__________ Itapema, suas histórias... __________

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A NEGRITUDE DA ILHA

BUSTO ZUMBI DOS PALMARES, PRAIA DA ENSEADA DE SANTO AMARO/SP [DEC. 1960].

A presença negra na Ilha de Santo Amaro, segundo evidências remonta ao século XVIII. Como em todo o Brasil foram trazidos da África para o trabalho pesado das lavouras, extração em jazidas de ouro e pedras preciosas, dentre outras atividades extenuantes. Contudo, contribuíram primordialmente para a formação do povo e da cultura nacional brasileira. Através da miscigenação, culinária, música, esporte, dança, religião etc.
Ainda no século XVII, camaristas da Vila de S. Vicente escrevem em documento, de Junho de 1621, dirigindo-se a Martin Corrêa de Sá sobre a necessidade de mão-de-obra escrava para as sesmarias da região:
"(...)Juntamente mandamos a V. S. o auto da posse traslado, foral e aviso sobre o regimento de Ouvidor; advertindo demais a V. S. o bem que se poderá alcançar de El- rei, em uma provisão para os negros que de Angola vierem em esta Capitania, a fim de se pagarem os direitos deles em açúcar e fazendas da terra, como passou na Vila do Espírito Santo; para que vá em mais aumento da terra, e acudam a ela escravos, pela muita mortandade que houve do gentio; pois se impede agora o ir buscá-los ao sertão, e não havendo gentio, totalmente se acabará de perder esta terra..."
MAPA DE 1719 - ILHA (CAPITANIA) DE SANTO AMARO AO CENTRO, ASSINALANDO ALGUMAS POSSES E CONSTRUÇÕES.

Foi a Ilha santo-amarense ativo entreposto de escravos, entre os séculos XVIII e XIX. Consta que neste período o número de escravos negros seria maior do que o de colonos livres. Valêncio Teixeira Leomil, proprietário de terras na região norte da Ilha, era traficante de escravos e mantinha grande número de negros cativos na Fazenda Perequê, conhecida pela Capela dos Escravos erguida no século XVIII.
A FAZENDA PEREQUÊ  UTILIZAVA ESCRAVOS EM SUA PRODUÇÃO AGRÍCOLA - ILHA DE SANTO AMARO/SP.
A CAPELA DOS ESCRAVOS NA SEDE DA FAZENDA PEREQUÊ - ILHA DE SANTO AMARO/SP [DÉCADA DE 1960].

Outro que também valia-se da mão-de-obra escrava foi João Teixeira Chaves, contando com 63 cativos para a produção do Engenho dos Chaves, enorme latifúndio estendendo-se do Rio Bertioga até o Morro Santo Amaro, além das várzeas da Praia da Enseada e grande parte de Pitangueiras.
O Censo da Capitania de S. Paulo no ano de de 1772 identifica ainda prosperarem na Ilha de Santo Amaro, Engenhos de açúcar em que começavam a trabalhar pretos africanos chegados para substituir os índios, raros já, os quais não podiam ser escravos.
A mão-de-obra negreira explorada diversamente. As instalações da Armação de Baleias, existente no "rabo do dragão" da Ilha santo-amarense, consistiam numa casa de sobrado, armazém, tanques de azeite, casa do engenho, três casas para amarras e barcos, casas dos feitores, casa dos baleeiros, trinta senzalas para escravos negros e cais de pedra.






Devido a proibição ao tráfico, os navios negreiros burlavam a fiscalização Alfandegária do Porto de Santos desembarcando as "peças da África", na Praia da Enseada de Santo Amaro. Os negros ficavam alojados em barracões, vendidos, dali  eram enviados ao interior do Estado de São Paulo clandestinamente. Também provendo as necessidades dos Engenhos locais. Por décadas, ruínas e vestígios subsistentes destes depósitos do tráfico negreiro permaneceram nas imediações das areias da Praia da Enseada - conforme anotações da pesquisadora Baronesa Esther Sant'Anna de Almeida Karwinsky.
DETALHE MAPA ONDE SE VISUALIZA REGIÃO DE ANTIGOS LATIFÚNDIOS NA ILHA (CAPITANIA) DE SANTO AMARO/SP.

Aviso Régio de 21 de Outubro de 1817, republicado 60 anos depois na Revista Nacional de Sciências, Artes e Letras (1877) descreve denominações, extensões, senhorios, títulos de terras da região da Ilha de Santo Amaro. Bem como, um apanhado do contingente negro por estas bandas:
"Morrinho - Cinquenta braças de testada e trezentos de fundo, até o cume mais alto, parte de um lado com terras do Estaleiro e de outro com terras de Manoel Rodrigues; pertencente ao Capitão-mor João Baptista da Silva Ramos por título de compra; estão arrendadas para a Feitoria da Casca de Mangue para curtume, e são cultivadas por dois escravos.
LABUTA NO CANAVIAL, COTIDIANO SIMILAR AS LAVOURAS DA ILHA SANTO- AMARENSE.

Crumahú - Mil braças de testada e quatrocentos e cinquenta de fundo até o pico do morro, parte de um lado com terras do Emboaba, e de outro com terras do Capitão Manoel Alvarenga Braga, é patrimônio da Capela de Nossa Senhora da Apresentação, ereta no mesmo sítio do qual é administrador o Tenente-Coronel José Vicente de Oliveira, parente dos intuitores, cultivada por Pedro Francisco da Costa, com seis escravos, por concessão do Administrador
S. João do Crumahú - Quinhentas braças de testada, e trezentos de fundo até o pico do morro, parte de um lado com terras de Nossa Senhora da Apresentação, e de outro com terras de João Antonio de Souza, pertencente ao Capitão Manoel Alvarenga Braga, por título de compra, e cultiva com dezoito escravos.
ENGENHO DE AÇÚCAR SIMILAR AOS HAVIDOS EM ITAPEMA/SP E OUTRAS REGIÕES DA ILHA DE SANTO AMARO.

Caxueira de Santo Amaro - Quatrocentas braças de testada e trezentos de fundo, parte de um lado com terras de José da Silva Santos, e de outro com terras de D. Maria Barboza da Silva, pertencente a D. Maria Rosa de Oliveira, por título de herança, e cultiva com onze escravos.
Porto de Santo Amaro - Trezentas braças de testada, e duzentas de fundo, parte de um lado com terras de D. Maria Rosa de Oliveira, e de outro com terras da Glória; pertencente a D. Maria Barboza da Silva por título de compra, e cultiva com nove escravos.
Porto de Guaibê - Quarenta braças de testada, e trezentas de fundo, até o pico do morro, parte de um lado com terras da Olaria, e de outro com terras de Theodoro de Menezes Forjaz, pertencente a D. Rosa Maria Leite, por título de compra, e cultiva com nove escravos.
MOENDA RÚSTICA MOVIDA POR TRAÇÃO ANIMAL, SIMILAR AS USADAS NOS ENGENHOS DA ILHA DE SANTO AMARO/SP.
RANCHO DO ENGENHO DE AÇÚCAR SIMILAR AOS CONSTRUÍDOS EM REGIÕES DA ILHA DE SANTO AMARO.

Conceição - Duas mil e duzentas braças de testada e duas mil de fundo, parte de um lado com o Rio chamado Santo Amaro e terras de D. Maria Rosa de Oliveira, e de outro com terras do Itapema; pertencente ao Dr. Médico Joaquim José Freire, por título de arrematação de bens dos extintos Jesuítas, cultiva com cinco escravos e cinco moradores com suas famílias que trabalham gratuitamente.
Itapema - Oitocentas braças de testada, e mil de fundo, parte de um lado com terras da Conceição e de outro com o Rio Acarahy e terra do Convento do Carmo; pertencente uma parte a Alexandre Dias, por título de herança, cultiva com oito escravos.
Acarahy - Três mil braças de testada, e outro tanto de fundo, parte de um lado com o Rio Acarahy, e D. Maria Rosa de Oliveira, e com terras de Itapema, e de outro com terras do Sítio Maratão-há; pertencente ao Convento do Carmo por título de doação e cultiva com cinco escravos.
PREPARO RUDIMENTAR DE AÇÚCAR E RAPADURA, SIMILAR AO PROCESSO UTILIZADO NOS ENGENHOS DA ILHA DE SANTO AMARO.

