__________ Itapema, suas histórias... __________

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

ITAPEMA TRANSEXUAL FILM

VHS DA AUDACIOSA FILMAGEM PORNÔ EM VÍDEO ESTRELADA POR ATORES GAYS ITAPEMENSES - BRAZILIAN TRANSEXUAL 2, DA SÉRIE PROMOVIDA PELA 'MASSIVOS VÍDEOS' [ANOS 90].

Aquilo era de dar um tesão!... A testosterona fervia na veia dos rapazes itapemenses. Ganhar dinheiro e ainda divertir-se. De meros coadjuvantes punheteiros, bolinadores nas sessões de cinema à protagonistas daquela audaciosa incursão cinematográfica. Faziam planos, conquistada a Europa era vencer o preconceito brasileiro e chegar ao estrelato na 7ª Arte pornô. Sonhavam fascinados com os letreiros luminosos a decorar a tela...








Nomes em inglês!?... Justificava-se era preciso manter um certo anonimato. Pseudônimos com os quais as "bibas" do elenco pretendiam fazer carreira além-mar.





...Dali a pouco apareceu o Diretor BOB CRUZOE movimentando o set de gravação.
- Tranquilos... A coisa é muito simples. Bem ao estilo "câmera na mão, uma idéia na cabeça", com muito sexo. De todo o material filmado vamos transformar numa segunda produção: BRAZILIAN TRANSEXUAL, ok!
Todos estavam antentos e interessados, sentindo-se verdadeiros astros. Na primeira ele pretendia algo como garanhões soltos pela floresta. Por isso a locação era bucólica, no meio do mato. Afastados da vida urbana deviam entregar-se aos seus instintos.
 UMA DAS CAPAS DO POLÊMICO VHS CULT COM ATORES GAYS ITAPEMENSES [DÉCADA DE 1990].

- Coloquem estes lindos corpos pra trabalhar... Precisamos de sexo selvagem! - Orientava o Diretor. No segundo filme, bonecas e rapazes feito anjos no paraíso. Os travestis serão doces anjos traiçoeiros a enrabar virginais traseiros juvenis. - Concluiu distribuindo beliscões nas nádegas descobertas do cast. - Que me dizem, não é genial?
Vamos abrir, depois dos créditos, com um romântico almoço reunindo os casais. Metáfora para o "comer e ser comido"... Se é que vocês me entendem. - E continuou a descrever o que mais queria dos atores, além do exotismo, da versatilidade.
Puseram-se a filmar seguindo o roteiro... Cruzoe passava as indicações da cena:
- Eric... Você é um matuto do sítio. Há muito não transa e avista este belo jovem. Já você, Larry... É um garoto travesso, que ao pular da árvore machuca-se... O Eric te socorre, então rola um clima... Ok?
- Entendi.
- Atenção, TONY MORALES... Anota aí, vou querer na Edição uns efeitos de sobreposição de imagens fundindo pra outro take. Um pouco de slow-motion. Outra coisa, na trilha sonora vamos variar com Fred Mercury e Air Supply. Vai ser a tônica desta fita, desejo, romantismo... Ok!
OS ATORES DO 'BRAZILIAN TRANSEXUAL 2' EM PLENA AÇÃO.

- Cena 3, Take 1. - Anunciou o contra-regra, acionando a claquete.
- Rodando!!... Ok. Ânimo rapaziada... - Sussurrava o Diretor por trás da câmera. - Assim... Desce e mordisca a bunda dele, Larry... - Os dois engalfinharam-se naquele duelo de espadas tesas. - Geme, cara. Não grita tanto... Guenta aí! - Era patente a inexperiência do coadjuvante. - Pára... Quem trouxe esse principiante?... Corta! Vai relaxar este rabo, meu filho...
O câmera-man confidenciou ao Diretor um problema técnico, no close da posição anal notava-se alguns seres esvoaçantes da floresta.
- Não tem repelente pra esses mosquitos?... Vaselina também.
- Acabou, usamos nos corpos dos atores. - Atestou a contra-regragem.
- Esquece isso, a gente corta na edição.
     



[MENÁGE A TROIS, CENA MARCANTE DO 'BRAZILIAN TRANSEXUAL 2' - MASSIVOS VÍDEOS.]


