__________ Itapema, suas histórias... __________

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

ÁUREOS BANANAIS ITAPEMENSES

PLANTIO DA "MUSA PARADISÍACA" EM BANANAL DA REGIÃO.

Sobre terras agricultáveis na Ilha de Santo Amaro, por muito tempo ITAPEMA/SP esteve vocacionada como zona rural. Sítios, fazendas, engenhos. O início da cultura de banana em larga escala, no final do século XIX, marca uma segunda transição de lavoura em terras itapemenses.
Originária da Ásia, a banana é mencionada em escritas datadas por volta de 600 a.C. Os árabes a levaram para a África em cerca de 700 d.C., onde os portugueses a encontraram no ano de 1402. Logo desenvolveram seu cultivo nas Ilhas Canárias e a partir de 1516, a espalharam pelo Caribe e América do Sul. As primeiras mudas trazidas ao Brasil vieram justamente das Ilhas Canárias e Serra Leoa. O mais antigo relato do plantio de banana na região da Baixada Paulista (Cubatão), data de 1837.
O império da banana viveu seus dias de glórias entre os anos de 1905 e 1950. Sustentou por décadas economicamente cidades do Litoral Paulista. Já em 1910, a produção bananeira ocupa o posto de segundo produto mais embarcado no Porto santista.
Negócio aqui implementado pela Família Backheuser e Proost de Souza (aparentados entre si), num extenso bananal abrangendo o 'Sítio Paicará'. Compreendia de um lado as margens estuarinas, limites da "Rua das Torres" (Av. Itatinga) - atual Guilherme Guinle, Rua Tambaú, beirando o Rio Acaraú até a divisa do Bairro Monteiro da Cruz. Cercada por estar numa Ilha com áreas facilmente transbordáveis (mangues, gamboas, ligadas ao Canal de Bertioga e de outro o estuário do Porto) a várzea do Pae Cará fora menos aproveitada até que os agricultores bananeiros realizaram o seu enxugo em parte, a drenar as terras por meio de grandes e fundas valas, seja represando em lagoas ou talhões para escoamento.
Dentre seus herdeiros estava Guilherme Backheuser (que concede nome à rua do Distrito), cuja família empreendeu vários negócios no Itapema.
PLANTAÇÃO DE BANANAS NO LITORAL PAULISTA [INÍCIO SÉCULO XX].
PROPRIETÁRIO DE BANANAL DA REGIÃO [INÍCIO SÉCULO XX].

A Ilha de Santo Amaro, especialmente Itapema e sítios de Guarujá (Cachoeira), somados às cidades do entorno, além do Vale do Ribeira produziam milhões de cachos de bananas por ano. Desde o princípio é instalado um Píer Bananeiro para escoamento da safra (ao lado da "enseadinha" do Forte de Itapema), sob administração e instalações da Wilson Sons. A banana figura entre os três produtos mais exportados pelo Porto santense.
PÍER BANANEIRO EM ITAPEMA/SP PARA TRANSBORDO DA SAFRA [1929].
INSTALAÇÕES DO PÍER BANANEIRO - ITAPEMA/SP.
PÍER BANANEIRO MARGEM ESQUERDA ITAPEMENSE/SP.

Foto em cartão-postal (década de 1920), do pesquisador Allen Morrison registra a Estação Bento Pedro (próxima ao Sítio Boa Esperança), onde se nota o denso bananal ladeando a E.F. ITAPEMA-Gjá (SP-2066). No final desta década são assentados outros trilhos para um ramal de aproximadamente 2,5 Km até o Sítio Cachoeira, destinado a vagões de carga visando o escoamento da colheita bananeira.
BANANAL LADEANDO A E.F. ITAPEMA/GJÁ [SP-2066]. 

Pelos anos de 1940, a leste da ferrovia existiam inúmeras linhas de "deucaville" (decaville). Ou seja, ramais com troleys puxados por animais, vagões, locomotivas pequenas, muitas vezes movidas à gasolina e com bitola de 60 cm para transporte de cachos de bananas, principalmente na região de ITAPEMA/SP. Ainda existentes em meados dos anos de 1960, conforme mapa do Distrito (pertencente ao acervo de Wanderley Duck) assinala as várias linhas de decaville na extensão dos bananais itapemenses.
MAPA ASSINALA RAMAIS DE DECAVILLE PELOS BANANAIS EM ITAPEMA/SP.

