__________ Itapema, suas histórias... __________

terça-feira, 14 de março de 2017

PARQUE ESTUÁRIO, Itapemense de batalha

EM PRIMEIRO PLANO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO VISTA AÉREA [ITAPEMA/SP] 1950.

Loteamento particular promovido nos anos de 1940 em ITAPEMA/SP, oriundo das terras do antigo Sítio "Pae Elesbão", designado Vila Parque Estuário. O Sr. Ledo Batalha (agrimensor da União) comprou a gleba e dividiu em lotes para venda, atendendo ainda as necessidades de desapropriação do Bairro Bocaina por extinguir.
Outrora também propriedade do Sr. José Batalha e outros (Jorge Lodi Batalha e sua mulher Dª Yvette Valença Batalha). Compreende desde a Rua Guilherme Guinle (Linha das Torres) até as imediações do Rio Acaraú, delimitado pelas Ruas Capitão Francisco Lessa e Duque de Caxias.
CAPA DOCUMENTO COMPROMISSO DE VENDA E COMPRA LOTE VILA PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] MARÇO DE 1948.

O Bairro Parque Estuário teve origem exclusivamente residencial, os terrenos tinham valor médio de Cr$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros), as casas eram simples, térreas, dominando o tipo Chalé com tapamento americano ou forrão, mais modesto. Cercas de ripas de madeira delimitavam os quintais. Construções um pouco maiores feitas em alvenaria, algumas destinadas ao comércio.
Sua ocupação se deu de forma ordenada, tanto como regularizada, sem entraves a utilização do solo, facilitando a chegada das melhorias urbanas. Fosse a luz elétrica e água potável, através de "bicas" comunitárias.
VISTA ABRANGENTE DO BAIRRO VILA PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] DEZEMBRO DE 1949.
MORADORES ENCHEM VASILHAS NA BICA Nº 3 - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] JUNHO DE 1949.
MORADORES AGUARDAM EM FILA DA BICA Nº 5 (AVENIDA "A" COM RUA "8") - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] OUTUBRO DE 1949.

Embora os lotes estivessem alinhados, pronta alguma drenagem para a água das chuvas, avenida e ruas abertas terraplanadas faltavam ainda: sarjetas, pavimento, calçadas, saneamento básico que eliminasse tantas valas à frente dos quintais.
VISTA RUA "3" AINDA PRECÁRIA SEM PAVIMENTO E CORTADA POR VALAS DE DRENAGEM - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] JUNHO DE 1949.
ASPECTO RUA "10" SEM MELHORIAS URBANAS - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] DEZEMBRO DE 1949.
EXTENSÃO AVENIDA "A" (ATUAL AV. PRESIDENTE VARGAS) SENDO DOTADA DE CANAL DE DRENAGEM [ITAPEMA/SP] OUTUBRO DE 1949.
TRABALHADORES DO CANAL DE DRENAGEM DA AVENIDA "A" - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] MAIO DE 1949.
ASPECTO URBANO AINDA PRECÁRIO DA RUA "9" - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] DEZEMBRO DE 1949.
VISTA GERAL RUA DO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO DESPROVIDA DE URBANIDADES [ITAPEMA/SP] JUNHO DE 1949.
INSTALAÇÃO DA LINHA DE DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA: POSTES, CONDUTORES ELÉTRICOS E TRANSFORMADORES - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] JUNHO DE 1949.
ESTENDIMENTO DA REDE ELÉTRICA NO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] JUNHO DE 1949.
OS MELHORAMENTOS URBANOS NO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO FORAM IMPLANTADOS GRADATIVAMENTE [ITAPEMA/SP] JANEIRO DE 1950.   