Assim prosseguem as tomadas de cena, permeadas de gemidos e exclamações de delícia pelos rapazes.
- Nossa como é grosso... - Diz o ator ensaiando.
- Na hora, James,  quero esta fala com sensualidade. - Ele repete com alguma expressividade. - Isso... Enquanto rola a pegação com a Bianca. - Cruzoe dá indicações a Tony sobre a continuidade da sonoplastia desta longa sequência. Usarão a Sonata de Bethoveen, "Claire de Lune". Contava com o contraste do resultado...
CENA DO FILME CULT PORNÔ EM VHS 'BRAZILIAN TRANSEXUAL 2' [ANOS 90].
 
- É a boa agora?... Silêncio! Ação!! - Dirige o casal abafando a voz. - Ok...! Caras e bocas. Estou gostando... Naturalidade. Beijos... Formando em 69.
- Como é gostoso! - Delira James possuído pelo personagem. Num flagelo sadô, Bianca estapeia a bunda dele.
- Excelente, boneca! Está ótimo. - Indica o Diretor com gestos diversamente positivos.
Porém, a cena torna-se difícil dada a penetração dificultosa da loira oxigenada no mancebo.
- Que droga...! - Exasperado Bob Cruzoe mantém gravando. Faz sinal de fora pra mandar ver na dedada.
Finalizada as filmagens aprontam um copião visto por todos, inclusive o Produtor BILL ROGERS. Ao terminar a pré-estréia restrita, as luzes da sala foram acesas. O Produtor admirava a tela vazia, a expressão preocupada.
- Em algumas cenas não tem muita fala?
- Decidi por algo mais natural... Próximo da realidade. A intenção é um pornô à moda antiga...
Bill estrilou de vez:
- Você sabe, Bob... O som do set vazou. Está uma porcaria!!
- Com o baixo orçamento que você me deu, eu fiz uma obra-prima!
- É inovador, sim. Horas de gravação, uma gozada e meia!!... Eu contei. Sinto um arrepio de terror ao imaginar o restante do material. Porra... A Bianca gemeu, mas na hora do gozo aquela micharia. Metida mesmo foi a do Larry com a Daniella, aliás a única gozada de fato... Eric e Gabriella sumiram no filme. Surubas mal armadas... Ensebação! Assim quem vai ser alvo de gozação sou eu!!
- Lançamos na série de vídeos amadores hardcore... Caseiros. Tem mercado, Bill... Gente que gosta deste tipo de coisa. - Sugeriu Tony Morales.
Semelhante paliativo foi visto por Bob Cruzoe como um remendo absurdo, que diminuía sua criação. Além do mais não fora combinado com o sócio europeu.
'BRAZILIAN TRANSEXUAL' - MASSIVOS VÍDEOS [DÉCADA DE 1990].

O jovem elenco ficou estarrecido com as duras críticas. A verdade que o desempenho artístico deixara a desejar. A vida desejada de Joey Silvera, Rocco Siffredi, John Stagliano ou duma Alexandria Quinn, Zara Whites, Selena Steele, não era moleza...
O tal sócio internacional deu literalmente "pra trás". Se viram traídos. Por uma travessura do destino as fitas de vídeo, que deveriam então ser lançadas em outros pontos do país foram parar também nas locadoras da cidade e região. Campeão de bilheteria nos lares puritanos itapemenses. Ganhou a boca do povo... Machetes estampavam o escândalo nos jornais. Luzes, Câmera... Preconceito! Fizeram fama.
 VHS DO VÍDEO CULT PORNÔ 'BRAZILIAN TRANSEXUAL' [ANOS 90].

Como explicar as famílias que era tudo encenação? Emprestaram os corpos aos personagens. Aquilo, puro faz-de-conta... Cinema.
- E aquele pau no teu cu!... Efeito especial? Faça-me o favor... - Contestavam os parentes indignados.
A mal fadada tentativa de sucesso no circuito do cinema pornô redundou num vexame homérico. Um pouco por moralismo do Distrito outro tanto por ingenuidade dos envolvidos. Parafraseando Oscar Wilde, eu diria: a questão não era saber se o filme seria um sucesso, mas se o público o seria.

sábado, 21 de julho de 2012

FILHO CRIADO DE PAI CARÁ

TRECHO DO CALÇADÃO - DÉCADA DE 1980 [ITAPEMA/SP].

Cismada com as escapulidas do marido nas noites do 'Ôba-ôba'e S.A , Ela necessitava de uma confirmação. Seguia-o quando saía, revirava-lhe os bolsos do paletó numa busca infrutífera. O D. Juan tinha meios de despistá-la. Passeando desnorteada pelo centro encontrou um panfleto jogado no calçadão...

