__________ Itapema, suas histórias... __________

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Bairro PRAINHA - às margens de ITAPEMA

A MARGEM ESTUARINA DO BAIRRO PRAINHA - ITAPEMA/SP.

Muito antigamente devido a conformação estuarina da margem itapemense, com ocorrência de sedimentação intermediária arenosa, a área do Bairro Prainha consistia da Restinga remanescente, trechos de mangue, bancos de areia, perlongando o canal do estuário. Faixa estreita sempre invadida pela maré-alta, composta ora dum substrato argiloso escuro adjacente ao mangue e dessa movimentação marinha da margem a marulhar, forma pequenas enseadas arenosas. Areia grossa, mais clara, contendo muitas casquinhas fragmentadas de crustáceos.
Na restinga viviam saguis, teiús, saruês (marsupial brasileiro), juritis, tiês, tizius, dentre outras espécies recorrentes. Pelo manguezal durante as trovoadas os caranguejos (uçás) apareciam desentocados da lama. Os moradores apanhavam também marisco ("unha-de-velho") numa formação de pedras à beira d'água nas imediações da "Torre Grande". Quando as águas do estuário (guarapissumã, para os indígenas) ainda eram limpas pescava-se siris, camarões com tarrafa, robalo, garoupa. Nadava-se acompanhado dos botos tucuxis.
TARDE REMANSOSA ÀS MARGENS DO BAIRRO PRAINHA - ITAPEMA/SP.

Desde 1910, tem ali instalada a Subestação Elétrica "Torre Grande", próximo a Torre metálica de Alta Tensão (margem Bairro Prainha), com 80 metros acima do nível d'água, atingindo a fiação, vinda da Usina de Itatinga (CDS) por Itapema/SP, o outro lado do Porto de Santos. Aliás, esta monumental Torre emblemática bem que merecia uma iluminação decorativa a enfeitar a paisagem itapemense.
Neste terreno a Subestação dispõe de um conjunto de casas (chalés em madeira) para os funcionários da Codesp e demais finalidades. O local abriga também um Posto da Guarda Portuária, atento à margem esquerda.
TORRE METÁLICA DE ALTA-TENSÃO "TORRE GRANDE" - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP] 2011.
SUBESTAÇÃO ELÉTRICA "TORRE GRANDE" - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP] 2011.
A "TORRE GRANDE" NA MARGEM DO BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
CONJUNTO DE CHALÉS EM MADEIRA DA SUBESTAÇÃO ELÉTRICA "TORRE GRANDE" - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP] 2011.

Como dá a entender anotado do Censo da cidade, promovido pela Prefeitura de Santos, em 1913, definindo Itapema Zona Rural (3º Distrito), a região estuarina do Bairro Prainha era chamada "Pary". Designação de origem Tupi: nome dado à armadilha feita pelos indígenas, com varas amaradas de cipó, formando tapume (cerca móvel), utilizada em pesca. Ou ainda, canal para apanhar peixes.
Paralela à "Prainha" passava a antiga Estrada dos Carroceiros. Vinha da Estação das Barcas, seguia a "Torre Grande", entre a mata, o mangue e gamboas a caminho do Sítio Conceiçãozinha. Havendo marés cheias tinha-se dificuldades para trafalgar. Utilizada por sitiantes das proximidades no transporte em carroças de suas mercadorias: porcos, galinhas, marrecos, patos, mandioca, abóbora, inhame, batata-doce, chuchu, banana, goiaba, laranja, vasos de xaxim, coisas a serem vendidas na Feirinha do "Pontão das barcas".
VISTA DO ESTUÁRIO A PARTIR DAS MARGENS DA "PRAINHA" - ITAPEMA/SP.
   