Também constava ser importante bananicultor, Adriano Dias dos Santos, português, proprietário do Sítio Boa Esperança. Margeando a Estrada de Ferro ITAPEMA-Gjá (SP-2066), hoje via Santos Dumont, limítrofe ao Rio Acaraú, entre a Rua São Salvador e o Rio da Pouca Saúde. Adriano Dias promoveu várias obras de benemerência, a exemplo da "Cidade da Criança" construída em Praia Grande/SP. 
À época, as plantações do Sítio Pae Cará, BanÁurea, Sítio Boa Esperança, Morrinhos e Vila Zilda, em Itapema, mais Sítio Cachoeira, Santo Antonio e Santa Rosa, constituíam as áreas de bananicultura da Ilha santoamarense.
TROLEY CARREGADO DE BANANAS PUXADO POR TRAÇÃO ANIMAL EM PLANTAÇÃO DA REGIÃO.

De considerável influência no ramo, a Famíla Conde possuía extensa propriedade em ITAPEMA/SP. A Condessa Áurea Gonzalez Conde, foi uma das maiores latifundiárias de bananicultura do Litoral Sul Paulista. Não se sabe ao certo estimar o número de hectares que pertenciam a Dona Áurea Conde nestas bandas, mas segundo depoimentos de moradores, sobretudo Itapema (Vte. Carvalho), suas terras (BanÁurea) iam da divisa do Canal da Bertioga até onde hoje está localizada a Cachoeirinha.
Espanhola, nasceu em 1889. Ficou conhecida como a "Rainha da Banana", pioneira na exportação da fruta do Brasil. Pela pujança que alcançou neste segmento agrícola, manteve em seu patrimônio dois navios para o transporte exclusivo de sua produção ao mercado sul-americano. Conforme anotações do Blog "Memória Santista". Entre diversas ações, liderou a criação da Cooperativa Central  dos Bananicultores do Estado de São Paulo, que se tornou a mais alta expressão do gênero, respondendo por 60% da exportação brasileira de banana. Na década de 1940, era considerada a maior exportadora da fruta do país.
A propriedade rural, a cargo de familiares, ficava em ITAPEMA/SP entretanto, a Nobre da Banana - Áurea Gonzalez Conde, residiu num palacete próximo à Praça da Independência, na cidade de Santos/SP.
BANÁUREA - TERRAS DE ÁUREA GONZALES CONDE [ITAPEMA/SP].

Perto do Rio Acaraú (divisa "fundão do Pae-Cará") ficava a porteira principal do bananal da Áurea Conde. Noutros tempos, este rio itapemense era navegável. Servia ao transporte em "chatas" da colheita bananeira, tanto da BanÁurea e outros sítios das imediações. Bananas soltas dos cachos eram atiradas aos garotos nadando nas margens, pelos condutores dos barcos.
Comentários anotados do facebook 'Saudoso Itapema', revivem antigos momentos da BanÁurea:
"(...)passar pelas propriedades da Dona Áurea Conde não era mole não, precisava de autorização senão o tiro de sal comia solto..." - Medida tomada contra os mais larápios. De fato para atravessar as terras da BanÁurea, se fazia necessário apresentação de uma autorização escrita dos administradores.
Conta o Vicente Ferreira Neto (garoto itapemense da época), "lembro que a gente ia buscar leite lá, mas as bananas a gente entrava e carregava. Era uma caravana de mulheres e crianças. A gente passava pelo Rio Acaraú, que na volta tava cheio e com água pelo pescoço, passavam as mulheres com bacias na cabeça. Nunca houve tiro. A gente ainda deixava cobertos os cachos de bananas para ir buscar quando estivessem maduros... Em 1949 ninguém comprava banana no Itapema." 
TRANSPORTE DE BANANAS NO RIO ACARAÚ PRODUZIDAS PELA BANÁUREA [ITAPEMA/SP].

O cultivo de bananas era difícil devido a escassez de mão-de-obra, pois o trabalho nos bananais consistia numa atividade de grande esforço físico, que somado às condições climáticas (temperatura elevada, chuvas), animais peçonhentos e as doenças transmitidas por mosquitos afugentavam mesmo os trabalhadores mais resistentes. Dada a dificuldade do terreno procedia-se para melhor aproveitamento da gleba, dragagem das áreas alagadiças do bananal.
Feita a colheita nas plantações itapemenses realizava-se o transporte da produção bananeira, que requeria meios exclusivos. Através das linhas férreas (decaville) ou carroções, os cachos eram levados ao Píer Bananeiro às margens de ITAPEMA/SP para transbordo em barcaças.
"(...)As cargas de bananas chegavam até os navios pelo lagamar estuarino, levadas em grandes "chatas". Estas encostavam nos cascos das embarcações, onde eram içados os cachos de bananas, em cabos puxados por pequenos guindastes..." - Tinham como principais destinos à Argentina, Uruguai e Alemanha.
EMBARQUE DA PRODUÇÃO BANANEIRA DA REGIÃO [AO FUNDO ITAPEMA/SP] - PORTO SANTENSE.
EMBARQUE DA PRODUÇÃO DE BANANAS DA REGIÃO [AO FUNDO ITAPEMA/SP] - PORTO SANTISTA.
CHATÕES DE BANANAS PARA TRANSBORDO DA PRODUÇÃO BANANEIRA DA REGIÃO - PORTO SANTENSE.