A princípio a Companhia City ficou responsável pelos implementos de urbanidade do bairro itapemense (canal de drenagem das águas pluviais, rede elétrica, terraplanagem), área não tão problemática por ser bastante enxuta, aspecto qual facilitou os trabalhos (limpeza da Restinga remanescente, destocamento, nivelamento etc). Começado isso, as exigências cotidianas da Vila Parque Estuário tornaram-se de outra ordem. Tem implantada a primeira Linha de Ônibus a circular naquele bairro. É também instalado o Grupo Escolar 'Antônio Gonzalez', atendendo aos anseios dos moradores.
ENTRADA BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO - AVENIDA PRESIDENTE VARGAS ESQUINA COM A RUA CAPITÃO FRANCISCO LESSA [ITAPEMA/SP] DEZEMBRO DE 1949.
VISTA INTERNA BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO E SEU CASARIO [ITAPEMA/SP] JANEIRO DE 1950.
VISTA RUA "1" (CAPITÃO FRANCISCO LESSA) - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] DEZEMBRO DE 1949.
VISTA RUA GUILHERME GUINLE ("LINHA DAS TORRES") - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] ANOS DE 1950. 
LINHA DE ÔNIBUS QUE ATENDIA O BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] ANOS DE 1950.
BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO VISTA PANORÂMICA A PARTIR DA RUA "8" [ITAPEMA/SP] DEZEMBRO DE 1949. 

Nas margens do Rio Acaraú ficava o "Portinho" (próximo ao cemitério), pertencente ao Sr. Catrolo, onde se comercializava areia extraída do Saco da Embira e leitos do Rio Bertioga. Chatões carregados de areia desembarcavam ali.
TRECHO DO RIO ACARAÚ NO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP].
PROXIMIDADES DO "PORTINHO DE AREIA" NO RIO ACARAÚ - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 1976.
 
Quanto a urbanização pelos anos de 1960, o Bairro Parque Estuário possuía algum tratamento das ruas, melhor drenagem dotada de tubulações, energia elétrica domiciliar, água encanada e coleta de lixo. Entretanto, o projeto do loteamento não privilegiou um espaço urbano de convivência, não há praças. Surgem alguns assobradados comerciais (residência no andar de cima, comércio embaixo). Por essa época, recebe novo veículo para a Linha de Ônibus com ponto final no bairro.
ÔNIBUS CIRCULA NO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] MARÇO DE 1963.
ALUNOS DO GRUPO ESCOLAR 'ANTÔNIO GONZALEZ' - PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 1961.
SENHORAS NA CALÇADA DA RUA CAPITÃO FRANCISCO LESSA COM A AVENIDA PRESIDENTE VARGAS - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 1961.
CLASSE DO GRUPO ESCOLAR 'ANTÔNIO GONZALEZ' - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 1969. 

No bairro está assentado o Cemitério Distrital da Consolação, desde Agosto de 1960, quando foi inaugurado, ao final da Avenida Presidente Vargas Nº 985. Onde se amortalham entes queridos de todos os itapemenses.
CERIMÔNIA INAUGURAÇÃO CEMITÉRIO DISTRITAL DA CONSOLAÇÃO - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 1960.
INAUGURAÇÃO CEMITÉRIO DISTRITAL DA CONSOLAÇÃO - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] AGOSTO DE 1960.
CEMITÉRIO DISTRITAL DA CONSOLAÇÃO - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2013. 

Não sem muito custo, por parte da Administração Municipal, consolida-se a ampla pavimentação, calçamento de suas vias e ruas, minorando o transtorno dos transeuntes. Assim tivesse instalada razoável Iluminação Pública e Saneamento Básico.
MENINOS NA ENTRADA DO BAIRRO VILA PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] DÉCADA DE 1950.
UMA GRANDE FAMÍLIA EM RUA DO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] ANOS DE 1960.
GAROTO PEDALA SUA BICICLETA PELO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP].
CICLISTAS TRAFEGAM PELA AV. PRESIDENTE VARGAS COM A RUA SÃO PAULO - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 1973.

Ao longo das décadas mais outros equipamentos públicos são estabelecidos. Escolas municipais. Antiga agência dos Correios (anos de 1970) instalada na Rua Capitão Francisco Lessa, de início sem carteiro, retirava-se a corresponncia no local. Pontos de Táxis ganham lugar no bairro, a suprir o Parque Estuário de suas demandas sociais.
ESCOLA MUNICIPAL 'AFONSO NUNES' - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.