Maratão-há - Trezentas braças de testada e quinhentas de fundo, parte de um lado com o Rio chamado Maratão-há, e de outro com outro rio que vai para o Sítio do Sacco, os fundos parte com terras do Convento do Carmo, e do dito Saco; pertencente ao Capitão Manoel Alvarenga Braga por título de compra e cultiva com cinco escravos."
Nestas anotações contabilizamos o número de 79 escravos.
Como vimos acima, fato é que as Ordens religiosas utilizavam-se do trabalho escravo empregando negros em suas Fazendas e Sítios do Itapema e no restante da Ilha de Santo Amaro. Sejam Jesuítas ou padres Carmelitas da Ordem Terceira do Carmo (Fazenda Conceição e Sítios do Convento da Paciência). Mesmo os Jesuítas da Companhia de Jesus que defendiam a Liberdade dos nativos indígenas, admitiam a escravidão do africano. Pedindo à Coroa Portuguesa, negros da Guiné para seus serviços tal qual fez Manuel da Nóbrega em carta.
Os escravizados das Fazendas de Cana-de-Açúcar, da Ilha Santo-amarense, onde também produzia-se água-ardente, estavam sujeitos à rigorosa disciplina a fim de não se acostumarem com o vício pela pinga.
SERRAR MADEIRA UMA DA MUITAS TAREFAS DESTINADAS AOS ESCRAVOS NEGROS.

Censo de 1822, ano inaugural do Império Brasileiro de D. Pedro I, em Lista Geral dos habitantes existentes, suas ocupações, condições, empregos, abrangendo Itapema até as cercanias da Praia de Guarujá, registra a presença de negros escravos e possivelmente alforriados. Vivendo da lavoura, pesca, da faina marítima, dos serviços domésticos. Nomina dentre brancos e miscigenados, os habitantes negros circunscritos a esta região da Ilha de Santo Amaro:
Anota 4 escravos (não identificados) em propriedade de Senhor branco, casado, 42 anos - Embarcadiço. Outros 2 escravos (sem identificação), trabalhando numa lavoura de Senhor branco. viúvo, 76 anos...
"Agregados:
Rosa (mulher do dito), parda, casada, 30 anos.
Polyxena, parda, solteira, 20 anos.
Francisco, pardo. solteiro, 4 anos." - Vívido retrato da formação do Povo Brasileiro.
"(...)4) Joaquim Mexêdo, negro, casado, 52 anos - Vive da lavoura.
Rita (sua mulher), parda, casada, 32 anos.
Tem 1 escravo agregado.
5) Maria Francisca, parda, solteira, 42 anos - Rendeira.
Rita Maria (sua irmã), parda, solteira, 45 anos.
Ignacio (irmão), pardo, solteiro, 30 anos.
Maria (filha deste), parda, solteira, 1 ano.
Agregados:
Seraphim, negro, solteiro, 48 anos.
Ivo, pardo, solteiro, 30 anos.
NEGROS DESEMBARCAM TELHAS, FAINA COMUM DOS AFRICANOS ESCRAVIZADOS NO BRASIL [MEADOS SEC. XIX].

6) Raphael da Motta, pardo, casado, 80 anos - Pescador.
Anastácia (sua mulher), parda, casada, 58 anos.
7) Gaspar Martins, negro, casado, 45 anos - Vive de lavoura.
Catharina (sua mulher), negra, casada, 32 anos." - Na família de um pescador branco, casado, 52 anos, identifica...
"(...)Gertudres (sua mulher), parda, casada, 30 anos.
Filha: Felibina, parda, solteira, 8 anos."
Fornecendo informações das estruturas familiares, suas interações profissionais e sociais no modesto arrabalde santo-amarense.
"(...)9) José Ignacio, negro, casado, 50 anos - Vive da lavoura.
Monica (sua mulher), parda, casada, 30 anos.
Filhos:
Generosa, parda, solteira, 8 anos.
Antonio, pardo, solteiro, 7 anos.
Adilindes, pardo, solteiro, 5 anos.
José, pardo, solteiro, 3 anos.
Agregado:
Cláudio de Oliveira, pardo, solteiro, 50 anos.
Tem 2 escravos."
Os levantamentos no Distrito apontam 9 escravos, 5 negros e 19 consignados como pardos.

Relato sui generis acontecido num dos Sítios da Ilha de Santo Amaro revela a condição vivida por um desses escravos:
Em 1833 no Sítio denominado Porto, pertencente então ao espólio de D. Rosa Maria Leite, estava uma escrava de nome Luzia a plantar ramas de mandioca em uma roça, quando viu aproximar-se dali um cavalo tentou desde logo enxotá-lo. Mas aconteceu dar-lhe o animal um coice na barriga e ficar enferma a referida escrava.
Contra a introdução desmedida, sem controle, de gado vacum e cavalar no aludido Sítio, os quais só serviam para destruir as plantações, os arvoredos, e para causar prejuízos como esse do ferimento da escrava, protestou judicialmente Joaquim José Lopes, sendo testamenteiro e inventariante de D. Rosa Maria, contra o herdeiro depositário do imóvel - José Marques Leite.
Tendo designado Médico de sua confiança, o Sr. José Maria da Costa e Paiva, para avaliar. Procurou este mostrar que a doença da Escrava não resultara do coice recebido, mas que já sofria ela de uma moléstia crônica, que se agravara por outros motivos. Disso, a prova mais concludente que o depositário pode oferecer está no seguinte Atestado:
"Eu abaixo assinado atesto que, no dia 24 de Outubro do presente ano, fui chamado para ver na qualidade de Professor, a preta Luzia, de nação Conga, a qual encontrei com uma inflamação no estômago, intestino, duodeno e fígado; tendo feito a análise médica necessária, conheci com evidência que esta inflamação existia no estado crônico desde longo tempo, e que no estado atual não fez mais do que exacerbar-se, por infração do regime que devia conservar, atendendo sempre ao seu estado. Eu lhe apliquei os socorros que a arte aconselha em semelhantes casos, os quais aproveitaram, e se acha restabelecida,
Contudo, não assevero que deixará de ser de novo insultada do mesmo ataque se for excessiva em tabaco ou gula. Passo o referido na verdade, e o juro aos santos Evangelhos.

                                                  José Maria da Costa e Paiva."

A escrava Luzia era casada, contava 50 anos de idade, e tinha sido avaliada no inventário por 100$000. Os honorários médicos cobrados pelo seu tratamento andaram em 16$000, conforme nos mostra este Recibo:
"Recebi do Sr. José Marques Leite a quantia  de Dezesseis Mil Réis, pelo curativo que fiz, na qualidade do Professor, à preta Luzia, Conga.

                                     Santos, 12 de Dezembro de 1833.

                                                  José Maria da Costa e Paiva."

PROPRIETÁRIA DE TERRAS NA ILHA DE SANTO AMARO E UM SEU FUNCIONÁRIO NEGRO - INÍCIO DO SÉC. XX.

Vejamos algumas Estrelas que brilham na Constelação Negra desta nossa Ilha de Santo Amaro:

Representante ilustre da negritude Benedito Martins das Neves [imagem à esquerda], santista de origem, mas santo-amarense por adoção, nascido em 02 de Agosto de 1944, filho de Geraldina Aparecida de Jesus e João Martins das Neves, logo cedo começou a trabalhar ajudando a família no sustento. Serviu o Exército Brasileiro, período da juventude em que iniciou sua dedicação ao Samba.
Benê da Rosalina, como era conhecido, começou a sua trajetória no Carnaval participando do Bloco 'Batutas da Voturuá', em São Vicente/SP, desfilou pelo tradicional Rancho Carnavalesco 'Chineses do Mercado' (Santos/SP) e o saudoso Rancho 'Sonhadores do Itapema'.
Em 1972, passou a frequentar a recém-formada Escola de Samba 'Mocidade Amazonense', sediada no Distrito. Dois anos depois (1974), fez seu primeiro desfile pela querida "Verde e Branco" da Ilha. Integrou a Ala de Compositores da G.R.C.E.S. 'Mocidade Amazonense', parceiro requisitado de muitos Bambas que fizeram história.
ENTRE OS COMPOSITORES DA 'MOCIDADE AMAZONENSE', BENÊ DA ROSALINA.