Foi de a pé mesmo. Solando pelas calçadas da Av. Santos Dumont... Ao chegar no endereço, tortuoso letreiro indica o local. Uma voz rouca chamou de dentro, a brasa do charuto reluzente na escuridão. Do defumador recendia um incenso fedido, daqueles que espanta não só mal olhado.









Sem ela dizer palavra, Pai Daum se pôs a matraquear. Caso conhecido o dela. Vinham muitas naquela situação. Consultaria as forças superiores com o celular. Digita, tenta... Contudo, parece que o caboclo andava ocupado. O jeito seria o método tradicional. Estrebuchou, fez caretas... E pimba!
- Misifia tá pricisanu si banha nu discarregu. - Receitava o Preto-velho. Doutor em religião, mas versado na asnice completa.
- Tá ruim assim!
- Us caminhu trancafiaru. U sapu du trabaiu num morreu nã. Ingasgô cum tu nomi. - Proferiu bolinando a cliente com passes de cima a baixo. Detendo-se naquelas partes que mais lhe atraíam.
- E foi!?... feitiço?
- Óia, mundiga. I das braba!... Ih, ih,ih!! - Oh, guia safado aquele! Perdera o corpo porém, não abrira mão da sacanagem.
- O senhor ri...
- Mi ri nã. É u santu. - A pretexto do Ebó besuntou mel nela toda e deu-lhe um banho de língua.
De volta, o marido estranhou que estivesse coberta de hematomas. Ela então disse. Meia hora depois o fulano possesso meteu a pezada na porta do "terreiro". O Guia, pronto pra outra, escapuliu assustado antes que o "cavalo" tombasse crivado de balas.
 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A MORTE DE SANTOS=DUMONT NUM CARTÃO-POSTAL


ESTAÇÃO DAS BARCAS EM ITAPEMA/SP.

                                          Itapema, já tarde em Maio de 1932.


                    Em teu singelo brasão incrustado
                    À guarda de dois peixes quiméricos,
                    Marinho esplendor da Vieira-rainha
                    Transpõe o ser os umbrais do duo tempo:
                    Eis a gare de incertos destinos vãos!
                    Visagem remota prosopopéica,
                    Episódio por nós desconhecido...

BUSTO DE SANTOS=DUMONT NA BASE AÉREA [ITAPEMA/SP].

                    Tendo singrado no vapor Paquetá
                    A falsa quietude das águas turvas
                    Desembarca aqui na vila humilde,
                    Onde lamacento espraia o Guaibê,
                    Um abatido inventor visionário
                    Que nos desvendara os mistérios do céu
                    Pondo na moderna realidade
                    A imaginação de Julio Verne.
                    Fantasia que o Homem só sonhara
                    Mas, sem querer dera asas a vilania.

 VISTA AÉREA DO FORTE DE ITAPEMA/SP, AO FUNDO O DISTRITO.

                    Urge seu sinal a Maria-Fumaça
                    Chamando ao metálico Aqueronte.
                    Ladram famélicos os cães inquietos,
                    Um vozerio matuto sobre o largo -
                    Adiante rumo à travessia!
                    Sob o ocaso constitucionalista
                    A lancetar sangrenta os ares rubros
                    Ergue-se a torre do Forte do Pinhão,
                    Triste glória de breves armistícios
                    Cessos às ruínas dum monumento...
                    Assim consulta pois tua consciência,
                    O breu da noite paulista se anuncia.

A BALDWIN CRUZA O CHÃO ITAPEMENSE.

                    Logo rangeu a locomotiva seus vagões
                    Neste caminho sem volta do Itapema...
                    Repentinamente pétrea teve a face,
                    O coração opresso ao busto escrínio
                    Em uma tão gélida e imóvel efígie,
                    Quando deparou com a velha mangueira
                    Ali impassível à beira da jornada.
                    Cuja lenda assim relatavam sombrios
                    Uns pasmos molecotes carregadores -
                    Nela pendera um amoroso enforcado!

AV. SANTOS DUMONT, NO DISTRITO DE VICENTE DE CARVALHO [ITAPEMA/SP].

                    Via Santos=Dumont aquela que lhe seria
                    Póstuma via revestida pelo asfalto,
                    "Na vargem grande cobiçada" estirar-se.
                    Ficam chalés, meandros entre os bambuzais,
                    Pátrios bananais suas folhas desfraldadas,
                    Voa dali fugidio o Tié encarnado
                    E a Suinã floresce antecipando o inverno.
                    Tudo passa além disperso no olhar baço
                    Por mais que procure beleza distinta,
                    Pouco há à margem esquerda da vida.

