__________ Itapema, suas histórias... __________

domingo, 21 de agosto de 2011

A MARGEM ESQUERDA TEM NOME

A DITA MARGEM ESQUERDA NO ESTUÁRIO DO PORTO [ANOS 70] - ITAPEMA/SP.

Do ponto de vista sócio-econômico, Itapema durante muito tempo figurou geograficamente como "cidade-dormitório" (tese contestável), apêndice da cidade de Santos ainda que nos limites de Guaibê. Na metade dos anos 60 era considerada pelos geógrafos da USP, área urbana santista, extravasamento da grande Santos. Um pouco talvez, por estas terras da Ilha de Santo Amaro e adjacências estarem  ligadas administrativamente ao município vizinho.
Matéria publicada numa Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 1914, em 'A Tribuna' ilustra bem tal condição. O jornal santista notificou as melhorias no bairro da Bocaina, após visita do Prefeito. Estavam previstos reparos em pontilhões, fornecimento de água, iluminação, transporte. Como era de se esperar, muitas das tais promessas não foram levadas a termo.

Blaise Cendrars escreve num poema de viagem, por volta dos anos 20, [a da esquerda] "desolada pantanosa repleta de palmeiras espinhosas..."

A verdade é que crescemos e o cenário modificou-se, a margem esquerda possui identidade própria, tem nome. Itapema não constitui mais área marginal à administração santense, como preconizavam os estudiosos. Mas, há aqui inúmeras referências ligadas à história santista e os lugares deste chão.
VISTA PANORÂMICA DE ITAPEMA/SP [AO FUNDO] ÀS MARGENS DA ILHA DE SANTO AMARO, NO ESTUÁRIO [MEADOS DA DÉCADA DE 1910].

Uma delas é o bairro Enguaguassú, banhado pelo lagamar homônimo, que compreende a Av. Presidente Castelo Branco à Rua Bartolomeu de Gusmão (santista conhecido como "Padre-voador"). Região remanescente do antigo bairro da Bocaina.
RUA BARTOLOMEU DE GUSMÃO - JARDIM ENGUAGUASSÚ - ITAPEMA/SP [2011].




O pintor Benedito Calixto retrata em um dos seus quadros o lagamar de Enguaguaçu [década de 1920], ao fundo ITAPEMA/SP.

Enguaguaçu é a antiga denominação do povoado embrionário da Vila de Santos. Nome dado pelos indígenas Guaianazes, composto pelo substantivo ENGUÁ e adjetivo GUASSÚ que quer dizer, pilão grande. Ainda alguns historiadores, buscando noutras interpretações do tupi-guarani, julgam tratar-se de corruptela de HE-N-GUAÃ-GUAÇU ("enseada maior", "grande").
Francisco Nunes Cubas, Capitão-mor do Forte de Itapema e sobrinho de Brás Cubas (fundador da Vila de Santos), possuía terras aqui compradas da família de Jorge Ferreira. [ao lado brasão dos Cubas]
Vejamos outras mais: Jardim Santense, originário do loteamento promovido pela City of Santos, Inprovements Co. (Companhia Santense) dos terrenos anexos às suas instalações no início do século XX.
RUA VEREADOR WALTER GONÇALVES - JARDIM SANTENSE [NA REGIÃO DO ANTIGO LOTEAMENTO DA CITY OF SANTOS, INPROVEMENTS Co.].

Há uma menção ao Clube Internacional de Regatas, "O Gigante do Itapema" (que manteve dependências por aqui até 1937), como clube do Pai Cará, no 'Almanaque da Baixada Santista', de 1973, pág 172. Em função de uma outra gleba, desta feita por intermédio da Família Backheuser que chamava-se Vila Pai Cará. Outra agremiação santense, o Clube de Regatas Santista (fundado em 1893) com sede por estas bandas, promovendo atividades esportivas e sociais, somente deixou a Bocaina em 1943.
DEPENDÊNCIAS DO CLUBE INTERNACIONAL DE REGATAS EM ITAPEMA/SP [MEADOS DA DÉCADA DE 1910].
 NESTA PANORÂMICA DE ITAPEMA/SP, NOTAMOS À ESQUERDA DO FORTE AS INSTALAÇÕES DO CLUBE DE REGATAS SANTISTA.
R. HENCHI MATSUMOTO - ITAPEMA/SP [ANTIGA REGIÃO DA VILA PAI CARÁ, LOTEAMENTO PROMOVIDO PELA FAMÍLIA BACKHEUSER].