Benê foi um dos compositores do Samba-Enredo de maior sucesso da Agremiação Carnavalesca, "Viagem Encantada ao Paraíso das Flores", concorrente do Carnaval de 1981. Em um desfile memorável, a 'Mocidade Amazonense' entrou de vez na Elite do Samba. Este Samba-Enredo ainda ganhou outros prêmios como o melhor Samba da Baixada Paulista, em Festival do gênero no Ilha Porchat Clube. Cantado numas tantas Quadras das Escolas de Samba do Brasil.
BENÊ DA ROSALINA NA AVENIDA DO SAMBA - ITAPEMA/SP.

No ano de 1986, o Sambista assumiu a Presidência da Escola, que acumulava muitas dívidas com os proprietários do terreno, onde ficava a sua Sede e junto ao comércio que fornecera material para as obras de construção e cobertura da Quadra de ensaios. Diante do problema. e com o desfile da 'Mocidade Amazonense' comprometido, num misto de determinação e loucura, Benê da Rosalina penhorou sua própria residência para saldar as contas da Escola de Samba e garantir o Carnaval.
Benê teria ainda outros feitos no mundo do Samba como a composição do Samba-Enredo, que deu o primeiro Campeonato do Carnaval Metropolitano à 'Mocidade Amazonense' ("Feitiço da Ilha"), com o Enredo "Dias Gomes: A Epopéia do Teatro Nacional".
BENÊ DA ROSALINA NUM PROGRAMA DE TV, RECONHECIMENTO DE SUA ARTE.

Em 2004, fundou e foi Presidente da Liga das Entidades Carnavalescas da Ilha de Santo Amaro (Liecisa), que resgatou o Carnaval no município. Retomando os Desfiles das Escolas de Samba, interrompido pela Prefeitura.
No ano de 2009, seria escolhido Cidadão-Samba do Carnaval santo-amarense. Uma honraria pela significativa contribuição à Cultura.
Em uma de suas entrevistas, o Sambista reafirmou:
"Depois da minha família, o samba é minha maior paixão."
Benê da Rosalina faleceu num sábado, dia 22/06/2012, aos 67 anos.
PASSISTAS DA ESCOLA DE SAMBA EVOLUEM NA AVENIDA [MOCIDADE AMAZONENSE] - DÉCADA DE 1970 ITAPEMA/SP.
O SAMBA NO PÉ DOS PASSISTAS AGREMIAÇÃO CARNAVALESCA -  CARNAVAL DA ILHA DE SANTO AMARO MEADOS DE 1970 [ITAPEMA/SP].
TRADIÇÃO DO CARNAVAL DA ILHA DE SANTO AMARO/SP - ESCOLA DE SAMBA 'MOCIDADE SÃO MIGUEL' (2013).
ESCOLA DE SAMBA 'VEM QUE É DEZ' ENALTECE A CULTURA (2013) - ITAPEMA/SP.
TÍPICA RODA DE SAMBA EM ITAPEMA/SP.


Destacamos agora neste Panteão de personalidades, Marlene Maria dos Reis Rodrigues [imagem ao lado]. Filha de mãe brasileira e pai inglês, sua vida foi repleta de mudanças. Rio de Janeiro até os 13 anos de idade, Estados Unidos da América (USA) até os seus 18 anos.
Num período difícil da Humanidade, Dona Marlene (como a chamavam) prestou Serviço como Enfermeira em um Navio-Hospital Aliado no decorrer da 2ª Guerra Mundial.
Durante onze anos foi Enfermeira e Intérprete, mas de retorno ao Brasil seria presa em Recife ao desembarcar, acusada de espionagem. Não recebendo tratamento de Brasileira por ser filha de estrangeiro. Chegou a ser torturada, entretanto libertada por falta de provas.
Morou no Bairro Vila Zilda. Constituiu família, fez muitos amigos, que lhe valeu receber a doação da casa onde morava de benfeitores ingleses. Num dos cômodos da residência mantinha, cadeiras e uma pequena lousa, na qual ministrava aulas de Língua Inglesa para as crianças da comunidade.
MARLENE MARIA DOS REIS RODRIGUES NUM DOS SEUS MUITOS MOMENTOS DE ENCANTAMENTO.

Participante ativa de várias Entidades, integrou a Associação de Mulheres 'Carolina Maria de Jesus', quando num dos eventos protagonizou a Peça Teatral 'Retrato em Preto e Branco', adaptação para o livro 'Diário de Bitita', de Carolina Maria de Jesus. Dirigida por Urbain G. (1990). Cuja apresentação contou com a presença da filha desta batalhadora escritora negra. 
Participou de número musical, cantando um Blues, no Espetáculo Teatral do Grupo TECUISA - Teatro e Cultura da Ilha de Santo Amaro, direção de Ferreira Sampaio.
A partir de 2005, a Câmara Municipal com o Decreto Legislativo nº 905, homenageia as Mulheres da Sociedade, instituindo o Prêmio  de reconhecimento que leva o seu nome.
O ESPLENDOR DA NEGRITUDE FEMININA NO CARNAVAL.
A GRACIOSIDADE MALEMOLENTE DA MULHER NEGRA.
A BELEZA AFRO-BRASILEIRA DO HOMEM NEGRO.


Na vertente religiosa da cultura afro-brasileira, evidencia-se a figura de Pai Bobó de Iansã (Babalorixá do Candomblé "Ilê Olóya"), seu verdadeiro nome era José Bispo dos Santos [imagem ao lado], filho de africanos da Nação Ketu, nascido em Salvador/Ba. Há divergências quanto a data do seu nascimento. Alguns apontam que foi em 1914. Outros, em 6 de Outubro de 1915.
Foi inserido na Religião ainda menino, aos 4 anos de idade. Sua mãe inclusive decidiu por se iniciar também neste período. E como Pai Bobó ainda era amamentado no peito, seria iniciado como "feito de santo", ou seja, um iniciante na Religião independente da idade.
Nesta época devido ao conservadorismo, no Estado baiano, os homens do Candomblé não podiam usar saias ou enfeites, pois havia o preconceito de homens dançarem em "Rodas" (Gira), somente quando um Orixá incorpora. Daí eles apenas observavam.
Já rapaz, Pai Bobó conheceu uma grande Yalorixá, a Dona (Mãe) Cotinha de Ewa. Um dia, ele foi chamado a participar de uma festa a convite desta Yalorixá. Assim, Pai Bobó tomou obrigação com ela. Eis que Iansã incorporou nele, consagrado-o. Na Casa de Oxumaré fez fiéis amigas, Mãe Simplícia de Ogum e a filha dela, Mãe Nilzete de Iemanjá.
PAI BOBÓ FUNDADOR DO PRIMEIRO CANDOMBLÉ EM ITAPEMA/SP.