PANORÂMICA DE ITAPEMA/SP.

                    Sábio foi o poeta viajor ao deslindar:
                    "(...)desolada pantanosa repleta
                    de palmeiras espinhosas..." - Vê Cendrars?
                    Porquanto, ela caiba nesses olhares
                    Com estranha agudez melancólica.

A MARIA-FUMAÇA CORTA O ESTREITO ENTRE O MORRO DA GLÓRIA E SANTO AMARO.

                    Porém, sem muita demora por ironia
                    Pois nosso fadário sempre nos alcança,
                    A Baldwin penetra a garganta da Glória.
                    Estonteante paraíso vislumbrava:
                    Hélas, Guaru-ya! Indefinível Tupi.
                    Mimosa maquete, joguete de armar...
                    Paralipse que da régua transmutou-te
                    Geórgicas hipotenusas ianques,
                    Vértices borcos à sombra dos jerivás.
                    Balneário de tolos extravagantes,
                    Reino soberbo da excelsa profundura
                    Onde o belo se confunde com lindeza.

 A ESTÂNCIA BALNEÁRIA NA ILHA DE SANTO AMARO, POR BENEDITO CALIXTO.

                    Benvindo aqui jaz belle époque caiçara!
                    Ouve, harpejam inconsoláveis sereias.
                    Como a ti querem um tanto só consolar
                    Na fátua ardentia salina do Atlântico...
                    A leste do Éden podes enfim descansar.

ÍCARO DE SAINT-CLOUD HOMENAGEM DOS FRANCESES AOS FEITOS DE SANTOS=DUMONT.

                    Inspira a brisa morna vinda da orla
                    Em pélagos tormentosos se aprofunda,
                    Persegue-lhe renitente fedentina.
                    Nosso Ícaro demais bem sucedido
                    Porém, cuja alma pez desejava voar
                    "(...)no vácuo obscuro, em limbos de trevas..."
                    O céu, este zênite oceano do ar
                    E vencer o vazio do próprio abismo.

O 14-BIS ALÇA VÔO NO CAMPO DE BAGATELLE.

                    Por um Dédalo divinal inspirado
                    Que confia somente a Dumont outro feito,
                    Maquina ele alcançar distantes estrelas
                    Saído do baixo chão, da terra fria:
                    "- As coisas são mais belas vistas do alto
                    tendo à frente senão meu objetivo."
                    Qual se nisso lançasse os dados da vida
                    Sobre o pano bleu deste infinito.

O TRADICIONAL PASSEIO DE CHARRETE PELAS PRAIAS DO BALNEÁRIO.

                    Tristonhas meditações pelas alamedas
                    Nesta inglória luta a repelir vil fantasma
                    Daquele trágico sortilégio materno.
                    Ao sabor das vagas constantes nos rochedos,
                    Dos passos vacilantes que somem na praia,
                    Também as pitangas espargidas nos galhos
                    Sugerem-lhe ser púrpuras gotas de sangue.
                    Hiato lírico dum coração combalido
                    Em meio à trincheiras cavadas por sepulcros,
                    Feito seu invento anjo sinistro da guerra...
                    Naquele trajeto ermo do charreteiro
                    Tomou das rédeas o seu célere destino
                    A conduzir Pégaso num vôo celestial.

CARTA ABERTA DE SANTOS=DUMONT AOS PAULISTAS DURANTE A REVOLUÇÃO DE 1932.

                    Era um pássaro a arrastar suas asas no chão,
                    Só enxerga fealdade aos rés deste mundo
                    Mesmo que a natureza venha lhe colorir
                    Essas tão belas e generosas marinhas.
                    "Ilhaverde" de hipnotizante arrebol,
                    Cenário equívoco de ilusão absoluta!
                    Paisagem da experiência desumana
                    Somente ao nosso herói não cegava as chagas,
                    Quando o cego tem as retinas eclipsadas
                    Em ocultar a si particular mentira...

 À DIREITA SANTOS=DUMONT E AMIGOS NA ESTÂNCIA BALNEÁRIA.

                    A eternidade, moribundos transeuntes
                    Ainda que prenuncie tal termo na véspera,
                    Numa longa noite insólita sem aurora
                    E repetição constante dum crepúsculo,
                    Póstera não dura mais que um breve dia.

 JORNAIS NOTICIAM O PASSAMENTO DE SANTOS=DUMONT.