Não pára por aí... Havia um projeto do urbanista Prestes Maia (Plano Regional de Santos, 1950) que indicava a construção de novas instalações portuárias na ILha de Santo Amaro. E também, a edificação da cidade 'Nova Santos', onde hoje é Itapema. Seria um conglomerado urbano para acomodar os trabalhadores do porto e algumas indústrias que seriam instaladas aqui. Desta idéia restou apenas uma panificadora com este nome no cruzamento da Via Santos Dumont e a Rua Joana de Menezes Faro.
PLANTA DE PRESTES MAIA [1950] COM AS INSTALAÇÕES DA NOVA CIDADE NA MARGEM ESQUERDA [ITAPEMA/SP].






Daí em fins de 1953, coincidentemente batizarem o novo distrito com o nome do "Poeta do Mar", Vicente de Carvalho.
A mais célebre, eu diria, o bairro Pae Cará, área de bananal pertinente ao condomínio 'Pai Cará, Sociedade Civil', que já vinha sendo invadida gradativamente pelo operariado santense. Ganhou proporção com o deslizamento dos morros santistas no ano de 56 em razão da estação chuvosa.
VISTA AÉREA DO BAIRRO PAE CARÁ, NO DISTRITO DE VICENTE DE CARVALHO [ITAPEMA/SP].

Bairro Monteiro da Cruz, loteamento pertencente à família de Antonio Monteiro da Cruz, sócio do Clube Internacional de Regatas. Sendo sua principal rua a Júlio Pedro Pontes, que era sócio da agremiação.
Os Backheuser (Rua Guilherme Backheuser), cujos membros da família participavam da Associação Comercial de Santos, desde Dezembro de 1870. Donos de firma com  negócios no Porto, 'Gustavo Backheuser, F. Silva & Cia.', no final do século XIX. Gustavo Backheuser participou em 22 de Dezembro de 1870 da Diretoria Provisória que fundou a ACS e Luiz G. Backheuser, membro. Tendo um ancestral deles, Júlio Backheuser empreendido esforços na região para a campanha abolicionista.
RUA GUILHERME BACKHEUSER - PAE CARÁ - ITAPEMA/SP [2011].

Ou ainda, logradouros com nomes de santistas ilustres: R. José Bonifácio, R. Martins Fontes, Rua Esmeraldo Tarquínio e Rua Engº Silvio Fernandes Lopes, ex-prefeitos de Santos.
RUA JOSÉ BONIFÁCIO - JD. ENGUAGUASSÚ - ITAPEMA/SP. 
R. SILVIO FERNANDES LOPES - PAE CARÁ - ITAPEMA/SP [2011].
À ESQUERDA ITAPEMA/SP.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

GERALDO FERRAZ na Ilhaverde

TRECHO EM ITAPEMA-SP DA ROD. CÔNEGO DOMENICO RANGONI/SP-55[ANTIGA PIAÇAGUERA].

Geraldo Ferraz cruzava a Rodovia Piaçaguera (Km 2 - Leste), viu de relance a margem direita além. O sol a banhar a face noroeste da Ilha de Santo Amaro, pros lados da Bocaina... Emergiu-lhe um pensamento.
"(...)Certo arranjo fantasista indetermina tudo, e é esse mesmo concerto a relacionar homens e acidentes, possibilidades suspeitas remansosas..." [ao lado Geraldo Ferraz numa caricatura de Dino]
Eis ali na profusão de barracos, tomando os restos da Restinga itapemense, outra "Cordilheira" a abrigar Doramundos... De gente pobre. Seus limites nos levam a pobreza no fim da rua, o cemitério. Em que um passo é também o despenhadeiro.
Atravessa os estreitos daquela Guaru-ya caiçara. Agrada-lhe a fresca salsugem sobre a Enseada, ao longo da Miguel Stéfano... Por fim chega à Rua dos Coqueiros 396, na Praia do Pernambuco. A casa de tijolos à vista refulge na luz da tarde guarujaína. Acontecia ao apresentar a residência às visitas reconstituir os detalhes que fizeram a construção. 
"- Gostamos demais do projeto. Gregori Warchavchik foi muito generoso permitindo o gosto pessoal de Wega, utilizando material de demolição. Por isso seu estilo não está num estado puro, sendo ele o percursor dos cubos e ângulos retos de concreto. Contrário aos supérfluos ornamentais na construção." - Foi com comentários similares que ele inaugura na imprensa a crítica de Arquitetura. Assim como fazia criteriosamente para as Artes Plásticas e Literatura... Como esquecer a entrevista com o mestre arquiteto Le Corbusier, naquele distante ano de 1929 para o jornal 'Diário da Noite'?
Adentrou a casa imersa na música de Dolores Duran, enquanto Wega no mezanino imprimia "vermelhos oníricos às suas paisagens imaginárias".
"COM UM TOQUE TODO PESSOAL, GERALDO FERRAZ EXPLORA ATÉ OS LIMITES MÁXIMOS AS POSSIBILIDADES DAS PALAVRAS, NO PLANO FORMAL E NO CONTEÚDO."