Seus primeiros Iaôs - palavra de origem Yorubá, que é denominação dos Filhos-de-Santo já iniciados na Feitura de Santo, os quais não completaram o período de 7 anos, aconteceram em Salvador, num "Terreiro" chamado Beru, que era casa de seu amigo, o Senhor Rufino quando tirou os "Filhos", Ogan Maurício de Xangô e duas Filhas-de-Santo chamadas Mãe Tidinha de Iansã e Mãe Filhinha D'Oxóssi.
No ano de 1950 o Babalorixá veio sozinho da Bahia, inicialmente para a cidade do Rio de Janeiro, onde estabeleceu-se alguns anos. Então depois para a Baixada Paulista. A principal responsável pela vinda de Pai Bobó para Itapema/SP, foi a amiga Francisca Maria de Jesus, a Yalorixá Menakenãn. No "Terreiro" desta Yalorixá, em Santos/SP, Pai Bobó de Iansã tirou alguns Iaôs.
Quando chegou ao Itapema, Pai Bobó tinha pouco mais de 40 anos de idade. Em 1957 fundou o primeiro Centro de Candomblé do Distrito itapemense, na Rua Capitão Lessa, esquina com a Rua Barão do Rio Branco (antiga Rua Oito) com o título de 'Centro Espírita de Umbanda Ogum das Matas'. Por conta de problemas políticos e discriminatórios da época, o local acabou sendo registrado desta forma. Um dos iniciais "Terreiros" de Candomblé do Estado de São Paulo. Os primeiros atabaques que bateram o Candomblé inaugural em Itapema, foram presentes do Pai baiano Waldemiro de Xangô, o qual fundou um importante "Terreiro" no Rio de Janeiro, na década de 1940.
 ATUAL "TERREIRO" DE PAI BOBÓ DE IANSÃ [ITAPEMA/SP].

No ano de 1959, o "Terreiro" passou à Rua Júlio Inácio de Freitas Nº 5, local em que mais tarde fundou-se o Santuário "Fazendinha"
Em 1977, mudaria para a Rua Projetada Caic 63, casa 4. Atualmente esta via tem o nome de Rua Argemiro Genuíno da Silva, 60 - Bairro Pae Cará, onde o Centro ainda funciona. Ali são celebradas as seguintes festas: de Oxalá, de Ogum, Festa do Olubagé, de Mãe Iansã e das Iabás (Santas Mulheres).
Pai Bobó de Iansã é considerado um ícone do Candomblé do Estado de São Paulo, pelo seu pioneirismo, por difundir a Religião afro-brasileira na Região Sudeste do país. Mil e tantos "Filhos feitos" por ele durante sua trajetória estão hoje espalhados por várias cidades de São Paulo e de outros Estados. Era um homem bom, que ajudava muito seus filhos. Bastante simples e humilde, sendo bem generoso.
O Babalorixá morreu em Itapema/SP, no dia 1º de Julho de 1993. Compareceram para o seu sepultamento (Cemitério Distrital da Consolação) diversos Filhos-de-Santo seus de todo o país.
PRATICANTES DE UMBANDA CULTO AFRO-BRASILEIRO [ITAPEMA/SP].
ANTIGO "TERREIRO" DE CULTO AFRO-BRASILEIRO EM ITAPEMA/SP.


Alberto José de Freitas [imagem à direita], tido e havido nas Rodas de Capoeira como Mestre Sombrinha, nasceu em 24 de Agosto de 1947, no município baiano de Itajuípe. Aos 12 anos de idade chegou com os pais à Baixada Paulista, num primeiro momento para a cidade de Cubatão/SP. Em 1965, mudou-se para a Ilha de Santo Amaro, completados os seus 18 anos.
Ainda na juventude tomou gosto pela Arte Marcial da Capoeira. Acompanhada musicalmente de Berimbau, atabaques, pandeiro, palmas, entremeada por cantigas populares ditando o ritmo da luta...
"Que navio é esse
que chegou agora
é o navio negreiro
com os escravos de Angola
vem gente de Cambinda
Benguela e Luanda
que vinham acorrentados
pra trabalhar nessas bandas..."
(...)
"Vento balançou a palha do coqueiro
Vento balançou a palha do coqueiro
Coco que tava maduro
Despencou caiu primeiro
Coco que tava maduro
Despencou caiu primeiro
Lá na praia tem coqueiro
Quem plantou foi Iemanjá
Se o coco tiver maduro
O vento vai derrubar..." - Mistura de dança, ginga e combate, que os negros escravos usavam pra se defender na vida, os ditames do Senhor.
AO CENTRO MESTRE SOMBRINHA TOCANDO BERIMBAU NA RODA DE CAPOEIRA.

O capoeirista Mestre Sombrinha sempre foi uma voz ativa das reivindicações da comunidade negra. Preservando através do esporte o conhecimento da cultura afro-brasileira. Ao realizar trabalho de grande relevância em nosso município difundindo a arte da Capoeira.
A Associação de Capoeira 'Grupo Senzala', com Sede na Rua Antonio Monteiro da Cruz, 508 - Bairro Monteiro da Cruz, no Itapema/SP, fundada por ele em 29/06/1980, é responsável pela formação de muitos praticantes da Capoeira (crianças, jovens e adultos) na Ilha de Santo Amaro e Baixada Paulista. Bem como iniciação de outros Mestres deste esporte, ministrando aulas em suas próprias Academias.
SEDE DA ASSOCIAÇÃO DE CAPOEIRA 'GRUPO SENZALA' EM ITAPEMA/SP.
EMBLEMA DA ASSOCIAÇÃO DE CAPOEIRA 'GRUPO SENZALA' - ITAPEMA/SP.

Anualmente, Mestre Sombrinha promove o Batismo de Capoeira do 'Grupo Senzala' (graduação, entrega de cordões) formando atletas, sobretudo cidadãos disciplinados e conscientes. Confraternizado-se com diversas Academias co-irmãs, Mestres convidados e praticantes do esporte de outras cidades do Litoral Paulista e do Estado de São Paulo, jogando Capoeira na Roda horas a fio.
"A importância do trabalho é conscientizar o aluno sobre a cultura brasileira, dando destaque como nossos antepassados chegaram ao Brasil, como sobreviveram e chegamos aos dias atuais. O Movimento de Capoeira é uma tradição social brasileira." - Pondera o Capoeirista em entrevista do dia 23/08/2011.
BATISMO DE CAPOEIRA DO 'GRUPO SENZALA'.

Durante o 46º Jogos Regionais de São Paulo (2002), acontecido no município de Caieiras/SP, os Atletas liderados por Mestre Sombrinha (Grupo Senzala) conseguiram o 2º Lugar na colocação por equipes. Ao conquistar Medalha de Ouro, com o Capoeirista Elissandro Antonio da Silva (Neco). Enquanto Jorge Luís Pereira dos Santos ganhou a Medalha de Bronze, ajudando a cidade a garantir a Vice colocação geral da modalidade. O que reforça a tradição presente da Capoeira na Ilha santo-amarense.
Já sexagenário, casado, pai de três filhos, Mestre Sombrinha nada diz sobre aposentadoria, segue ensinando Capoeira até as pernas aguentarem.
NEGROS JOGAM CAPOEIRA INÍCIO DÉCADA DE 1820.


A história de Olinda Sales de Abreu seria igual à de muitas outras mulheres, se ela não fosse uma Artista nata e altamente intuitiva. Contrariando os comuns destinos mitigados à existência. As dificuldades e agruras do mundo sempre fizeram parte da vida da Escultora Olinda Sales [imagem à esquerda].
Aos 10 anos, saiu descalça e com poucas roupas, de Taiaçu (cidade do interior de São Paulo) acompanhada da mãe e cinco irmãos. Vindo em busca de um destino melhor na Capital Paulista. Ainda naquele momento precário, a menina Olinda sequer imaginava ser Escultora. Entretanto, apesar de todos os revezes, sempre sonhou em ser alguém, mas devido sua condição social só era conhecida como a menina pobre da escola. Embora se achasse muito criativa.
Contudo, nem mesmo Olinda Sales sabia precisar como a Escultura surgiu em sua vida, pois definia seu trabalho como "um dom natural".
"(...)o barro tem muito a ver com a minha vida. Nasci e morei até os 10 anos em casa de barro (taipa de pilão). Adoro o barro. Ele é minha terapia. E através dele faço figuras sempre miseráveis, pobres, , com traços de negros..." - Explicava ela  em entrevista ao jornal santista 'A Tribuna'.
Numa tentativa de sondar a origem de tão singular talento, indagavam os repórteres uma possível resposta:
"(...)Quando cheguei na cidade grande fui trabalhar como pajem e utilizava massas de modelar para criar casinhas e bonecas. Não tenho estudo, só estudei a primeira série do primário, duas vezes, aí desisti de vez..." - Dizia ela ao jornal '1ª Hora', de Guarujá.
NEGROS ESCRAVOS, SANTOS, POVOAM A OBRA DE OLINDA SALES.