                    Então... Sábado, 23 de Julho
                    De 1932.
                    Enquanto as Portulacas desabrocham
                    Despertas pelo sol tépido invernal
                    Nesta fantástica Icária tropical,
                    Precipício deste vôo malogrado...
                    Com aquele tenso nó na garganta,
                    E duma gravata que lhe sufoca
                    Um travoso santo gosto amaro -
                    "Sois heureux, envole-toi dans les airs."

O CORPO DE SANTOS=DUMONT SEGUE DAQUI NO EMBLEMÁTICO CARRO FUNERÁRIO.

                    Linda Guarujá, mórbida guarida!
                    Estância de virtudes, belos vícios.
                    Pérola preciosa a embelezar suínos,
                    Cartão-postal deste último instante:
                    Foste propícia pousada ao suicídio.


quarta-feira, 13 de junho de 2012

CAMPOS SALES... SOB OS CÉUS DA ILHA





Odílio não sabia bem quem era aquele Senhor, elegantemente abotoado num terno escuro, que vinha no trem a discursar. Tomara conhecimento de que no vagão funerário da Maria Fumaça traziam o caixão de um ex-Presidente. Falecera em um chalé do Hotel La Plage e cujo corpo regressava à capital paulista no esquife coberto com a Bandeira do Brasil. Emocionado o homem tecia elogiosas sentenças sobre o ilustríssimo falecido...

- Manuel Ferraz de Campos Sales, Brasileiros! - Tinha a voz embargada. - 28 de Junho de 1913, amortalha-se a pátria enlutada! - Não economizava nos predicados. Antes de ser Presidente da República brasileira fora Ministro da Justiça, instituiu e regulamentou a obrigatoriedade do Casamento Civil. Enquanto Presidente desenvolveu política de apoio à agricultura, valorização do plantio de café. Não medira esforços para integrar o Acre ao território nacional. Como político fizera muito pelo Estado de São Paulo...

[Trecho da E. F. Itapema - SP 2066]

Nisso irromperam pelo vagão as palmas, no exato momento que o gemido dos trilhos fez arribar por sobre os bambuzais da Conceiçãozinha um bando de pombas "Asa-branca".
"Quem se atreve falar mal de defunto...?" - Odílio atinou consigo. Se o capeta morresse haviam de dizer que em termos de maldade, ele foi um bom.
Dentre outras coisas lembrava comovido o tal, Campos Sales condecorara Santos Dumont com uma medalha de ouro cunhada aqui. Homenagem ao feito de 1901, quando o "Brasileiro Voador" contornou a Torre Eiffel, em Paris, com seu dirigível Nº 6. Trazia inscrita uma paráfrase do Poeta português: "Por céus nunca dante navegados.". Quase repetia seus célebres discursos...
  CHARGE ALUSIVA AO PERÍODO DE GOVERNO DO PRESIDENTE CAMPOS SALES.

"- A política financeira tem sido e continuará a ser a principal preocupação do meu governo..." - Dissera ele em mensagem ao Congresso Nacional. - (...)entre nós parece fora de dúvida, observadas as diversas fases por que temos passado, que o nível da taxa cambial desceu muito além do que poderia ser justificado pela Balança internacional ou pelas agitações da política interna..."
    LARGO DAS ESTAÇÃO DAS BARCAS EM ITAPEMA/SP.

Por um instante Odílio cochilou hipnotizado pelo matraquear discursivo, com o deslizar monótono da Maria-Fumaça cruzando Itapema... Despertou um tanto sem graça. Ecoavam os brados das aclamações sob o saguão da Estação das Barcas. Mas, no fim concluiu: Desse naipe quem ouve um, ouviu todos!
DEPOIS DE DEIXAR A ILHA DE SANTO AMARO, O CORPO DE CAMPOS SALES SEGUIU PARA A ESTAÇÃO S. P. RAILWAY [SANTOS] E DALI PARA A CAPITAL PAULISTA.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

LOVE NO RECANTO DO BELEZA











Esta aconteceu por coincidência no Dia dos Namorados, durante minha peregrinação pelos botecos da cidade.
Pedalava meu "camêlo" na esquina da Av. São João com a Santos Dumont, quando dobrou o vento trazendo aquele cheiro de churrasquinho no ar. Meu paladar de gourmet das coisas demais exóticas do cardápio de bar se pôs atiçado. Quem pode negar a iguaria que é um ovo colorido imerso no sal e pimenta? Aquela crocância do torresmo frito em banha. Um picante afarinhado sarapatel. O revigorante caldo de mocotó nas noitadas do Itapema... Fala sério, dar um "tapa na marvada" e uma "lôra suada", degustar tais petiscos faz parte do ritual!
ESQUINA DA AV. SÃO JOÃO COM A SANTOS DUMONT - ITAPEMA/SP.