Revistas, publicações diversas, livros, perfilados nas estantes, empilhados em armários davam a dimensão de sua trajetória. Familiarizado conseguia distinguir a lombada do seu romance mais notável, 'Doramundo', de 1957 e espremido entre outros tomos o primeiro livro 'A Famosa Revista', depois veio 'Guernica' sua incursão pela poesia...
Lá se iam muitos anos desde 1905, na infância em Campos Novos do Parapanema, interior de São Paulo. Não era mais o menino Benedito Geraldo Ferraz Gonçalves ávido pela leitura, mas canibal de idéias. Jornalista combativo. Ainda na década de 1920 fizera parte do Movimento Modernista junto com Oswald de Andrade, Raul Bopp, como Secretário da 'Revista  de Antropofagia'. Acompanhando de perto o desenrolar da Semana de 22 e a ação dos Modernistas. Em 1933 fundaria o jornal 'O Homem Livre', juntamente com Mário Pedrosa, Patrícia Galvão, Hilcar Leite e Edmond Moniz, voz opositora a Ação Integralista brasileira, ao nazismo e o fascismo.
Já entre os anos 40 participa do jornal 'A Vanguarda Socialista' e dirige a Agence France-Press. Exerce mais tarde jornalismo nos periódicos 'Folha da Noite', 'O Estado de São Paulo', 'A Tribuna de Santos', fundou e foi Secretário do 'Correio da Tarde'. [ao lado capa de outra publicação do autor sobre Arte Contemporânea]
O tec, tec, tec da Royal 10 faz contraponto rítmico com a música vinda do estéreo, dali a pouco batem levemente à porta do escritório. Deixaria para mais tarde o término do mais novo projeto, um livro de contos, 'Km 63'... Wega anuncia imodestamente seu talento culinário.
Após o jantar irrompia pela casa a voz expressiva de Geraldo Ferraz, além das escotilhas do mezanino. A gente da casa atenta ao derredor. Dum falar enigmático, qual a noite revelada aos poucos sob a luz das luminárias no jardim... Surpreendente e Maravilhosa!
"Tão abstrata é a idéia do teu ser
 Que me vem de te olhar, que, ao entreter
 Os meus olhos nos teus, perco-os de vista..." - O enteado Tão Gomes Pinto adorava o ressoar das palavras pelo alto "pé direito" da Ilhaverde. Ao amanhecer seria o típico domingo com o rebuliço dos artistas, escritores e suas conversas acaloradas sobre Arte. Como se existisse o ato contínuo da felicidade... Até que tudo aquilo estivesse somente então na memória de sua presença em 1979.




Depois da união das águas na praia, junto a Ilhota do Mar Casado, Geraldo adormeceu largando os óculos de sol num móvel da sala. [à esquerda GERALDO FERRAZ em bico de pena por Wega Nery]

segunda-feira, 18 de julho de 2011

CHALÉ AO LUAR DE ITAPEMA

ANTIGO CENÁRIO DESTE IDÍLIO ITAPEMENSE.