Contudo, a Vila Parque Estuário melhorou demais suas condições de urbanidade. O aspecto agradável, serviços públicos disponíveis e boa condição de moradia levou aqueles, que podiam adquirir um terreno ou casa a escolherem o bairro para viver.
Pelo interior do loteamento predominam casas no estilo dos antigos chalés remodelados em alvenaria, sobrados, casas geminadas. Embora arruado e provido de pavimento diverso (paralelepípedos, bloquetes, asfalto) requer apurada zeladoria dos logradouros a cargo da Prefeitura.
Sendo o cotidiano relativamente tranquilo. Alguns cães passeiam nas ruas ou guardam calçadas latindo aos passantes, moradores conversam à frente dos portões, reunem-se nos bares, sobre bicicletas cruzam esquinas, o modesto comércio funciona movimentado e o ruído da atividade laboral em determinados trechos ressoa na vizinhança. Crianças burlam o tempo brincando, não tarda passar uma moça bonita, a dona-de-casa vai à vizinha, varrem-se calçadas, lava-se muros seus gradis, uma nova moradia se ergue a transformar o casario.
ASPECTO MELHOR URBANIZADO DO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO - TRECHO DA AV. OSWALDO CRUZ COM A RUA DUQUE DE CAXIAS [ITAPEMA/SP] DEZEMBRO DE 1976.
ANTIGO CHALÉ NA AV. PRESIDENTE VARGAS - PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP].
TRECHO AV. PRESIDENTE VARGAS ONDE NOTA-SE A OCUPAÇÃO AO LONGO DO PERCURSO - PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] DEZEMBRO DE 2011.
RUA BARÃO DO RIO BRANCO - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
RUA CAPITÃO FRANCISCO LESSA - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017. 
TRECHO RUA CAPITÃO FRANCISCO LESSA - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
RUA SANTA LUZIA - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
RUA ALVARO PARENTE - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.  
RUA MONTEIRO LOBATO - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] MARÇO DE 2017.
RUA OLAVO BILAC - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017].
TRECHO DA AV. OSWALDO CRUZ NO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.   

Sua principal via de acesso é a Av. Presidente Vargas (outrora Avenida "A"), renomeada conforme Lei Municipal Nº 375, de 04/12/1957. Sendo dotada de ciclovia no canteiro central por toda extensão. A Av. Presidente Vargas tem grande movimentação de veículos, pois está interligada a via de entrada do Distrito itapemense.
PERCURSO AVENIDA PRESIDENTE VARGAS - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP].
AV. PRESIDENTE VARGAS TRAJETO - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP].
CICLOVIA DA AVENIDA PRESIDENTE VARGAS - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP].
AV. PRESIDENTE VARGAS - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
    SEGMENTO AV. PRESIDENTE VARGAS - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.  

Em consequência deste desenvolvimento aumentou seu número de residentes, conforme censo do IBGE de 2010 moravam no Parque Estuário 8.238 munícipes.
A premente necessidade de habitação em ITAPEMA/SP gerou certo problema de ordem social, devido a invasão de áreas fundiárias inerentes ao Parque Estuário pelos anos de 1980, pertencentes à municipalidade. Como a "Favela do Caixão" incrustada no bairro itapemense, requerendo regularização e projeto habitacional afim de integrá-la a urbe da cidade. O terreno que foi o Campo do saudoso time do Brasil A.C., depois Náutico e Cascatas, situado no Parque Estuário aguarda destinação adequada para aproveitamento da população.
IMAGEM DE SATÉLITE MOSTRA A ÁREA DO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP].
CRIANÇAS NUM QUINTAL DO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] ANOS DE 1960.
COTIDIANO NO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2012.
VISTA DUMA SACADA - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP].  
ENTARDECER NO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] MARÇO DE 2017.

