__________ Itapema, suas histórias... __________

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

ÁUREOS BANANAIS ITAPEMENSES

PLANTIO DA "MUSA PARADISÍACA" EM BANANAL DA REGIÃO.

Sobre terras agricultáveis na Ilha de Santo Amaro, por muito tempo ITAPEMA/SP esteve vocacionada como zona rural. Sítios, fazendas, engenhos. O início do cultivo de banana em larga escala, no final do século XIX, marca uma segunda transição de lavoura em terras itapemenses.
O império da banana viveu seus dias de glórias entre os anos de 1905 e 1950. Sustentou por décadas economicamente a região do Litoral Paulista.
Negócio aqui implementado pela Família Backheuser e Proost de Souza (aparentados entre si), num extenso bananal abrangendo o 'Sítio Paicará'. Compreendia de um lado as margens estuarinas, limites da "Rua das Torres" (Av. Itatinga) - atual Guilherme Guinle, Rua Tambaú, beirando o Rio Acaraú até a divisa do Bairro Monteiro da Cruz.
PLANTAÇÃO DE BANANAS NO LITORAL PAULISTA [INÍCIO SÉCULO XX].
PROPRIETÁRIO DE BANANAL DA REGIÃO [INÍCIO SÉCULO XX].

A Ilha de Santo Amaro, especialmente Itapema e Cachoeirinha, cidades do entorno, além do Vale do Ribeira produziam milhões de cachos de bananas por ano. Desde o princípio é instalado um Píer Bananeiro para escoamento da safra (ao lado da "enseadinha" do Forte de Itapema), sob administração e instalações da Wilson Sons. A banana era o 3º produto mais exportado pelo Porto santense.
PÍER BANANEIRO EM ITAPEMA/SP PARA TRANSBORDO DA SAFRA [1929].
INSTALAÇÕES DO PÍER BANANEIRO - ITAPEMA/SP.
PÍER BANANEIRO MARGEM ESQUERDA ITAPEMENSE/SP.

Foto em cartão-postal (década de 1920), do pesquisador Allen Morrison registra a Estação Bento Pedro (próxima à Conceiçãozinha), onde se nota o denso bananal ladeando a E.F. ITAPEMA/Gjá [SP~2066]. No final desta década são assentados outros trilhos para um ramal de aproximadamente 2,5 Km até o Sítio Cachoeira, destinado a vagões de carga visando o escoamento da produção bananeira.
BANANAL LADEANDO A E.F. ITAPEMA/GJÁ [SP-2066]. 

Pelos anos de 1940, a leste da ferrovia existiam inúmeras linhas de "deucaville" (decaville). Ou seja, ramais com troleys puxados por animais, vagões, locomotivas pequenas, muitas vezes movidas à gasolina e com bitola de 60 cm para transporte de cachos de bananas, principalmente na região de ITAPEMA/SP. Ainda existentes em meados dos anos de 1960, conforme mapa do Distrito (pertencente ao acervo de Wanderley Duck) assinala as várias linhas de decaville na extensão dos bananais itapemenses.
MAPA ASSINALA RAMAIS DE DECAVILLE PELOS BANANAIS EM ITAPEMA/SP.
TROLEY CARREGADO DE BANANAS PUXADO POR TRAÇÃO ANIMAL EM PLANTAÇÃO DA REGIÃO.

A Condessa Áurea Conde, foi uma das maiores latifundiárias de bananicultura do Litoral Sul Paulista. Não se sabe ao certo estimar o número de hectares que pertenciam a Dona Áurea Gonzales Conde, mas segundo depoimentos de moradores, sobretudo Vicente de Carvalho (Itapema) suas terras (BanÁurea) iam da divisa do Canal da Bertioga até onde hoje está localizada a Vila Edna.
BANÁUREA - TERRAS DE ÁUREA GONZALES CONDE [ITAPEMA/SP].

Perto do Rio Acaraú (no "fundão do Pae-Cará") ficava a porteira principal do bananal da Áurea Conde.
Comentários anotados do facebook 'Saudoso Itapema', revivem antigos momentos da BanÁurea:
"(...)passar pelas propriedades da Dona Áurea Conde não era mole não, precisava de autorização senão o tiro de sal comia solto..." - Medida tomada contra os mais ladinos. De fato para atravessar as terras da BanÁurea, se fazia necessário apresentação de uma autorização escrita dos administradores.
Conta o Vicente Ferreira Neto (garoto itapemense da época), "lembro que a gente ia buscar leite lá, mas as bananas a gente entrava e carregava. Era uma caravana de mulheres e crianças. A gente passava pelo Rio Acaraú, que na volta tava cheio e com água pelo pescoço, passavam as mulheres com bacias na cabeça. Nunca houve tiro. A gente ainda deixava cobertos os cachos de bananas para ir buscar quando estivessem maduros... Em 1949 ninguém comprava banana no Itapema." 
TRANSPORTE DE BANANAS NO RIO ACARAÚ PRODUZIDAS PELA BANÁUREA [ITAPEMA/SP].