Rua Rio Grande do Sul, 117... Um chalézinho esverdeado com varandinha na lateral direita da entrada. Onde você, K. Hime, doces encantos de enganar, aguardava-me. A réstia da porta entreaberta a delinear tua silhueta, perfume cítrico de pitanga pelo quintal.
Eu, gaijin todo coração, regresso na tentativa de reter o tempo desse amor com hora marcada. Apressados passos, no fim da rua sombreada, a lua caiçara por sobre o Morro de Itapema.
No quarto idílico resplandecia meu sol da meia-noite, lânguidas madrugadas nos teus lençóis em que me prendeu a vontade. Um vinil no estéreo Gradiente falava por nós. Também, o que dizer?... Bastava a "eloquência do beijo":
"Eu quero a sorte 
De um amor tranquilo
Com sabor de fruta
Mordida
Nós na batida
No embalo da rede..." - Nossa anatomia unívoca ao luar, emoldurados na janela típica. Sussurros a ocultar o escândalo. Dançar contigo Every breath you take, do 'The Police'. Ilustrar nosso próprio shunga de inconfessáveis sacanagens. Teus elogios a se fingir de gueixa.   
Mas tudo era brevidade. Como se mal acabássemos de nos ver, já nos separássemos... Horas felizes que o tempo não pretende preservar.
E como a paixão deseja ardentemente ser feliz noutros braços... Não há o que se discutir numa convicção.
Construímos uma fábula ao estilo dos romances enredados de amor. Bela e previsível. Enganosa originalidade, juras a serem descumpridas. Cartas repletas de tolices amorosas. Bilhetes poéticos deixados em lugares inusitados, entre tuas peças íntimas ou num pote de geléia, depois queimados em cinzas de rancor.

Pela paisagem urbana itapemense, planície abissal, errei a lamentar como mais um Werther melancólico perdido no lugar-comum.
Ah, o coração teima!... Nada além de ecos remotos, quando o passado renasce mais presente.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

LEMBRANÇAS DO PAE-CARÁ

RUA TIMBIRAS NO BAIRRO PAE CARÁ -  ITAPEMA/SP [2011].

Seo Ziu, dono do bazar no nº 37 da Rua Timbiras, agora vislumbrava um novo futuro. Os negócios poderiam prosperar. A situação ainda estava um tanto precária, mas havia de melhorar. Uma bananeira resistia no meio da rua e valas recortavam os quarteirões, outro motivo de preocupação. O velho Lino vivia desolado, estático no banco à frente de casa, perdera o neto recentemente. Afogara-se numa delas na brincadeira de apanhar guarus. [no detalhe abaixo casas no Pae Cará na década de 1960]
Claro tinham alguns descontentes. Todavia, o realinhamento das casas permitia organizar o Pae Cará, que aglomerou-se (do lado direito) em função das invasões desordenadas... E quanto não custara! A remoção de algumas moradias deu trabalho. Quase tirou a vida de Seo Chaguinha, quando este tendo se colocado embaixo do estreito porão para ajeitar os pilares veio esta arriar sobre ele. O desespero foi tremendo, porém o homem resisitira...
- De papo pro ar, Seo Ziu? - Era Zefa, nordestina vistosa que passava a rolar uma pipa, indo buscar água  na bica mais adiante. Brincou ao vê-lo distraído nas páginas de 'O Caiçara'.
Aliás, a matéria daquela edição elogiava justamente o empenho da repartição pública IPESP e dos orgãos públicos DNOS, DER, Prefeitura de Guarujá, bem como da City of Santos Improvements Co. Ltda e Companhia Docas de Santos. Destacava sobretudo, o auxílio dos moradores através de mutirões nos feriados e fins-de-semana:
"(...)Foi a força do povo que possibilitou abrir-se cerca de 15 Km de ruas, estender alguns milhares de metros de fios elétricos e remover duas centenas de casas." - Entretanto, nenhuma garantia jurídica de posse ou propriedade fora dada.
RUA DO BAIRRO PAE CARÁ NOS ANOS DE 1960 [ITAPEMA/SP].

O bairro ganhava aos poucos estrutura, inclusive com a construção do Grupo Escolar e a Unidade Sanitária. Contudo Seo Ziu reconhecia, havia uma certa desolação no lugar. Pelos casébres enegrecidos atrás das cêrcas de ripas que separavam os quintais, enfileirados na direção do Rio Acaraú.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

DA PEDRA LASCADA AO CONCRETO ARMADO SURGIU VICENTE DE CARVALHO

O CORDEL QUE CONTA A HISTÓRIA DE ITAPEMA/SP.