Conforme populares o Bairro Prainha começou com 8 famílias, por volta dos anos de 1940. No final da Rua Santa Terezinha, junto à Subestação Elétrica e da Rua Quarta, surgiram as primeiras habitações. Naturais da terra querendo morada, migrantes do nordeste brasileiro, gente do litoral paulista. A princípio alguns subsistiam da pescaria, apanha de caranguejos, coleta da Restinga (frutos, coquinhos, palmito, xaxim, bambu), consumindo mais a venda do pescado. Outros, empregados como mão-de-obra nas atividades portuárias, construção civil, carpintaria naval (estaleiros itapemenses), lavadeiras, empregadas domésticas.
Até os anos de 1950 possuía poucas casas, um recanto aprazível para se morar embora não regulamentado. Certa característica é que estes primeiros ocupantes, tendo os filhos formado famílias amealharam por extensão um lote. Cuja ocupação espontânea pari passu estabeleceria assim seus limites: Desde a Rua Quarta, seguindo pela Rua Beira-Mar (depois da Subestação) ainda à direita Rua Tiradentes e adiante limítrofe ao Bairro Pae Cará, até as terras do Sítio Conceiçãozinha (Terminal de Contêineres). Da outra banda estendendo-se ao longo da margem itapemense no estuário.
DETALHE DE FOTOGRAFIA AÉREA ONDE PODE-SE DISTINGUIR A ÁREA DO BAIRRO PRAINHA - ITAPEMA/SP [DÉCADA DE 1960].

Uma figura marcante do Bairro Prainha (nos idos de 1960) era o Antonio Siri, residente num casébre da Rua Quarta, bem perto da maré. À época o morador itapemense, numa daquelas eleições, como "Voto de Protesto" lançou a candidatura do Ganso do Siri. Esse tal Antonio, era o dono do conhecido Ganso, um antigo pescador das margens estuarinas de Itapema/SP, fazedor de boas tarrafas. A ave anatídea seguia o dito cujo Siri feito um guarda-costas, bicho de estimação. Atendia pelo carinhoso chamamento de "Ditinho". Nas redondezas onde morava o Ganso vivia dando carreira em meio mundo pelas ruas. Quem passasse na Rua Quarta, "Ditinho" corria atrás e bicava-lhes as pernas. Mas, o Ganso "Ditinho" gostava mesmo era dar bicadas naqueles que mexiam com seu dono Siri. Quando o pescador voltava da Estação das Barcas, depois de vender as dúzias de siris que apanhara nas margens da "Prainha", e perambular trôpego pelo Distrito. Antes de chegar em casa, Antonio Siri costumava parar nos bares do Itapema, querendo tomar umas cachaças. O pescador arriava na porta do bar de tanto virar o copo. E ninguém tocava o homem dali, que o Ganso brabo não deixava.

[Imagem ao lado - o Ganso Vereador, morador da "Prainha".] 

Assim tornou-se muito falado e seu prestígio obteve as honras do reconhecimento popular. O Ganso "Ditinho" era companheiro fiel, combativo, o "calcanhar de Aquiles" de muita gente, não tinha medo de fazer alarde... A campanha eleitoral do Ganso Vereador ganhou as ruas do Distrito itapemense. Foram distribuídos panfletos. Propaganda na Imprensa local e muros pintados apareceram. O panfleto servia como cédula eleitoral podendo ser colocado oculto na urna.
A verdade é que no dia da Eleição Municipal, o Ganso do Siri foi bastante votado deixando boquiabertos os fiscais da Zona Eleitoral 310. A notícia se espalhou na boca do povo. Disseram ter sido eleito para o cargo e assumiria o mandato na Câmara Municipal... Aconteceu que misteriosamente assassinaram o Ganso do Siri. Descobriram-no já morto, aparentemente envenenado. Sem pescoço quebrado ou ferimento à bala de garruncha. Siri, o dono não entendia aquela pura maldade e derramou lágrimas embriagadas. Os restos mortais do Ganso Vereador então sepultados em solo da "Prainha". Contudo, correligionários (antes destrinchada a ave) mandaram empalhar o Ganso "Ditinho", que ficou exposto um tempo no Bar do Anastácio. Angariou o Ganso do Siri espaço simbólico no imaginário da população. Eleito candidato honorário do povo.
A FAMÍLIA APOLINÁRIO RESIDENTE À RUA BEIRA-MAR - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].