No final da década de 1960 erradica-se em Itapema/SP, na Ilha de Santo Amaro. Em 1969, viúva e com três filhos para sustentar Olinda Sales desperta sua emblemática vocação artística: esculpir, moldar no barro a alma das pessoas sofridas feito ela. Quando decide participar da 28ª Exposição Coletiva, promovida pela Associação Paulista de Belas Artes ao criar sua primeira obra em argila. Sendo agraciada com Menção Honrosa pela escultura, "Cristo coroado com arame farpado", causando excelente impressão.
Olinda Sales enfrentava muitas dificuldades para poder realizar seu trabalho artístico. Sem meios para sustentar a sua própria Arte, continuou a trabalhar como empregada doméstica.
No ano de 1975 frequenta o Atelier de Escultura do Profº Emanuel Leon, na cidade de Santos, sem contudo se prender à normas técnicas, mas desenvolvendo a sua tendência natural. Mantém contato com outros Artistas enriquecendo-lhe o processo criativo.
Não há simplismo ao avaliar que a Arte de Olinda Sales é influenciada sobretudo pela sua condição social. Autodidata, sempre se inspirou no sofrimento humano para criar esculturas, retratando a simplicidade, a fé, a opressão, crenças e a penúria do povo. Molda anjos, santos (notadamente São Francisco), Cristos, escravos, mães, vendedores, malandros, trabalhadores, retirantes, crianças de rua, mulheres por parir, negros no açoite, este é o universo representado na arte da Escultora.
A CRUEZA DA VIDA NAS ESCULTURAS DE OLINDA SALES.

Seu estilo rústico, expressionista, impregnado nas suas Esculturas, seja pela carga emocional aparente das figuras, quanto pelo exagero das formas e feições, a Escultora consegue representar em suas peças a Cultura Brasileira, as mazelas sociais e também a condição histórica do negro no Brasil.
A primeira Exposição Individual de Olinda Sales aconteceu em 1976, na Galeria de Arte do Caiçara Clube, na cidade de Santos/SP, sendo muito bem recebida pela crítica. Logo após, Mostra na Associação Banco do Brasil (AABB), 30 obras e mais 13 peças que compõe um Presépio.
Participou ainda de Mostras Coletivas no Ilha Porchat Clube (São Vicente/SP) e Aliança Francesa, em 1977. Cades e Associação dos Engenheiros no ano seguinte (1978).
Em Guarujá/SP a primeira Exposição Individual ocorreu no ano de 1984, na Galeria 'Wega Nery', do então Centro Municipal de Cultura (Teatro Procópio Ferreira), com apresentação de 23 Esculturas.
Outro local que recebeu Exposição de Olinda Sales na cidade foi o Espaço Cultural 'Alberto Marques', da Câmara Municipal de Guarujá.
OLINDA SALES SE REPRESENTA NUMA AUTO-ESCULTURA.

Esteve presente no ano de 1990, na I Semana da Consciência Negra, em Ourinhos/SP, palestrando com o ceramista "Zé do Pote", suscitando grande enlevo à platéia.
Além de Salões, a Escultora expunha comumente suas obras na orla da Praia da Enseada (Guarujá/SP) e Feiras de Artesanato das cidades da região da Baixada Paulista e Capital. Seus trabalhos despertavam admiração, atraindo compradores e colecionadores de Arte no Brasil e do Exterior.
Recebeu o Troféu 'Ruth de Souza', pela Casa de Cultura da Mulher Negra, por trabalho destacado na área cultural e profissional.
No mês de Novembro, entre os dias 17 e 21, de 2005 foi convidado pelo Minc - Ministério da Cultura para expôr sua obra, em comemoração à Semana da Consciência Negra, no Senado Federal Brasileiro, onde apresentou 15 peças.
OLINDA SALES PRESTIGIADA PELOS REPRESENTANTES DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA.

Olinda Sales produziu cerca de 800 obras exclusivas, distribuídas pelo mundo afora. As Esculturas eram feitas em casa, moldadas, esculpidas e queimadas num forno instalado no quintal de sua residência em Itapema/SP, ou depois pintadas como toque final às peças.
Embora já idosa, não deixou morrer a alma de cada criatura escravizada e sofrida no barro frio, que ganhava forma e cor nas mãos desta Artista que nunca esquecera o seu passado. Continuou criando até pouco antes de sua morte em 2011.
GRUPO DE DANÇA 'AFROKETU' EXPRESSÃO DA CULTURA ANCESTRAL.

Todavia, mesmo com a Abolição Institucional da Escravatura, tardiamente assinada pela Princesa Isabel em 13 de Maio de 1888, muito pressionada pelos Abolicionistas do Parlamento Imperial Brasileiro, este documento proporcionou apenas a Liberdade por ela mesma. Os negros não receberam direito social algum. Foram relegados a própria sorte, sem moradia, emprego, qualquer indenização social. Alguns até permaneceram agregados as Fazendas, trabalhando por morada e comida, desta feita reféns de patrões inescrupulosos.
FAC-SÍMILE DA CHAMADA LEI ÁUREA, QUE ABOLIU INSTITUCIONALMENTE A ESCRAVIDÃO NO BRASIL.

Essa grande massa negra compondo as camadas mais pobres da Sociedade. Empregado de serviços braçais e domésticos. Vivendo em bairros decadentes, nos subúrbios, nas regiões insalubres das cidades. A sofrer inúmeras discriminações raciais.
Daí provendo as atuais medidas de reparação histórica, tais como Cotas Sócio-Raciais, para Concursos Públicos e acesso a Educação Superior. E auto-afirmação da raça matriz miscigenada. No intuito de amenizar os efeitos históricos da Escravidão  contra os negros no Brasil.
OS NEGROS HISTORICAMENTE À MARGEM DA SOCIEDADE BRASILEIRA.

Tanto mais, quando parte da Sociedade Brasileira hipocritamente se coloca contrariada, a repetir um erro histórico. Como descreveu Silva Jardim, visionário do Quilombo urbano das Favelas. Refúgio atual da resistência Quilombola:
"Deste lado a planície, que olha a terra, deixando à margem o mar, que murmura ao longe; nesta planície estão as terras aforadas onde os pretos trabalham; deste lado a montanha, enorme, que defende o Quilombo contra a cidade..."

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O FANTASMA DA MANGUEIRA SEM-VERGONHA

UM AMOROSO ENFORCADO SUICIDOU-SE NUMA MANGUEIRA EM ITAPEMA/SP [1923].