               Da prosa farei rima
               Causo novo contarei
               De modo muito simples
               A estória narrarei
               Falando duma mulé,
               Dum cabra também direi.

               Os dois fios eu ligo
               Digo numa coisa só
               Contarei o romance
               Ajusto num mesmo nó
               Glosando da cidade,
               Deste nosso cafundó.
               Foi nos tempos antanhos
               Fica então sabido
               Por aqui nasceu Vana,
               Itapema já ido:
               Dos chalés, de bananais,
               Mangues, do letrar "agáis",
               Meu recanto querido.


               Quando seus pais se uniram
               Folgazões feito o diacho
               Na modesta capelinha
               De Santa Cruz do Riacho
               Cedo deu à luz três filhos,
               Tem ao pai o brio macho.

               É na volta da ciranda
               Nos fandangos palmeados,
               Ciência da natureza
               Que são todos educados
               Criados a base de angu,
               Ostra, pirão de sururu,
               Por São Pedro batizados.

               Está é sua herança
               Povo humilde caiçara:
               Fisgar peixe com taquara,
               Do mar tirar sustança.
               Dá o sol temperança
               Deste sangue aguerido
               Sem ofício escolhido.
               Pegos pelo progresso
               Deles exige sucesso,
               Costume vai esquecido.


               Toma o rincão inculto
               Em alguns causa tristezas,
               Nada continua o mesmo
               Obriga outras destrezas,
               Era avô o faroleiro
               Lumiava no nevoeiro
               Os barcos das incertezas.

               Da antiga vida no mar
               Algo bom ainda lhes resta,
               Os tios são empregados
               Nesta margem tão modesta
               E nos tantos Estaleiros
               Sua sabedoria empresta.       

               Seu pai bom maquinista
               Levava o turista
               Pra ver a bela vista
               Das praias de Guarujá,
               Daqui eles embarcavam.
               Os manos carregavam,
               Algum tostão ganhavam
               Com malas por acolá.



               Na velha Maria Fumaça
               Virtual itinerário:
               Enguaguassú e Santense
               Vila Alice, Estuário,
               Ficou pra trás Cunhambebe,
               Sítio Pae Cará percebe
               Vai cumprindo seu horário.

               Onde vinga o matagal:
               Maravilha, Alvorada,
               Pouco antes o Monteiro,
               Vê Santana, Esplanada,
               Vila Áurea bem ao largo,
               Progresso da encharcada.

               Soltando fumo do vapor
               Rasga o solo brejeiro
               Boa Esperança há de ter,
               Conceiçãozinha pioneiro,
               Morrinhos sob o céu claro
               Cruza Rio Santo Amaro,
               Cêrca do nosso terreiro.


               A família desde cedo
               Viu Itapema crescer
               Residiram na Bocaina
               Até não mais se poder,
               Fazem lá Base Aérea
               Pros que cumprem seu dever.

               Muitos pararam para ver
               Certa vez um sucedido.
               João Ribeiro de Barros,
               Aviador reconhecido
               Pousar o hidro "JAHU"
               No golfo de Caneú
               Com vivas foi recebido.


               E neste mundo de feitos
               Onde a gente se supera,
               Apois vinga a família
               Quanto mais se prospera
               São maiores os cuidados
               Que à cada pessoa gera.

               Vive o pai de Vana
               Besta com aquela gravidez
               Já bem tardia da mulher,
               Porém Deus sabe o que fez.
               Dela cuida a gentil sogra
               Ana Parteira se desdobra
               Pede boa hora outra vez.

               Embaixo duma embira
               Soa plangente uma viola
               Versejando tristes quadras
               faz chorar a quem consola.
               Longe rubra tarde finda,
               Nostalgia peito amola.


               Senhor dono desta casa
               As boas-novas vim lhe dar
               Passe a mão no ferrolho,
               Favor a porta destrancar
               Que sou honrado cidadão
               Pasquim não quero assuntar.

               Já eram os anos trinta
               Por aí descamba confusão,
               Mas para mãe só alegria
               Parir rebento temporão,
               Essa guria de cachos,
               Xodó dos filhos machos
               Estabelece reinação.

               Nesses tempos de Guerra
               Nasce nossa heroína.
               Tomba Thiago Ferreira,
               Soldado de triste sina
               Mas Santos Amorim vive -
               Heróis que a todos ensina. 