Em seu período áureo, no Mercado Municipal santista, uma das cenas mais comuns era o intenso movimento dos vendedores de banana, notadamente pequenos produtores da Baixada Paulista (Cubatão, Itapema, Bertioga), no entorno da Bacia do Mercado, repleta de barcos carregados de cachos verdes. Atendendo o consumo interno das cidades e capitais brasileiras.
ANTIGA CATRÁIA MOVIDA A REMO CARREGADA DE BANANAS - MARGEM ITAPEMENSE.

No início dos anos de 1950, uma situação gravíssima acontece e os agricultores correram o risco de verem suas frutas apodrecerem nos bananais, posto que a Argentina não expedia permissões para importação do produto. A Associação Rural, numa atitude desesperada, enviou telegrama ao Presidente da República Brasileira:
"A Associação Rural do Litoral Paulista vem representar a V. Excia. no sentido de ser urgentemente solucionada a angustiosa situação da lavoura de banana devido a interrupção do fornecimento de licenças de importação por parte da República Argentina, seu principal centro consumidor." - Jornal 'A Tribuna' (16/02/1950) - Site Novo Milênio.
Contudo, bem ao estilo "Banana is my business", a Família Áurea Conde até meados da década de 1960 exportava bananas para o continente europeu e Estados Unidos.
Juntamente com as Famílias Backheuser, Vasquez e Alonso dominaram o cultivo de banana no Litoral do Estado de São Paulo.
TRABALHADORES EM BANANAL DA REGIÃO.

Em 1961, para construção da Rodovia Piaçaguera (SP-55/248 Leste), parte significativa  de terras da BanÁurea foram desapropriadas pelo Governo do Estado. E após a morte de Dona Áurea Conde (25 de Julho de 1966), os herdeiros liderados por seu filho, o médico Dr. Luciano Castro Gonzales iniciaram a venda da propriedade, devido ao declínio das plantações de banana da região.
No ano de 1972, os herdeiros decidem lotear uma grande extensão de terras que margeiam a Rodovia Piaçaguera (Domênico Rangoni), onde instalou-se o Bairro Vila Áurea.
A queda das exportações da fruta neste ínterim atingiu gravemente os produtores locais. De modo similar ocorre com a propriedade dos Backheuser, o bananal abandonado sofre invasão de populares, após expropriação estadual torna-se o Bairro Pae Cará.
O mesmo se dá noutras propriedades, o Sítio Boa Esperança embora aproveitasse a terra para outros cultivos, na década de 1970 tem a gleba loteada.
FAMÍLIA DE TRABALHADORES EM BANANAL DA REGIÃO.

Descreve assim, o poeta Lydio Martis Corrêa a pujança dos bananais, num seu poema dedicado ao ITAPEMA/SP:
      "(...)Terra da Vargem Grande, a cobiçada
       Dos grandes plantadores de verdade,
       Da "musa sapien tum", a qualidade
       Que aqui logo encontrou sua morada.

       E os bananais as áreas dominaram
       De tal forma que, até mesmo, obstaram
       Plantações de quaisquer outros produtos.

       Desdobraram-se, aqui, esses eventos
       Que deram a este solo os elementos
       De ser inigualado nesses frutos..."

Na metade do século XX, parte da chamada zona rural da Ilha de Santo Amaro persiste exclusivamente com a produção de bananas, exportada para Argentina, Uruguai, Europa ou enviada para São Paulo.
A colheita de banana na Ilha (em 1949), pelo Censo Agrícola de 1950 registrou a produção de 951.109 cachos. Dados do IBGE, de 1957, dão conta que o comércio rendeu 12 milhões de cruzeiros naquele ano.
Em 1967 estávamos entre os principais municípios do Litoral Paulista, exportadores da "Musa paradisíaca". Nossa produção sempre foi de grande relevância para o mercado internacional.
Yes, my people... Nós tínhamos bananas pra dar e vender!

Um comentário:

  1. visitei a fazenda de itanhaém, vi um lote chamado primeiro milhão! (de pés) e terminava na aldeia dos indíos.
    tb conheci o esteves de guarujá e o rodrigues, da raiz da serra.
    banana era vendida em dolar em buenos aires e o dinheiro vinha em moeda e ia para o paralelo, onde faturava mais uns 20/30%.
    em Itariri os novitas chegaram tb a um milhão de pés!

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