Na Av. Presidente Vargas (em seu percurso) está estabelecido a maior parte da atividade comercial do Bairro Parque Estuário. A micro e pequena Empresa, o profissional liberal, a iniciativa particular impulsionam o comércio local.
Núcleos de comércio também formaram-se noutras localidades do bairro itapemense, mantidos pelas necessidades de consumo dos moradores das imediações. Outros pequenos negócios funcionam numas tantas ruas essencialmente residenciais:
Despachantes, imobiliárias, dentistas, corretoras de planos de saúde, farmácia, escolas particulares de educação, núcleos de educação infantil, escola de idiomas, estúdio de dança, academias de ginástica, lojas de modas, costureiras, brechós, sapateiro, sapataria, salões de beleza, barbearias, floriculturas, auto-escola, lojas de motos - produtos e acessórios, concessionárias de veículos, mecânicas de autos, funilarias, postos de gasolina, borracharias, oficinas de bicicletas, lava-rápidos, assistência técnica de aparelhos eletrônicos, manutenção de computadores e informática, loja de materiais para construção, marcenarias, gesseiro, tapeceiros, loja de toldos e forros, serralherias, vidraçaria, assistência técnica de refrigeração e ar-condicionado, instaladora de segurança eletrônica e proteção residencial, empresa de segurança patrimonial, dedetizadora, gráfica, artes visuais (placas, banneres), casa de artigos religiosos, bancas de jornais, lan house, clínicas veterinárias, lojas para animais, loja de equipamentos para o comércio, distribuidora de gás de cozinha, padarias, disk-pizza, lanchonetes, bombonieres, mercadinhos, mercearias, adegas de bebidas, distribuidoras de água, bares, botecos, salões de festas, constituem alguns dos negócios instalados no Parque Estuário.
COMÉRCIO INSTALADO NA AV. PRESIDENTE VARGAS - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
TRADICIONAL NÚCLEO DE COMÉRCIO NO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
ATIVIDADE COMERCIAL AO LONGO DA AVENIDA PRESIDENTE VARGAS - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
NÚCLEO DE COMÉRCIO - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
ATIVIDADE COMERCIAL ESTABELECIDA NO TRAJETO DA AV. PRESIDENTE VARGAS - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
COMÉRCIO NO INTERIOR DO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.
ATIVIDADE COMERCIAL - BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.  
COMÉRCIO INSTALADO NO BAIRRO PARQUE ESTUÁRIO [ITAPEMA/SP] 2017.  
       
Como resultado, o Bairro Parque Estuário tornou-se próspero. Seu histórico de ocupação ordenada contribuiu para a implantação de melhoramentos urbanos, sem este padecer demais com a morosidade da Administração Municipal.
Agrega agora à sua paisagem residencial, lojas, prédios, que abrigam um crescente comércio e prestadores de serviços, a tornar o bairro mais ativo e solicitado pela população itapemense em função das oportunidades geradas. Gente que está na batalha e não quer perder a luta.

quarta-feira, 8 de março de 2017

ANA PARTEIRA DOS ITAPEMENSES

À ESQUERDA ANA FERNANDES DE FREITAS EM FAMÍLIA [ITAPEMA/SP] 1981.

Ana Fernandes de Freitas, escrito assim remete a um simples nome de mulher, porém Ana Parteira como passou a ser conhecida trouxe ao mundo pelas suas mãos, uns tantos itapemenses de nascimento. Residiu na Rua Itapema Nº 6, imediações da Estação das Barcas. Um chalé estilizado em alvenaria, com frontãozinho (à esquerda), de recorte arredondado ao estilo colonial, enfeitado ao centro por um azulejo amarelo de motivo caledoscópico, numa posição losangular, e eira em arco com cumeeiras plisadas, ostentando pequenos pináculos retorcidos no vértice das águas do telhado. Na parede frontal da área de entrada (à direita), pintura campestre em azulejos tendo moldura de gesso no maneirismo neo-clássico.
ANTIGA CASA DE D. ANA PARTEIRA NA RUA ITAPEMA Nº 6 IMEDIAÇÕES DA ESTAÇÃO DAS BARCAS [ITAPEMA/SP].

Ana Fernandes de Freitas foi a mais emblemática e querida das parteiras itapemenses, pois ganhou a dimensão mítica do lugar, como a figura contemplada por trazer à vida um outro seu ilhéu. Portuguesa, nascida na cidade do Porto, em 1900. Chegou ao Brasil, no ano de 1913. Fez curso de Farmácia e Enfermagem, pela Santa Casa da Misericórdia de Santos.
ANA FERNANDES DE FREITAS (A PRIMEIRA SENTADA À ESQUERDA), FORMANDA DO CURSO DE FARMÁCIA E ENFERMAGEM.