Acomodei-me... Logo reparei naquela beldade na mesa ao lado. Detalhe: mais solitária  do que sozinha, eu deduzi. Essa não oferecia risco algum (lembro-me duma Dona, cujo marido mantinha a ordem da birosca munido de uma "peixeira" à cintura).
"Ah, mulheres...! Esta invenção divina, de alma diabólica."
Seguro de mim convidei-a para uns goles a dois. A princípio trocamos olhadelas furtivas por trás das garrafas. Ela sorriu e me embriaguei daquele batom lilás, exótico drink. Reginaldo Rossi fazia fundo musical ao nosso romance... Ademais, quanto importa a trilha sonora nessas ocasiões? Disse então qualquer gracejo sobre seus encantos, já que o local era o 'Recanto do Beleza'.
SEO BELEZA, FIGURAÇA DO ITAPEMA/SP.

Depois de ter revelado ser Escritor, ela quis se entregar nos meus braços considerando que eu fosse uma celebridade. Entretanto, a minha falsa modéstia me fez argumentar que não passavam de humildes rabiscos no jornal '1ª HORA' (cuja Redação ficava ali próximo, na Rua 11 de Maio). Nossos lábios já se buscavam...
Eis que surge o Dono da bodega, um senhor negro muito distinto, indicando-me uma faixa às minhas costas com os seguintes dizeres:

sexta-feira, 18 de maio de 2012

OLINDA SALES: UM SOPRO DE ARTE EM ITAPEMA

OLINDA SALES E SUAS ESCULTURAS [2009].

A história de Olinda Sales de Abreu seria igual à de muitas outras mulheres, se ela não fosse uma Artista nata e altamente intuitiva. Contrariando os comuns destinos mitigados à existência simplória.
Diz matéria do jornal 'A TRIBUNA', de Santos em Junho de 1984:





"(...)Aquele que não se reveste de uma dose de Fé em sua obra e em si próprio, acaba renunciando ao mundo da Arte verdadeira. E a Arte de Olinda representa a sua própria vida: amarga, angustiada, mas autêntica." - A título de resumo sobre a grandeza desta Escultora, então radicada em Itapema/SP, na Ilha de Santo Amaro, desde 1968.
Sua obra é espontânea. As figuras são carregadas de emoção, com pedintes, mulheres desamparadas, crianças chorando, negros acorrentados, que refletem de maneira comovente os sofrimentos humanos.
"O semblante sofrido de seu povo transposto no barro." - Comenta a jornalista Soraya Liguori.
NEGROS ESCRAVOS E MÃES SOFRIDAS POVOAM A OBRA DE OLINDA SALES.

As dificuldades e agruras do mundo sempre fizeram parte da vida da Escultora Olinda Sales.
Aos 10 anos, saiu descalça e com poucas roupas, de Taiaçu (cidade do interior de São Paulo) acompanhada da mãe e cinco irmãos, vindo em busca de um destino melhor na capital paulista.
Ainda naquele momento precário a menina Olinda sequer imaginava ser escultora. Entretanto apesar de todas os reveses, sempre sonhou em ser alguém, mas devido sua condição social só era conhecida como a menina pobre da escola. Embora se achasse muito criativa.
Contudo, nem mesmo Olinda Sales sabia precisar como a Escultura surgiu em sua vida, pois definia seu trabalho como, "um dom natural".
OLINDA SALES ESCULPE UMA DE SUAS OBRAS EM PRAÇA PÚBLICA.

"(...)o barro tem muito a ver com a minha vida. Nasci e morei até os 10 anos em casa de barro (taipa de pilão). Adoro o barro. Ele é minha terapia. E através dele faço figuras sempre miseráveis, pobres. com traços dos negros..." - Explicava ela em entrevista ao jornal santista 'A TRIBUNA'.
Numa tentativa de sondar a origem de tão singular talento, perguntavam os repórteres a resposta:
"Quando cheguei na cidade grande fui trabalhar como pajem e utilizava massas de modelar para criar casinhas e bonecas. Não tenho estudo, só estudei a primeira série do primário, duas vezes, aí desisti de vez..." - Dizia ela ao jornal '1ª HORA', de Guarujá.
Em 1969, viúva e com três filhos para sustentar Olinda desperta sua emblemática vocação artística: esculpir, moldar no barro a alma das pessoas sofridas feito ela. Quando decide participar da 28ª Exposição Coletiva, promovida pela Associação Paulista de Belas Artes, no mês de Agosto daquele ano, ao criar sua primeira obra em argila. Sendo agraciada com Menção Honrosa pela escultura, "Cristo coroado com arame farpado".
Nunca havia trabalhado artisticamente o barro, mas sentia ser capaz de lidar com ele, achando que seria o material ideal para se expressar. Com a argila nas mãos percebeu que tinha facilidade em criar figuras humanas e moldá-las rapidamente.
  OLINDA SALES AO RECEBER MENÇÃO HONROSA PELA ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE BELAS ARTES [1969].
DIPLOMA OFERECIDO PELA APBA À OLINDA SALES.