Era uma Sexta-feira à tarde, do dia 19 de Fevereiro de 1965, quando a gente assustada da "Prainha", mais alguns pescadores ali à beira, ouviram um barulhão de metal amassando. Então notaram aquele acidente espetacular, um jato da Força Aérea Brasileira (FAB), do tipo 'Gloster Meteor', num vôo desgovernado prestes a cair, daí explodiu antes de tocar as águas do estuário (às 15:30 h.), cuja explosão foi ouvida nas imediações do Porto. Este avião integrava uma esquadrilha em formação, mas após manobras de acrobacias voando à baixa altura chocou com a rede de Alta-Tensão (44 mil volts), que cruza o canal portuário (à 80 metros) no topo da "Torre Grande", às margens da "Prainha". No impacto com os fios viu-se intensas fagulhas elétricas e a aeronave perdeu parte da fuselagem, os cabos arrebentaram, dali a pouco um estrondo, nisso o avião desintegrou-se. Seu piloto teve morte instantânea. Aquele momento da explosão do jato da FAB navegavam pelo estuário algumas embarcações carregadas de bananas, que foram atingidas por destroços. Um de seus tripulantes sofreu ferimentos, sendo coincidentemente morador do Distrito. A Base Aérea (em Itapema/SP), que servia como apoio aos exercícios da Esquadrilha, acorreu ao socorro mobilizando oficiais e soldados. O desastre aéreo suscitou a presença de curiosos ao longo da "Prainha".
ACIDENTE AÉREO COM JATO 'GLOSTER METEOR' AO ATINGIR OS CABOS ELÉTRICOS DA "TORRE GRANDE" - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
RESGATE DO JATO 'GLOSTER METEOR' NAS ÁGUAS DO ESTUÁRIO, QUANDO DA COLISÃO COM OS CABOS DE ALTA-TENSÃO DA "TORRE GRANDE" EM 1965 - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
      
Nos verões de outrora muitos moradores banhavam-se ali, a garotada com bóias improvisadas usando câmeras de pneus de caminhão. Aquele típico banho de maré pra se refrescar aos fins de semana. Nesse ambiente rústico estuarino,  porém prazeroso. Tanto mais diferente dentre as experiências marinhas. Vários garotos, mais as meninas aprenderam a nadar nessas águas remansosas da "Prainha". Esse seu marulhar fica mais intenso (a formar marolas) quando da passagem de embarcações pelo Canal do Porto (navios, rebocadores, lanchas).
GAROTOS SURFAM NAS MAROLAS DA "PRAINHA" - ITAPEMA SP.
BANHO DE MARÉ PRA SE REFRESCAR - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].

A partir da década de 1970, sofre maior ocupação ao alheamento da Administração Pública, constituída por residentes de modestas condições sócio-econômicas. A precariedade do assentamento naquelas terras, sem arruamento adequado, drenagem das chuvas, saneamento básico, iluminação pública, energia elétrica e água improvisadas, o desarranjo dos casébres de tábuas, tantos deles insalubres, entreveros decorrentes do convívio em comunidade, criminalidade, somadas as dificuldades cotidianas de sobrevivência, fizeram com que o Bairro Prainha se tornasse um preocupante foco de tensão social.
O aspecto atravancado do Bairro não privilegiou os acessos, trânsito de pessoas e veículos. Sem propriamente arruamento ordenado, mas sim ruelas, vielas, mais uns tantos becos. Porém anotamos as exceções enquanto logradouro: Rua Nova, Rua Tiradentes, Travessa Tiradentes, Rua da Paz, Beco da Paz, Rua das Figueiras, Rua Beira-Mar, Rua Particular Jurema, Rua Quarta, Rua Projetada 100, Rua Santa Terezinha (segmento), Rua Mato Grosso (segmento), Rua Particular Mato Grosso, Rua Guilherme Guinle (segmento). Constam da ocupação adjacente: Rua Liberdade-Itapema, Rua da Liberdade, Rua Botafogo, Rua do Beco, Rua H2 e Rua do Estradão.  
Por esses tempos teve construído embaixo da "Torre Grande" (final da Rua Mato Grosso), um píer de embarque destinado aos trabalhadores da Companhia Docas (CDS) e Estivadores. Acesso via lancha para o outro lado do Porto. Este píer foi também uma plataforma concorrida pelos travessos do Distrito itapemense em dias de calor. Atrevendo-se em saltos mirabolantes a mergulhar nas águas estuarinas da "Prainha". Os jovens competiam entre si, quem conseguia atravessar a nado o canal do Porto (220 metros) e chegar primeiro ao tocar as docas.
ANTIGO PÍER DE ATRACAÇÃO PARA OS TRABALHADORES DA COMPANHIA DOCAS E ESTIVADORES, EMBAIXO DA "TORRE GRANDE" - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP] 2010.