               Depois de tanta labuta
               Vô deixa lida no Forte
               Não esquece dos amigos
               Algo busca que conforte
               Lá ainda são seus passeios
               Vai Vana nestes recreios,
               Mas pede que se comporte.

               Da torre viam o Porto,
               As barcas no estuário
               Ele mostrava em redor
               Belezas desse cenário
               Fazendo da sua infância
               Um precioso relicário.

               O destino se cumpre
               Bem sendo este qual for
               Eis que chega notícia
               Tem o velho uma dor.
               Pedem a Deus intermédio
               Já não havia mais remédio
               Padece em estupor.

               Dele lhe restou lembranças
               Estima e sabedoria
               Demais com avô aprendeu
               A pelejar no dia-à-dia,
               O sentido vil da morte
               Com ele assim aprendia.

               
               Logo ficou donzela
               Engraçou-se por rapaz
               Ia na praça à noitinha,
               Um irmão de capataz.
               Com ele não tem acerto
               Vigia ela do coreto
               De qualquer jovem audaz.

               Seu pai, um gênio severo
               Tinha outros arranjos,
               Pois prometeu aos anjos
               Torná-la beata do clero,
               Seguir hábito austero
               E seja lá como for
               Noiva de Cristo Senhor!
               Breve chega a idade
               De votar santidade
               Abraçando com louvor.


               Recorreu pelas cartas
               Conforme prima ensina
               Pr'aquilo havia jeito
               Alterar sua cruel sina,
               Pai Cará lhe deu passes
               Tranquilizou a menina:

               - O destino se cumpre
               A Seo ninguém faz favor!
               Agora pai embirra
               Mas vencerá o amor,
               Tão fiel e abnegado
               Quanto de Nosso Senhor.


               A mãe muito insistiu
               O homem não disse nada
               Que jamais voltou atrás
               Em uma palavra dada.
               Fala Vana deste jeito:
               - Me mato como o sujeito
               Na mangueira enforcada!

               O pai empacou de vez
               Ao vê-la tão ousada
               Perdeu a paciência
               Com a filha abusada,
               Sem clemência nenhuma
               Lição seria cobrada.

               Sete chaves botaria,
               Cortina na vidraça,
               Perderia a liberdade
               Não mais iria à praça.
               Ela se desesperou
               Reza nada adiantou
               Nem tão pouco pirraça.

               Vana cumpre sua sorte
               E seja esta qual for,
               Não esqueci dum moço
               Apregoarei seu valor,
               Enquanto ela espera
               Se acalmar bruta fera
               Outro drama vou compôr.


               Vindo lá do nordeste
               Aqui apeou Jessé,
               Só cas percata no pé,
               Fugindo do agreste.
               Sonhava no sudeste
               Vida sã de fartura,
               Comer boa rapadura,
               Por fim nesta miséria
               Esta nhaca tão séria
               Que faz a lida dura.

               Soube por um parente
               Precisam de servente
               Que guente o batente
               No ramo da construção.
               Carecia pois prática,
               Alguma gramática,
               Certa matemática
               Exigência do patrão.

               Vivendo de operário
               Mantém-se com dignidade,
               Tal moço de qualidade
               Trabalha além do horário
               Pra melhorar seu salário.
               Aperreado na precisão
               Ele ergue prédio e mansão
               Na orla da beira-mar.
               Deu sua feição ao lugar
               Vai conquistando próprio pão.


               Logo fez simples casébre
               Num chão doado pela tia
               Assentou sobre pilares
               Contra a umidade fria,
               Cobriu com telhas de barro
               Enquanto o céu não chovia.

               Do torrão natal ausente
               Recria imagens na mente,
               Passado torna presente:
               Fresca sombra do juazeiro
               Que a patativa toma,
               Genipapo seu aroma,
               O sertão onde assoma
               A toada do boiadeiro.

               São os sonhos acalanto
               Pois cansado adormece
               E assim visita os seus,
               Gente que o envaidece.
               É fortuna garantida!
               Morre, mas nunca esquece.


               Aos domingos no forró
               Matava funda saudade
               Firme no arrasta-pé
               De manhã até à tarde,
               Porém falta um querer
               Pra toda eternidade.