Olinda Sales enfrentava muitas limitações para poder realizar seu trabalho artístico. Sem meios para sustentar a sua própria Arte, continuou a trabalhar como empregada doméstica.
"Trabalhava como cozinheira e lembro que muitos patrões brigavam comigo porque eu fazia esculturas. Eu acabava fazendo escondido." - Ela relata noutra entrevista.
No ano de 1975 frequenta o atelier de escultura do Profº Emanuel Leon, na cidade de Santos, sem contudo se prender à normas técnicas, mas desenvolvendo a sua tendência natural. Mantém contato com outros artistas enriquecendo-lhe o processo criativo. Diz ela numa entrevista ao jornal 'A TRIBUNA', de 7 de Junho de 1977:
"Sempre tive idéias maravilhosas em relação à Arte, mas poucas condições para exercê-la."
O CONTATO COM OUTROS ARTISTAS DEU VISIBILIDADE A OBRA DE OLINDA SALES.

Não há exagero ao avaliar que a Arte de Olinda Sales é influenciada também pela sua própria condição social. Autodidata, sempre se inspirou no sofrimento humano para criar suas esculturas, retratando a simplicidade, a fé, a opressão, crenças e a penúria do povo.

"Minha avó era escrava e o sofrimento mexe comigo. Lembro-me da minha infância." - Ela conta ao repórter do jornal santista 'EXPRESSO POPULAR', na edição do dia 3/12/2004.
Esculpe anjos, santos (especialmente São Francisco), Cristos, escravos, mães, vendedores, malandros, trabalhadores, retirantes, crianças de rua, mulheres por parir, negros no açoite, este é o universo representado na Arte da Escultora.

SUA OBRA É UM QUESTIONAMENTO DAS DESIGULDADES SOCIAIS.
A CRUEZA DA VIDA NAS ESCULTURAS DE OLINDA SALES.

"(...)Como um grito de revolta que se desprende da garganta, a obra de Olinda é marcada por uma profunda pobreza. Suas peças mostram corpos angustiados, retorcidos, mulheres abandonadas, crianças deformadas e indefesas no colo das mães. Mas todas as obras possuem a força e a beleza dentro da harmonia e do equilíbrio, dentro do próprio conceito de Arte, do belo, sobretudo da reflexão sobre o meio social e sua desigualdade no Brasil." - Festeja a crítica publicada no jornal 'A TRIBUNA', em 9 de Junho de 1984.
Dor, pobreza, escravidão, marcam as esculturas de Olinda Sales, as quais a Artista manuseava apenas com as mãos e a ajuda de uma espátula, transformando a argila em obras valiosas que denotam através da sensibilidade da criação, os sentimentos mais profundos do Ser Humano.
 OUTRA DAS INÚMERAS MÃES CARENTES DE OLINDA SALES [2009].

Seu estilo rústico, expressionista impregnado nas suas esculturas, seja pela carga emocional aparente das figuras, quanto pelo exagero das formas e feições, a Escultora consegue representar em suas peças a Cultura brasileira, as mazelas sociais e também a condição histórica do negro no Brasil. Sua elaboração criativa remonta ao ceramismo popular de Mestre Vitalino, retratando quadros da vida cotidiana, porém Olinda Sales reflete em suas cenas as agruras do cotidiano da gente desfavorecida.
ATRAVÉS DE SUAS ESCULTURAS, OLINDA SALES NOS FAZ ENXERGAR O ABSURDO DA ESCRAVIDÃO HUMANA.

