEIST NUM ANTIGO CHALÉ DA RUA NOVA ESPERANÇA? - ITAPEMA/SP.

Os antigos do saudoso Itapema/SP, ainda se recordam. Já tanto tempo ocorrido o causo da "Casa de Sangue", agora até contam com certa zombaria. Se é verídico?... Um dos moradores trabalhou na Escola 'Walter Scheppis'.
Fatos tenebrosos aconteciam naquele rústico Chalé (num beco da atual Rua Nova Esperança - Bairro Pae Cará). A casa, por obra não se sabe do quê, escorria sangue pelas paredes. Começou do nada. Muito se falava, mas pouco se sabia...
Maldade da primeira moradora. Mulher enciumada, que esquartejara o companheiro e para não ser descoberta enterrara o corpo no porão, diziam alguns por ter ouvido um velho boato. Para outros a estória era diferente, obra do espírito agonizante duma moça que suicidou-se talhando os pulsos, molestada pelo pai. Ali fora um antigo "terreiro" de escravos do Itapema à época dos Jesuítas.
 RUA NOVA ESPERANÇA (BAIRRO PAE CARÁ) ITAPEMA/SP [2014].

Sabia-se por ouvido e visto que a dona do Chalé ao fazer arroz, metade na panela ficava branco e a outra tinha sangue. Outras comidas cozidas davam ao paladar um estranho amargor. Mesmo o pirão, o mingau avermelhavam dali um tempo de prontos.
Quando os donos deitavam-se na cama ao levantarem ficava marcado o contorno do corpo no lençol. As roupas manchadas daquele carmim aterrorizante. Macabro um quadro da Sagrada Família minava sangue.
Sobressaltada a Família, ante o desespero dos filhos e pra desvendar o mistério, viu-se um ponto de visitação da vizinhança e de curiosos itapemenses.
O estranho fenômeno paranormal chegou à Paróquia. Solicitaram ao padre que exorcizasse o "terreiro do capeta". Porém tudo que o pároco fez, foi repreender tamanho desatino. Censurou os fiéis, pois davam ouvidos às artimanhas do Demo e não aos milagres de Cristo. Mas então apareceu um clérigo, como que saído do livro de William Peter Blatty, trouxe crucifixo e terço para rezar. Invadiu a casa resoluto, de dentro escutou-se algumas repreensões vociferantes, deixou o lugar às pressas e todos que aguardavam fora correram também assustados.
Os incrédulos respondiam ser por causa da madeira picumã, tábuas de parte do revestimento da Cozinha, que com a umidade e o calor pingava seiva avermelhada do teto. Ou condensação da fumaça vinda da queima de picumã, pois a família cozinhava num fogão à lenha.
A notícia caiu na "boca do mundo", não tardou a reportagem do Programa 'Polícia no Ar', fazer matéria em frente ao soturno Chalé, entrevistando os envolvidos. Tabloides cobriram o fenômeno, página inteira.
ENCRUZA ONDE FICAVA O CHALÉ QUE VERTIA SANGUE PELAS PAREDES - RUA NOVA ESPERANÇA [ITAPEMA/SP].

Havia noites que a ventania sibilante tornava tudo muito assustador. Os gatos faziam dali seu recanto, vivendo num frenesi noturno infernal. Agourentos os cães uivavam. Morcegos voavam sobre o telhado, vindos dum "Pé-de-Cuca" dali perto, sustados por apitos dos navios no Porto... Pensavam em botar fogo, mas quem se atreveria chegar perto e atiçar o incêndio, despejar os moradores. 
- Deus tá vendo. Se é para o Bem de todos... - Alguém justificou numa roda de conversa acalorada. Intercedeu pastor, espírita, contudo não suportavam as energias sensitivas fugiam transtornados.
Numa medida desesperada vizinhos convocaram soldados da Base Aérea, que vieram com um trator pra demolir o Chalé mal-assombrado, caso preciso fosse. Entretanto, até mesmo estes vacilaram adentrar o quintal, depois de inspeção e séria conversa com o proprietário, alegando necessitar de uma ordem expressa do Órgão Municipal.
VISTA REVERSA DA ENCRUZILHADA - LOCAL DA "CASA DE SANGUE" - ITAPEMA/SP.
 
Juvêncio, garoto malino, desafiando os conselhos, naqueles momentos de histeria coletiva, entrou na cozinha envolta no fumacê... Uns oravam, surravam as "tábuas de forrão" com ripas nas juntas, exorcizando a moradia possuída, o peralta sentia o Chalé sacudir. Saiu pálido, olhos esbugalhados, sem voz. Depois se perguntavam, desconversava. Jamais quis dizer o quê passou-se lá.
Assim quem cruzava por ali defronte, olhando a lúgubre moradia no beco, sempre lembrava arrepiado do tal caso e benzia-se imediatamente a esconjurar. A estória durou por muitos anos, até que rasgou-se outro trecho da Rua Nova Esperança, ligando à "Rua das Torres", passando pelo local onde ficava o Chalé que escorria sangue.