"Mãe Ana", chamavam carinhosamente a parteira itapemense. Ela que fez o parto de conhecidos moradores do antigo ITAPEMA/SP: Eliana Marques, Xaxá Lopes, Gentil da Silva Nunes, José Alfredo Simões de Souza, Carlos Roberto Moura de Lima, Irene Porto, Rita de Cássia, Jorge da Cruz, Wilma Porto, Sueli Simões de Souza, Pedro Paulo, Maria Cristina Moura de Lima dentre outros.
Recebeu como uma missão enviada pelos céus, veio-lhe num sonho, conhecia tudo do parto. Apanhava o rosário, punha o xale se preciso, saía mesmo chovendo, de madrugada. Não tinha dia, tão pouco hora. Bastava dar a dor de parir... A parturiente não se podia sentar à porta de casa, nem das comadres, de jeito maneira, pois poderia ter um parto difícil.
Nenê atravessado, sentado, era virar a criança de bunda na posição correta de nascer... A quem dissesse que era tomada de uma "coisa", que a transformava.
XILOGRAVURA REPRESENTA O MOMENTO ESPECIAL DA MULHER GRÁVIDA.

Quando a sogra de Osório Simões de Souza, gritou da varandinha do chalé:
- Chega, Osório que Olga tá cum dor de menino!... - Morador do Bairro Pae-Cará pegou sua bicicleta e saiu pra buscar a parteira. As ruas eram de terra, desniveladas, buracos, o guidão trepidava muito, enquanto ele pedala ansioso. Pegou um trecho da Av. Santos Dumont, o leito um pouco melhor. Adiante uma voz vinda do lado da calçada lhe chamou a atenção:
- Onde vai nas carreras, homê?
- ...Olga vai dar à luz! - Logo pedalava pela Avenida Thiago Ferreira. Tivera dificuldade com a tabuada na escola, mas aprendera multiplicar, somar ao seu coração o afeto de sua prole. E que pudessem crescer felizes.
Chega então à casa de D. Ana Parteira na Rua Itapema, alvoroçado:
- Vai nascer, Dona Ana!... - Um breve instante e lá vinha ela já reclamando baixo das primeiras dores naqueles joelhos, a resmungar das coisas cotidianas. Meio que de sobreaviso.
- Se acalme, fiu...
- As dores aumentaram agora. Deixei Olga em casa com as muié.
- E como é que a gente vai?
- De bicicleta. Tô sem dinheiro pra pagar um carro, Mãe Ana.
- Nem carroça... Ai, minha Nossa Senhora das Graças!
- O pae cará não é longe..." - Ela entra para apanhar apetrechos, retornado logo.
- Espero que a cria não teja com pressa de chegar a esse mundo. - Ana Parteira se senta na garupa da Monark e simbora pro Pae-Cará.
- Toma cuidado, hein... - E toca a pedalar depressa, pois Olga espera sem muito puder.
ILUSTRAÇÃO EM AQUARELA DA HORA DO PARTO.

Sua chegada provocava um certo conforto. Indica alguns preparos, recomendações. Daí fazia suas preces. Evocava a memória de parteiras do passado para obter sucesso. Ela aí ajeitava a criança se necessário. E a encaixava no nascedouro...
- Faz força! Força... Vamos!! - Ana Parteira insistia.
- Ui, ui, ajuda sua mãe... Oh, virgem santaaa... - Aos gritos avexados da parturiente.
- Isso... Tá vindo, bora mulé... - A parteira mais suada que pano de cuscuz.
- Ai... Ai... Meu pai!... Eu não guento...
- Toma fôlego, criatura. Vai, empurra... Falta pouco. - Com leves sacudidas do corpo e massagens, Ana Parteira fazia despertar o bebê, num vagido encantador de alívio.
Assim nasceu Osório Simões Souza Filho como tantos mais, mulheres e homens desta cidade.
XILOGRAVURA RETRATA CENA DE PARTO [SALVATORE LOFREA].