Seus depoimentos trazem o sopro intuitivo do seu processo de criação.
"Eu visualizo. Não adianta as pessoas me encomendarem, só sei esculpir o que visualizo. Se alguém me pede Mãe e na minha cabeça está um Escravo, só consigo esculpir o Escravo." - Explica Olinda numa entrevista.
"As minhas peças são todas diferentes. Nunca uma fica igual à outra. Tenho uma tendência muito grande em fazer mães negras." - Geralmente retratando o sofrimento e a raça negra, conforme a Artista mesmo enfatizava.
"Para mim, a inspiração vem nos sonhos e só faço Arte quando estou sozinha." - Comentou noutra ocasião.
Arte que Olinda encarou com alguma predestinação, nos fazer enxergar a verdadeira face duma sociedade desigual.
"Um sonho que me acompanha há muito tempo. Sonho com uma rua de barro... (...)Vejo mães, mendigos. crianças chorando e implorando minha ajuda. É tudo tão real."

A primeira Exposição individual de Olinda Sales aconteceu em 1976, na Galeria de Arte do Caiçara Clube, na cidade de Santos/SP, sendo muito bem recebida pela crítica.
Logo após, mostra na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), 30 obras e mais 13 peças que compõe um presépio.
Participou ainda de Mostras Coletivas, no Ilha Porchat Clube (São Vicente/SP) e Aliança Francesa, em 1977. Cades e Associação dos Engenheiros no ano seguinte, 1978.
Em Guarujá/SP a primeira Exposição individual ocorreu em 1984, na Galeria 'Wega Nery', do então Centro Municipal de Cultura (Teatro Procópio Ferreira), com apresentação de 23 esculturas.
Outro local que recebeu Exposição de Olinda Sales, na cidade foi o Espaço Cultural 'Alberto Marques', da Câmara Municipal de Guarujá.
Coisa que demais fascinava a Artista era esculpir ao vivo, para uma grande platéia. Fato que ocorreu na I Semana da Consciência Negra, em Ourinhos/SP, no ano de 1990. Num encontro com outro ceramista, "Zé do Pote". Trocaram idéias referentes a Arte de manusear argila, falaram sobre as suas experiências de vida e até produziram juntos.
 ENCONTRO DE "ZÉ DO POTE" E OLINDA SALES A MANUSEAR O BARRO [1990].

Além de Salões, a Escultora expunha comumente suas obras na Orla da Praia da Enseada (Guarujá/SP) e Ferias de Artesanato: Feira Hippie do Boqueirão (Santos-Fevereiro de 1977). Feira de Antiguidades da Praça da República, na capital paulista (1984). Rua das Artes, na rua Santo Amaro (Guarujá).
Seus trabalhos despertavam admiração, atraindo compradores e colecionadores de Arte no Brasil e do Exterior.
Recebeu o Troféu 'Ruth de Souza', pela Casa de Cultura da Mulher Negra, por trabalho destacado na área cultural e profissional.
No mês de Novembro, entre os dias 17 e 21 de 2005 foi convidada pelo Minc - Ministério da Cultura para expôr sua obra, em comemoração à Semana da Consciência Negra, no Senado Federal brasileiro, onde apresentou 15 peças. Oportunidade na qual pode outra vez modelar em público.
"JÁ GANHEI VÁRIOS PRÊMIOS, MAS MEU MAIOR ORGULHO É VER MEU TRABALHO RECONHECIDO." - OLINDA SALES.
OLINDA SALES SE REPRESENTA NUMA AUTO-ESCULTURA.
ENQUANTO VIVEU OLINDA SALES DEDICOU-SE À SUA ARTE.

Olinda Sales produziu cerca de 800 obras exclusivas, distribuídas pelo mundo afora. As esculturas eram feitas em casa, moldadas, esculpidas e queimadas num forno instalado no quintal de sua residência em Vicente de Carvalho (Itapema/SP) ou depois pintadas como toque final às peças.
OLINDA SALES IMPREGNA SUAS ESCULTURAS DE EMOÇÃO.
A QUEIMA DAS PEÇAS NUM FORNO, NO QUINTAL DA CASA DE OLINDA SALES (BAIRRO JARDIM PROGRESSO - ITAPEMA/SP).

Embora já idosa, não deixou morrer a alma de cada criatura escravizada e sofrida no barro frio, que ganhava forma e cor nas mãos desta Artista que nunca esquecera o seu passado. Continuou criando até pouco antes de sua morte em 2011.

Apesar da crueza da realidade, de toda carga dramática, de corpos deformados, contorcidos, angustiados que povoam a obra de Olinda Sales de Abreu, esta pretendia de alguma forma tocar o coração das pessoas.
"(...)Eu quero que minha Arte seja uma mensagem de amor..."