Passada a primeira hora assustadora, naquela madrugada do ano de 1923, trovões ribombavam por sobre o breu da noite estuarina itapemense. Murmurante vento adentro encrespa as águas do Estuário, sacudindo as catráias ancoradas, marulhando às margens da Prainha. Somente a luz do Farol de Itapema desvelando a madrugada.
Nos bananais dos Backheuser, sapos, pererecas, grilos cantigam excitados e as folhas das bananeiras desfraldavam-se ao sabor da ventarola. Pelos arredores do Bairro Vila Alice junto à Linha Férrea - Itapema/Gjá [Sp - 2066], um Homem caminha solitário, sem rumo. De repente toma a direção duma velha Mangueira ali plantada. Trepa num dos galhos pensos onde amarra firme uma corda, além de um nó para o seu pescoço...
A fauna noturna espantou-se ao vergar do galho, que não arrebentou. Dependurado o suicida expele longos peidos, toletes de fezes, tem banhada as pernas pela incontinência urinária. No derradeiro estrebucho um esguicho de esperma prostático escorrendo aos pés do tronco da Mangueira. Acompanhado dum pio de coruja, o enforcado parecia emitir palavras gorgolejantes:
- Porr... quêe?... Urrfff!!... Perr... dãoo!... - Sabe-se lá a resposta.
Durante a madrugada relâmpagos faiscavam acima das profundezas do céu, a luzir um vulto inerme balançando no ar. Duradouro temporal castigou ITAPEMA/SP, a chuva entranhou pela terra levando o sumo de dejetos do enforcado às raízes da Mangueira...
Assim que amanheceu gotejante, num violáceo alvorecer arriba do Morro Santo Amaro, saudado pelo gorjeio festivo da corruíra saltitante no galho do pé de manga... Alardeia um grito apavorante feminino a ressoar nas janelas dos chalés ladeando a Estrada de Ferro, acudido por moradores assustados... 
Um dos itapemenses enforcara-se dependurado na velha Mangueira à beira da Ferrovia. A motivação suicida teria sido certa desilusão amorosa. Fora traído pela esposa com outro. Embora demais esforçado, tinha parcas posses, sequer belezura admirável.
Entre pedregulhos e a erva-daninha do local, para mal-agouro dos passantes, nasceria certo tubérculo florescente, espécie de Mandrágora cujos frutos fétidos são qual "maçãs do diabo". Utilizada por catimbozeiras como chá, ralado pó para beberragens.
Desde então um inexplicável fenômeno passou a manifestar-se aos moradores que cruzavam o caminho da Mangueira. Quando mulheres passavam por baixo da árvore, o vestido ou sua saia eram levantados subitamente, sem que houvesse uma lufada de vento. Enquanto as mulheres ajeitavam-se encabuladas escondendo saiotes e calcinhas à mostra. Uma sem-vergonhice do Capeta, queixaram-se as senhoras ultrajadas. Seus maridos, pais e irmãos indignados com a estranha imoralidade. A ponto de estremecer alguns namoros e casamentos.
Logo reputou-se a Assombração do amoroso enforcado, o qual postumamente como vingança obsedara-se em envergonhar mulheres e homens. O irreverente Fantasma da Mangueira Sem-vergonha também divertia-se fazendo voar longe os chapéus de moços e senhores que lá passavam, sem que ao menos a folhagem da Mangueira farfalhasse na copa da árvore. Muitas vezes indo parar numa poça de lama ou embrenhando fatidicamente nas rodas da Maria-Fumaça passando no horário. A deixar seu dono atabalhoado atrás do chapéu.
Aparição mesmo, nunca se viu. Mas todos sentiam aquele arrepio percorrer-lhe a medula nervosa.
DO OUTRO LADO, MANGUEIRA PLANTADA NA PRAÇA DO POETA VICENTE DE CARVALHO - CENTRO DE ITAPEMA/SP, IMEDIAÇÕES ONDE O AMOROSO ENFORCADO SUICIDOU-SE.

O dito fenômeno paranormal ocorria na boca da noite, já depois da Ave-Maria. Várias pessoas surpreendidas na hora mística do lusco-fusco. As mais carolas juravam acontecer em plena luz do meio-dia. A gente do ver pra crer preferia acreditar ser coisa de moleques endiabrados, escondidos nas sombras das folhagens, que com vara e anzol pregavam peças nas pessoas.
Seus frutos amarelos-carnudos, sumarentos antes colhidos pelos moradores, pendiam até apodrecer nos ramos e cair. Temia-se, embora com boa aparência, estarem as mangas impregnadas dos miasmas corpóreos do amoroso enforcado. Dando-lhe um bizarro gosto.
Essa tal manifestação espírita impressionou deveras os moradores do antigo Itapema, até a Mangueira Sem-Vergonha vir abaixo em meados da década de 1940. Pois receavam cortá-la expondo a putridão de sua seiva amaldiçoada. Deixando de escandalizar o recatado pudor das moças do Distrito.
      

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Em Busca da Sociedade @lternativa ITAPEMA




Enquanto isso na night do '&ociedade @lternativa' aquele papo muito cabeça agita a roda. Regado a cerveja, cuba-libre, algumas batatas "Ruffles" trazidas pelos Bródis Pink e Floyd.
- Sejamos sinceros! A existência não consegue preencher este vazio que habita nossas almas... - Lembrava Ormeo a razão do papo inicial.
- Essa questão, meus amigos, não é somente existencial. É ambiental! Sem o Planeta quem somos nós? - Intrometeu-se uma das vozes.
- O caminho da transformação das consciências está na Arte. O verdadeiro Artista tem o poder de mobilizar corações e mentes. - Considerou um dito pretensioso intelectual, que aparecera aquela noite.
- Putz, tipo assim, meu... Tá sabendo? Paranóia total este mundo. Entraram numas... - Disse um dos Bródis, naquilo que petiscava na cumbuca alheia pra matar a larica.
Dir-se-ia que a Anarquia reinava ao alcance fortuito da vontade delirante... E quiçá no amanhã, quem sabe.
Eis que surge Tetê, a Xiita (cá prá nós apenas, hein!). Explosiva, ao companheiro sim permitia a Liberdade de chamar-lhe meigamente por "Tetêrrorista". 
Ícones de sua Revolta, Che, Lennon, espetados ao peito. E mais, a contradição da postura assumida, o símbolo da Paz pendente no pescoço. Adepta do Prozac, contudo espantava a deprê com doses generosas de guaraná e conhaque... 
Ouve daqui, escuta dali. Um comichão percorre-lhe a língua ferina. Ela, uma mulher de atitude.
- Camaradas! Um à parte... Peço a palavra. Vocês não estão sabendo avaliar o momento histórico. Que ainda é de luta. Se faz imperiosa uma ação efetiva contra o Imperialismo ianque... Essa globalização do consumismo! - O álcool inflamou-se nas idéias. Era saber fazer a hora, sem aguardar acontecer.
- Concordo, é preciso descer do muro... - Interveio alguém numa das mesas à direita.
- Quem não caiu do muro!... - Desferiu um gozador.
Neste campo minado das idéias, Tetê disparou:
- Abaixo a nova ordem, o negócio é desordem! O caos há de varrer a Humanidade do mapa. E com as ruínas reconstruir um Mundo novo... - Antes porém, era necessário bebemorar as núpcias do Levante filosófico. Ao que o enciclopédico bebum Altério agradeceu festivamente.
Tanto discutiram que chegou-se a algum consenso. Um Ato Público naquela madrugada mesmo, sob o Busto do Poeta-mór da cidade.
BUSTO DO POETA VICENTE DE CARVALHO [ITAPEMA/SP].

Saíram em marcha cambaleante, peito aberto bradando palavras de ordem. Violão plangente pela Avenida enluarada. A Vanguarda iluminando a noite com o intuito de um alvorecer promissor. Entre discursos e vômitos abundantes aos pés do fuste do Busto. 
No auge dionisíaco da festividade Tetê, a sempre imprevisível...
- Mil perdões, gente... Parto agora. A enxaqueca me ataca. Minha cabeça quer explodir. Sei que o proletariado espera a Revolução. Quanto a mim, careço urgente de uma aspirina... Fui! - E saiu de cena levando o sonho consigo.
     

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

MORRINHOS [BAIRRO ITAPEMENSE]

VISTA GERAL DA REGIÃO DO BAIRRO MORRINHOS - ITAPEMA/SP [2010].

Desde os primórdios da Capitania de Santo Amaro (Século XVI), a região do Crumaú e do Rio Maratuá, local de assentamento do Bairro Morrinhos, consignado às terras de ITAPEMA/SP, abrigou Sítios, Moendas, Fazendas, Engenhos e Feitoria de Curtume, subsistindo sitiantes, escravos e trabalhadores rurais. Conforme vemos nomeado, descrito e assinalado em Levantamentos Geográficos e/ou Censos realizados neste período.
Mapas da época apontam a implantação de Engenhos como o do Governador ou do Trato, fundado por iniciativa de Martim Afonso de Souza e seu irmão Pero Lopes de Souza (Donatário da Capitania santo-amarense), junto ao Rio Crumaú (1534). Engenho de Nossa Senhora da Apresentação (pertencente a Manoel de Oliveira Gago (1560), ficava ao final do Rio Crumaú com saída para o Rio Bertioga). Engenho Nossa Senhora da Aparecida, fundado por Gonçalo Afonso (1560) nas imediações do Rio Crumaú.
Na metade do Século XVIII também foi possuidor de terras o Capitão José Bonifácio de Andrada, "cujas terras estavam situadas no Sítio do Porto de Santo Amaro (extensão de terra conhecida com "Casa Grande") englobando Morrinhos, Saco do Funil e adjacências, nas fraldas do Morro dos Macacos entre os Sítios Cachoeira e o Glória."
REGIÃO DO CRUMAÚ ADJACÊNCIAS DO BAIRRO MORRINHOS [ITAPEMA/SP].