Diziam que era um dom receber aquelas vidas nas mãos. Conhecia de ervas para o banho de assento. Orientava como dar de mamar à criança, cuidar do umbigo, que  o rato não levasse pra não virar ladrão. O conselho dado, de agora em diante não coma nem beba coisa amargosa pra não amargar o leite da criança e dar dor de barriga no nenê.
Sempre queriam dar-lhe uma prenda, tão agradecidos. Que fosse um bolo, uma comida, então prestar um favor. Ao modo dos costumes do interior do Brasil, que se ofertam as parteiras com tenras galinhas, gordos leitões etc, gratos pela boa-hora.
À ESQUERDA ANA PARTEIRA FERNANDES DE FREITAS E O MARIDO ANTONIO MIGUEL DOS SANTOS NO CASAMENTO DA FILHA NÉCIA COM JOÃO MIGUEL [ITAPEMA/SP].

Tal seu carisma, por vezes fazia batizados, as chamadas "crismas", cujo ritual é pular a fogueira pela mão da Madrinha, nos festejos juninos.
Ana Parteira foi muito solicitada. Depois veio a idade, os doutores médicos, e aposentou-se. Era proprietária da Farmácia "Nossa Senhora do Carmo", na Rua Itapema ("Pontão das Barcas"), que teria sido a primeira farmácia do Distrito itapemense.
Tendo falecido Ana Parteira Fernandes de Freitas, em 1988, muitos nascidos pelas suas  benditas mãos compareceram ao enterro, no Cemitério Distrital da Consolação, para homenageá-la.

[Entrada Hospital da Mulher e Maternidade 'Ana Parteira' - Bairro Pae Cará.]


Lamentavelmente, Ana Parteira teve o nome e memória vilipendiados pelos desmandos administrativos da madrasta Sede Balneária, cuja prepotência desativou a Maternidade em ITAPEMA/SP, batizada com seu nome, reconhecimento do seu trabalho no Distrito. Gestantes e seus bebês enxotados arrevelia do prédio, por um então Secretário de Saúde, que arroga ter diploma de Medicina e exercer sem riscos a profissão de Médico. Da Maternidade Ana Parteira os equipamentos parte sucateados, o material de trabalho disposto ao bel-prazer ou utilizado para as ações de governo demagógicas na própria Sede, no caso em especial comandado, acredite, por uma mulher. Obrigando as mulheres de ITAPEMA/SP a um deslocamento desnecessário de quilômetros para dar à luz aos seus filhos, do outro lado da Ilha de Santo Amaro.
Querendo subtrair e anular, como é seu vezo, a identidade primeva do Distrito, furtamente apropriando-se dos valores de ITAPEMA/SP.              

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O CARNAVAL POR VICENTE DE CARVALHO




Parece que só o Carnaval resiste, sempre viçoso e sempre transbordante de alegria, à onda de inconstância que transforma e substitui, de geração à geração, as transitórias coisas humanas.
[busto do folião "Poeta do Mar" no distrito itapemense/sp]
A alma, talvez ainda mais que o corpo, obedece à moda. A mudança pela qual evoluiu no vestuário inexpressivo de hoje o traje pitoresco, ou ridículo, ou simplesmente ausente, dos antepassados, é com certeza menor do que a diferença entre o modo pelo qual ele pensamento, sentiam e viviam, e o nosso modo de viver, de sentir e de pensar.
Tudo quanto é humano participa dessa influência implacável do tempo. As grandes cousas que têm a eternidade, pelo menos problemática, da alma, como as coisas insignificantes que só têm a limitada duração do corpo, - a religião, o feitio dos chapeus, as obras de arte, e as obras de cal e pedra, as nobres conquistas do pensamento como as materialidades da carne exigente e fraca, os altos sistemas filosóficos e os modestos sistemas de preparar a cozinha, tudo isso vai de transformação em transformação através dos anos. Não é cada homem que tem alma; é cada tempo. Cada geração possue, com entusiasmo e convicção, a sua moda privativa de encarar o Universo, de amar  a Deus e a Mulher, de sonhar os seus sonhos, e gozar os seus prazeres, de guiar a sua ambição e de temperar a sua sopa.   
DESENHO REPRESENTANDO O CARNAVAL PARA A CRÔNICA DE VICENTE DE CARVALHO.