O cultivo de bananas era difícil devido a escassez de mão-de-obra, pois o trabalho nos bananais consistia numa atividade de grande esforço físico, que somado às condições climáticas (temperatura elevada, chuvas), animais peçonhentos e as doenças transmitidas por mosquitos afugentavam mesmo os trabalhadores mais resistentes. Dada a dificuldade do terreno procedia-se para melhor aproveitamento da gleba, dragagem das áreas alagadiças do bananal.
EMBARQUE DA PRODUÇÃO BANANEIRA DA REGIÃO [AO FUNDO ITAPEMA/SP] - PORTO SANTENSE.
EMBARQUE DA PRODUÇÃO DE BANANAS DA REGIÃO [AO FUNDO ITAPEMA/SP] - PORTO SANTISTA.
CHATÕES DE BANANAS PARA TRANSBORDO DA PRODUÇÃO BANANEIRA DA REGIÃO - PORTO SANTENSE.

No início dos anos de 1950, uma situação gravíssima acontece e os agricultores correram o risco de verem suas frutas apodrecerem nos bananais, posto que a Argentina não expedia permissões para importação do produto. A Associação Rural, numa atitude desesperada, enviou telegrama ao Presidente da República Brasileira:
"A Associação Rural do Litoral Paulista vem representar a V. Excia. no sentido de ser urgentemente solucionada a angustiosa situação da lavoura de banana devido a interrupção do fornecimento de licenças de importação por parte da República Argentina, seu principal centro consumidor." - Jornal 'A Tribuna' (16/02/1950).
Contudo, bem ao estilo "Banana is my business", a Família Áurea Conde até meados da década de 1960 exportava bananas para o continente europeu e Estados Unidos.
Juntamente com as Famílias Backheuser, Vasquez e Alonso dominavam o cultivo de banana no Litoral do Estado de São Paulo.
TRABALHADORES EM BANANAL DA REGIÃO.

Em 1961, para construção da Rodovia Piaçaguera (SP-55/248 Leste), parte significativa  de terras da BanÁurea foram desapropriadas pelo Governo do Estado. E após a morte de Dona Áurea Conde (25 de Julho de 1966), os herdeiros liderados por seu filho, o médico Dr. Luciano Castro Gonzales iniciaram a venda da propriedade, devido ao declínio das plantações de banana da região.
No ano de 1972, os herdeiros decidem lotear uma grande extensão de terras que margeiam a Rodovia Piaçaguera (Domênico Rangoni), onde instalou o Bairro Vila Áurea.
FAMÍLIA DE TRABALHADORES EM BANANAL DA REGIÃO.

Descreve assim, o poeta Lydio Martis Corrêa a pujança dos bananais, num seu poema dedicado ao ITAPEMA/SP:
      "(...)Terra da Vargem Grande, a cobiçada
       Dos grandes plantadores de verdade,
       Da "musa sapien tum", a qualidade
       Que aqui logo encontrou sua morada.

       E os bananais as áreas dominaram
       De tal forma que, até mesmo, obstaram
       Plantações de quaisquer outros produtos.

       Desdobraram-se, aqui, esses eventos
       Que deram a este solo os elementos
       De ser inigualado nesses frutos..."

Na metade do século XX, parte da chamada zona rural da Ilha de Santo Amaro persiste exclusivamente com a produção de bananas, exportada para Argentina, Uruguai, Europa ou enviada para São Paulo.
A colheita de banana na Ilha (em 1949), pelo Censo Agrícola de 1950 registrou a produção de 951.109 cachos. Dados do IBGE, de 1957, dão conta que o comércio rendeu 12 milhões de cruzeiros naquele ano.
Em 1967 estávamos entre os principais municípios do Litoral Paulista, exportadores da "Musa paradisíaca". Nossa produção sempre foi de grande relevância para o mercado internacional.
Yes, my people... Nós tínhamos bananas pra dar e vender!

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