Aviso Régio, de 21 de Outubro de 1817, assim descreve denominações, extensões, senhorios, títulos de terras da região da Ilha de Santo Amaro:
Morrinho - Cinquenta braças de testada e trezentos de fundo, até o cume mais alto, parte de um lado com terras do Estaleiro, e de outro com terras de Manoel Rodrigues; pertencente ao Capitão-mór João Baptista da Silva Ramos, por título de compra; estão arrendadas para a Feitoria da Casca de Mangue para Curtume.
Crumahú - Mil braças de testada e quatrocentos e cinquenta de fundo até o rio do morro, parte de um lado com terras do Emboaba, e de outro com terras do Capitão Manoel Alvarenga Braga, é patrimônio da Capela de Nossa Senhora da Apresentação, ereta no mesmo sítio do qual é administrador o Tenente-Coronel José Vicente de Oliveira, parente dos intuidores, cultivada por Pedro Francisco da Costa.
S. João do Crumaú - Quinhentas braças de testada e trezentos de fundo até o pico do morro, parte de um lado com terras de Nossa Senhora da Apresentação, e de outro com terras de João Antonio de Souza, pertencente ao Capitão Manoel de Alvarenga Braga, por título de compra.
Maratão-há - Trezentas braças de testada e quinhentos de fundo, parte de um lado com o Rio chamado Maratão-há, e de outro com outro rio que vai para o Sítio do Sacco, os fundos parte com terras do Convento do Carmo, e do dito Saco; pertencente ao Capitão Manoel Alvarenga Braga por título de compra.
Emboaba - Duzentas braças de testada e outras tantas de fundo, parte de um lado com terras da Capela do Crumahú; o dono destas terras passou-se a muitos anos para as Minas, e nunca mais se soube dele; sem cultura.
Varjão, ou Sambaqui - Mil braças de testada, e trezentos de fundo, parte dos fundos com terras do Padre Antonio José Pinto, chamado Emboaba, e de outro com o Rio chamado Agoa Branca; pertencente aos herdeiros do falecido Sargento-mór Manoel Angelo de Aguiar; sem cultura.
Glebas da região de Morrinhos foram de propriedade da Ordem Terceira do Carmo, a qual recebeu sesmarias. Aos poucos, estas terras seriam vendidas para a monocultura de plantação de Banana.
GLEBA INICIAL DE ASSENTAMENTO DO BAIRRO MORRINHOS [ITAPEMA/SP].

No ano de 1957, Arqueólogos do Instituto de Pré-História da USP organizaram uma Expedição Franco-Brasileira, chefiada pelo Arqueólogo Paulo Duarte. Tinha por interesse escavações arqueológicas nas terras da Ilha de Santo Amaro. O objeto de pesquisa são os Sambaquis e/ou Sambakis, depósitos do cotidiano de antigos povos. Também conhecido pelos Caiçaras como "casqueiro". Jazidas paleoetnológicas milenares que ocorrem ao longo da Costa, ou em lagos e rios litorâneos, regiões onde estes silvícolas agrupavam-se para comer. Caracterizavam-se pela presença de cinza e carvão entre as espessas camadas de conchas. Antiquíssimos depósitos de crustáceos, moluscos, restos de pesca ou caça, armas, adornos, utensílios domésticos e esqueletos de animais, acumulados por povos primitivos que habitavam o Litoral em épocas remotas. Semelhantes acúmulos formavam verdadeiras colinas de despojos que registram seu modo de vida e costumes. Faziam ainda nestes amontoados seus enterramentos rituais, daí encontrar-se também fósseis humanos.
Desencavam primeiramente nas imediações do Rio Maratauá, dito por alguns Maratuã e ainda Maratuá, um esqueleto feminino de aproximados 6.000 anos (60 Séculos), segundo atesta prova feita através do processo de datação Carbono 14. Foi batizado com a simpática alcunha de "Miss Sambaqui", hoje exposto no 'Museu de Arqueologia da Universidade de São Paulo'. Parte dos demais achados, que remontam ao ano de 1915 a.C. (3.906 anos de idade) foram levados para o 'Museu do Homem', na cidade de Paris. Fósseis todos esses que correspondem as escavações do "Homem de Maratuá".
Geograficamente a localização do sítio e do Rio Maratauá está nos limites itapemenses. Logo, o primeiro e mais remoto achado arqueológico da Ilha de Santo Amaro, e um dos mais antigos do Estado de São Paulo (Tombado pela USP) se deu em ITAPEMA/SP.
A própria designação da localidade como "Morrinho", hoje bairro, viria desta elevação no terreno, sendo ajuntamento dos Sambaquis. Utilizados pelos habitantes e comerciantes como cal para argamassa de construções sociais, religiosas e Fortes militares.
IMAGEM VIA SATÉLITE IMEDIAÇÕES DO BAIRRO MORRINHOS [ITAPEMA/SP].

Nos nossos dias, em 30 de Janeiro de 1980, o BNH (Banco Nacional da Habitação) deu aval para o andamento do Programa de Desfavelamento, projetado pela Prefeitura da Sede Balneária, nas áreas da Cachoeira, Vila Zilda e mais outro terreno de várzea onde se cultivava Bananas. Esta última área denominava-se 'Sítio Morrinho' e seriam abertas ruas e avenidas, haveria espaço para construção de Escolas, Centro Comercial, Posto Médico etc.
Entretanto, somente em 1987 seria iniciada a ocupação demográfica do 'Sítio Morrinho'. Inicialmente seriam remanejadas 250 famílias pré-cadastradas vindas da Vila Sônia, Vila Júlia, Vila Baiana e outros pontos do Distrito itapemense. Naquele ano havia 42 favelas na Ilha de Santo Amaro e o objetivo para o novo Bairro era acomodar ao decorrer da urbanização, algo em torno de 2.500 famílias na nova área. O empreendimento inicial de Morrinhos (ITAPEMA/SP) teria 665.840 metros quadrados, com acordo firmado para a construção das casas em regime de mutirão, haveria água encanada, energia elétrica e esgoto. Tais medidas prometidas e supostamente planejadas não impediram invasões da área.
OCUPAÇÃO BAIRRO MORRINHOS EM 1987 [ITAPEMA/SP].
  
No dia 25/02/1987, a Câmara de Vereadores, através de seu representante constatou que a área a ser habitada não contemplava estruturas urbanas básicas adequadas para sua ocupação. Foi verificada a ausência de iluminação pública, não existia água encanada, terrenos em desníveis, pouca Segurança Pública, denúncia de aquisição de lotes para revenda, além de já existirem 40 barracos erguidos antes mesmo da concessão do assentamento. Os novos moradores que ali estavam alegaram ter a permissão do Poder Público Municipal, todavia queixavam-se que não havia uma Linha de ônibus sequer.
PLANTA URBANA DO BAIRRO MORRINHOS [ITAPEMA/SP].
IMAGEM VIA SATÉLITE PLANTA URBANA DE MORRINHOS [ITAPEMA/SP].

Quarenta e cinco dias depois, foi autorizada a efetiva ocupação do 'Sítio Morrinho'. As Autoridades admitiam que as obras não estavam totalmente concluídas, faltava água, saneamento básico, rede elétrica e serviços públicos. Contudo, um itinerário de ônibus foi implantado em caráter emergencial, passando pelo Bairro apenas seis vezes por dia.
As dificuldades nunca foram poucas nesta região. Antes toda a água fornecida aos moradores dali vinha do Saco do Funil (área do Bairro Morrinhos), não havia a captação em Jurubatuba. Foi feita uma represa no sopé do Morro do Macaco, junto ao  hoje Túnel Juscelino Kubitschek e a água era bombeada até o Morro e armazenada em reservatórios para ser distribuída.
ACESSO AO BAIRRO MORRINHOS PELA RODOVIA DOMÊNICO RANGONI [ITAPEMA/SP].
AV. LYDIO MARTINS CORRÊA - VIA DE ACESSO AO BAIRRO MORRINHOS [ITAPEMA/SP].
AV. LYDIO MARTINS CORRÊA ACESSO AO BAIRRO ITAPEMEMSE MORRINHOS [OUTUBRO/2011].
ENTRADA DO BAIRRO MORRINHOS EM ITAPEMA /SP [2010].