               Queria demais ser feliz
               No entanto, Jessé gemia
               Não entendia o porquê
               Conseguiu tanto e sofria,
               Não tinha xote, baião
               Que alegrasse noite vazia.

               Mesmo nos campos da várzea
               Já não era mais titular
               Perdeu a 10 artilheira,
               Enquanto nada melhorar.
               Seria medida extrema
               Quando o Clube Itapema
               Outro dérbi fosse jogar.

               Há males pra todo sempre?
               Fica aí minha pergunta.
               Atino eu muitas vezes
               Dissabores se ajunta.
               Aguardemos no amanhã
               Atentos bem se assunta.


               E certa feita numa rua
               Andando de bicicleta
               À toda velocidade
               Pedalava qual atleta
               Entretanto distraiu-se,
               Seu erro na via repleta.

               Subiu pela calçada
               No volante desacerta
               Quase tombou de fuça
               Diante da descoberta
               Daquela moça bonita
               Num vestidinho de chita
               Lhe deixa de boca aberta.

               Agora eu ato o nó
               Entre Jessé e Vana
               Tudo muito tramado
               Nos céus dizem: Hosana!
               Amor à primeira vista
               Nem carece de conquista
               Coração não se engana.

               Vana quis fazer pouco
               Daquele pobre coitado
               Desviando das pessoas,
               Leso e desconjuntado.
               Porém, dele não mangou
               Por vê-lo bem avexado.


               Caiu foi de quatro Jessé
               Já via em sua vida razão
               Pr'aquele imenso vazio
               Encontrava ocupação,
               Passou a visitar Vana
               Sempre havendo ocasião.

               Desta sincera amizade
               Nascia igual lealdade
               Superando a vaidade,
               O mais devotado amor
               Que dois corações unia.
               Um sério porém havia
               Casório nenhum teria
               Seu pai não dera o favor.

               - Só tua eu serei! - Vana diz.
               Dele pede recato
               Casta união deseja,
               Fazem assim um trato:
               - Antes não faça desonra... -
               Nas mãos dele põe sua honra,
               Precisava ir com tato.


               Nisso a flor do Manacá
               Linda, murcha e floresce.
               O Itapema ganha feições
               De Distrito e mais cresce.
               Aos pobres sobram problemas,
               A elite enriquece.

               Justo por esses tempos
               Se criou certo dilema
               Nos bares da cidade
               A peleja era tema:
               "Vicente de Carvalho
               Em todo cabeçalho
               Ou ainda, Itapema."


               E há gente neste mundo
               Pra não dar braço a torcer,
               Fica do lado errado
               Melhor podendo escolher.
               Se não mede consequências
               Deve ainda aprender.

               Jessé ficou dum lado,
               O sogro teima com gosto.
               - Itapema! - Diz Jessé.
               O tal rebate o oposto,
               Brabo insulta e maldiz:
               - Tu não passa dum infeliz!
               Vão desacatos ao rosto.

               E Lucas Nogueira  Garcez
               Imbuído de seu posto,
               Governador bandeirante,
               Promulga nosso desgosto.
               Empurram pela goela
               Engasga a espinhela
               Vence o poeta imposto.


               Temendo por má sorte
               Vana tomou decisão
               de seguir seu coração,
               Ou escolheria a morte.
               Ser fraca e não forte,
               Já estava bem madura
               Pôs um fim na tal clausura.
               Sem dar ligância à norma
               Casou de qualquer forma
               Salva amor da sepultura.

               Deixou o pai tão mofino
               Essa dor o tempo cura
               Se queria felicidade
               Bastava eterna jura,
               Não seria cego juiz
               Mas a santa da matriz
               Que lhes proverá fartura.


               O destino se cumpre
               E cada qual faz o seu.
               Tiveram muitos filhos
               E um deles que sou eu,
               Contador da estória
               Tirada de memória
               Deste casal que venceu.

               Versejei da nossa gente
               E dei o meu recado,
               Assim a cidade surgiu
               Um povo misturado
               De uma pedra lascada
               Ao concreto armado.


               Nunes Ita, bom amigo,
               Um morador bem antigo
               Narrou passado consigo
               E agora vai simbora.
               Salve Divino Padre!
               Inté, minha Comadre!
               Tenência, meu Compadre!
               Arremato sem demora.


                        ITAPEMA-SP, 28/11/1997.