Tudo cança, tudo se arruína, tudo passa, menos o Carnaval. Só ele sobrenada no Oceano de destroços que é a vida humana. Desmaia o ardor pelas festas piedosas da igreja; vai-se reduzindo a uma tradição perdida a solenidade aparatosa das procissões; amortece pouco a pouco no desuso a comemoração pirotécnica dos santos cujo dia se festejava com a aplicação inocente dessa diabólica invenção que é a pólvora, feita para as batalhas e as carnificinas... E só, de todas as festas populares que o tempo desapiedado vai varrendo das nossas almas e dos nossos costumes, fica, eternamente juvenil, essa consagração de três dias do ano às loucuras da Alegria.
Seria interessante indagar de que fios de complicada psicologia se trama esse fenômeno de resistência sem exemplo oferecido pela alma inconstante dos homens à ação implacável do tempo. Não é certamente o vosso espírito, ó dominós espirituosos; nem o teu barulho, ó Zé Pereira barulhento; nem o vosso aparato, ó bandos carnavalescos deslumbrantes da fácil riqueza de papel dourado e das sedas imitadas com economia; nem a vossa chuva multicor, que faz noite estrelada na cabeleira das mulheres, ó confete; nem o vosso esguicho amável, sóbrio, perfumado, ó bisnagas que representais a civilização da antiga seringa, pródiga de simples água do pote ou da água complexa das sargetas...
[Poeta Vicente de Carvalho caricaturado por Anatolio Valladares - Carnaval 1903]

O Carnaval, essa consagração de três fugitivos dias do longo ano à loucura, explica-se como uma instintiva revolta do homem, condenado a uma vida eriçada de asperezas, escravizado entre grades de cárceres uma civilização toda feita de complicadas conveniências que o obrigam a viver aprumado, de leis que o guiam como o freio guia um cavalo, mal domado, de necessidades adquiridas que o espoream, de lutas extenuantes que lhe absorvem a alma, e de colarinhos engomados que lhe torturam o corpo.
Não há tirania mais dura que a do bom senso. É o bom-senso que nos impõe o trabalho, cheio de fadiga, e a moda, fecunda de caprichos. É ele que corta as asas travessas de nossa fantasia, e a substitui em nossos ombros vergados, pelo peso da Verdade; que nos reprime dos instintos para os quais nos fez a natureza, como vigorosos animais que éramos, e nos submete ao respeito à Autoridade, ao Costume, aos Códigos, a toda a complicada engrenagem da organização social, como abatidos cidadãos que nos tornamos; que pouco a pouco esvazia os nossos olhos da consoladora contemplação das coisas do céu, para o mesquinho e amargo espetáculo das realidades da terra. É ele, o bom-senso, que envenena nossas vidas, que a despovoa de pitoresco e a ensombra de tristeza. É ele que nos guia, que nos arraza quase, nessa curta e penosa jornada que vamos caminhando sempre, sobrecarregados de deveres, de necessidades, de preocupações - e sem destino conhecido como digno de tanto esforço empregado e de tão duras dificuldades afrontadas.
REI MOMO COMANDA BAILE CARNAVALESCO DE SALÃO EM CLUBE DO DISTRITO DE VICENTE DE CARVALHO [ITAPEMA/SP].

O carnaval é um ato de revolta instintiva contra as tiranias do bom-senso. Abrimos com ele, no comprido ano todo, preenchido com as coisas graves, com a Regra e com a Ordem, um parênteses de três dias consagrados à livre e tumultuosa alegria. Nem há, em todo  o farto Olimpo, deus que mereça mais fervoroso e mais agradecido culto do que essa deusa de tão raras mas tão luminosas aparições para o nosso coração acostumado à sombra. A sua festa não é marcada apenas pela ligeira referência do Calendário, feita de frágil tinta que um pouco de tempo apaga, no frágil papel que um pouco de tempo destroi; a sua tradição é conservada intacta e viva, através do tempo destruidor, no espírito duradouro dos homens. Santa Alegria, consoladora das aflições quotidianas! Que muito é que te consagremos três dias do ano, nós que esbanjamos com a preocupação das coisas que chamamos graves apenas porque são desagradáveis, e que chamamos sérias apenas porque não são risonhas, - a nossa vida e a nossa alma?

                                                                 [Fevereiro, 1900.]