Somente no ano de 1992, que a CESP injetou recursos para a instalação de iluminação pública em Morrinhos (ITAPEMA/SP). Também neste ano foi concluída a construção do Conjunto Habitacional 'Ulisses Guimarães', com 480 apartamentos entregues a famílias de baixa renda do município. Desta feita teve o Bairro a inclusão do Cemitério de Morrinhos, sito à Av. Lydio Martins Corrêa.
AV. ANTENOR PIMENTEL - BAIRRO MORRINHOS EM ITAPEMA/SP [MARÇO/2010].
CONJUNTO HABITACIONAL NO BAIRRO DE MORRINHOS [ITAPEMA/SP].
OUTROS PRÉDIOS DE CONJUNTO HABITACIONAL EM MORRINHOS [ITAPEMA/SP].
COTIDIANO BAIRRO MORRINHOS [ITAPEMA/SP].
PRAÇA NO BAIRRO MORRINHOS [ITAPEMA/SP].
OUTRO ÂNGULO DA PRAÇA EM MORRINHOS [ITAPEMA/SP].

Assim o Bairro Morrinhos seria urbanizado, de maneira precária e gradativa. Sofrendo constantes ocupações irregulares das áreas de Mangue, da Restinga remanescente, dentre outras, a despeito da negligente Sede Balneária, que agravaram ainda mais os problemas sociais. Até o final de 2009, os residentes de determinadas glebas do Bairro (intitulados Morrinhos III e IV) não possuíam água encanada, sendo este bem social básico conquistado por intermédio de Ação Judicial.
RUA PAVIMENTADA BAIRRO MORRINHOS EM ITAPEMA/SP [FEVEREIRO/2010].
A URBE ITAPEMENSE/SP EM MORRINHOS.
AMANHECER PROS LADOS DE MORRINHOS [ITAPEMA/SP].
HABITANTES ITAPEMENSES BAIRRO MORRINHOS.
VIDA DE GADO NO BAIRRO MORRINHOS EM ITAPEMA/SP [MARÇO/2010].
ÁREA OCUPADA EM MORRINHOS [ITAPEMA/SP].
CREPÚSCULO BAIRRO MORRINHOS [ITAPEMA/SP]
NOITE EM MORRINHOS BAIRRO ITAPEMENSE/SP.

Em 2010 pela estatística do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Bairro Morrinhos contava com 24.387 mil moradores e um crescente comércio local, reforçando a capacidade econômica do Distrito como gerador de renda.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

ITINERÁRIO: ITAPEMA MACABRO

LINHA ESTAÇÃO DAS BARCAS - PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] MARÇO DE 1963.

Quando o amor lhe apareceu, num Baile de Carnaval no "Cinema Grande" e que a moça residia numa das ruas do Parque Estuário, não parecia ser um entrave ao romance. Poderia visitá-la de bicicleta. Lonjuras não impediriam o cupido, batia pernas por tudo que é lugar pelo Itapema. Frequentava no "Fundão do Pae Cará", o Campo do E. C. Monteiro da Cruz desempenhando seu talento futebolístico.
Acontece que a beldade itapemense estudava Pedagogia, na vizinha cidade santense. Ocorria de acompanhá-la até em casa de ônibus, saindo do "Pontão das Barcas"... O namorico no banco do portão, ia esquentando o sereno e as horas passavam. Naqueles tempos retornava tarde da noite. Morando na Rua Itapema, no quarteirão do velho Forte, voltar de a pé em incertas noites chuvosas, desprotegido, era um bom chão a palmilhar.
Havia um ônibus que fazia a Linha Estação das Barcas - Parque Estuário, com Ponto Final ao lado do Cemitério da Consolação de Itapema. Os passageiros tomavam ali a Condução, alguns desciam em frente a Padaria 'Vera Cruz', na esquina onde ficava a Lavandeira, centro comercial do Distrito.
CENTRO COMERCIAL DE ITAPEMA 1973 - AV. THIAGO FERREIRA, DO OUTRO LADO A PADARIA 'VERA CRUZ'.

Itinerário do qual se contavam coisas sinistras, desde sua primeira viagem inaugural:
Era uma noite comum da semana. O ônibus havia parado no fim da Linha do Parque Estuário esperando para fazer a última viagem, por volta de meia-noite. Nesse horário bem difícil ter muitos passageiros, quando muito uns 5 notívagos... O Coletivo já tinha saído do Portal do "Sumitério", e de repente o Cobrador e o Motorista pelo retrovisor, se espantaram ao verem o ônibus lotar de um minuto para outro, num vivo burburinho de passageiros. Estranharam, mas seguiram mudos pela Av. Presidente Vargas, cortando o bairro. Ao chegar na Av. Thiago Ferreira deram fé que o ônibus encontrava-se vazio, sem que ninguém tivesse descido. E se repetiu viagens seguidas... Falam que o Motorista e o Cobrador pediram as contas da Viação.
SERIA FATO UM ÔNIBUS-FANTASMA NUM ITINERÁRIO DE ITAPEMA/SP?

Um Ponto Final ao lado do Cemitério, já é bastante sugestivo para qualquer imaginação desconfiada. Numa ocasião, estava aguardando o ônibus aparecer e escutou vozes, risos, do lado de dentro do Campo Santo. Por ventura, os espíritos riam dele? Após alguns instantes de receio subiu no muro para ver, se esqueletos confabulavam sobre os túmulos... Eram apenas três malandros mocozados entre as cruzes, que queimavam um "baseado".
Tendo essa estória na cabeça, o sujeito viera algumas vezes no ônibus quase vazio. Como único passageiro, além do Cobrador e o Motorista, de olho nas ruas obscuras do Parque Estuário. Mais nenhuma viv'alma. Ninguém ocupando os assentos... Na dúvida, procurava sentar sozinho, nos fundos do Coletivo. Iluminado por uma trêmula luz dumas lanternas cravadas na lataria. A fim de não ser surpreendido por alguma alma penada. Não hesitaria pular fora do Ônibus-Fantasma... Daí o namoro acabou. A moça faleceu, dum mal repentino.
IMEDIAÇÕES DA ANTIGA PARADA DE ÔNIBUS - LINHA ESTAÇÃO DAS BARCAS/ PARQUE ESTUÁRIO - ITAPEMA/SP. 
  
Porém não pense ser previsível assim...
Numa dessas, próximo a meia-noite, um Homem chegara apressado. O vento fez tocar as doze badaladas no sino da Capela Mortuária. Tinha fila pra tomar a última Condução. Lotação esgotada. Esse tal se espremeu num banco ao lado de um passageiro esquálido, trazendo uma mala enorme. Distraiu-se olhando aqui e acolá pela escuridão as varandinhas iluminadas dos chalés, os passageiros refletidos nos vidros das janelas, ao voltar o rosto para os corredor... Chegavam nas imediações da Praça 14-Bis, passado o comércio "7 Portas". Ninguém mais naquele ônibus.
- Motorista, pára!... O Sr. viu isso!?... E vocês, são gente ou mortos-vivos?
- Eu não tou dirigindo o ônibus, porra...
- Quero descer, pelo amor de Deus! - Saltou mais adiante, perplexo, na calçada da Joalheria 'Pêndula de São Jorge'.
Portanto, cuidado ao tomar o ônibus altas horas da noite. Especialmente, o "Expresso da Madrugada". Arrastando maníacos etílicos, seres fêmeos decadentes, os trapos dos fins de festas. Nunca te passou pela cabeça que fosse uma horda de Demônios... Há, Há, Há!!... Há, Há, Há!!