8 de Janeiro de 1974, o navio a motor 'AIS GIORGIUS', de bandeira grega,  encontrava-se atracado no armazém XXXII, do Porto santista, subitamente ocorreu um sinistro, deflagrado por incidente com fogo numa composição ferroviária ao lado do cais que provocou o incêndio da embarcação cargueira. Propagou-se rápido, eram 22:30 h., as chamas atingiam 50 metros de altura, o povo da "Prainha" correu pra ver, outros itapemenses atraídos pela notícia de boca em boca, sobretudo o clarão e a pirotecnia naquela noite. Catraieiros atuaram como salva-vidas durante o incêndio sob o risco da fumaça tóxica, detonações pela combustão. Aqueles que faziam o plantão noturno acudiram resgatando tripulantes, estivadores e conferentes que se atiravam às águas do estuário para fugir do fogo. Ainda assim, matou um tripulante da Turma de Salvamento. Para evitar um desastre maior, pois as chamas ameaçavam demais navios e instalações portuárias, as Autoridades resolveram desatracá-lo para a margem esquerda (Itapema/SP) utilizando rebocadores, em meio a explosões e gigantescas labaredas que se sucediam, vindo o 'AIS GIORGIUS' a encalhar nas proximidades da "Prainha" defronte a "Torre Grande". Queimou durante 70 horas seguidas, ficando semi-submerso e de sua estrutura apenas a proa estava intacta. Por duas décadas figurou na paisagem do Bairro Prainha, também prestando-se as estripulias de moleques audazes em altos mergulhos. Até mesmo Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso) nadou ali, morador da Base Aérea no Distrito itapemense, noutros tempos.
O NAVIO 'AIS GIORGIUS' REBOCADO PARA AS MARGENS DO BAIRRO PRAINHA (NOTA-SE OS CASÉBRES NAS PROXIMIDADES) EM ITAPEMA [1974] - LITORAL PAULISTA.

Em meados dessa década, a ampliação do Porto na margem itapemense implantando-se Terminais Marítimos de exportação e importação, o advento do Ramal Ferroviário de Carga Conceiçãozinha-Perequê ao cruzar o incipiente Bairro Prainha deixaria seu rastro. Devido a desatenção da Autoridade Portuária permitiu a invasão desordenada de barracos na faixa de marinha do estuário. Consequentemente, terrenos à beira da linha férrea, trechos de Restinga degradaram-se dando espaço à moradias irregulares junto aos trilhos da Ferrovia de Carga, espremidas ao lado de Terminais Marítimos em Itapema/SP.
OS TRILHOS DA FERROVIA DE CARGA RUMO AO BAIRRO PRAINHA - ITAPEMA/SP [DÉCADA DE 1970].

O trem de carga corta o cotidiano do Bairro Prainha com riscos de descarrilamento dos vagões, derrame de produtos, ou mais comumente atropelamento de transeuntes, tendo ocorrido casos de mutilação de membros humanos, acidentes fatais com pessoas e animais domésticos (cães e gatos). Meninos e jovens, como seu brinquedo, inadvertidamente pegam carona ao verem passar a composição ferroviária.
A LOCOMOTIVA DO RAMAL FERROVIÁRIO DE CARGA CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ ADENTRA O BAIRRO PRAINHA - 2018 [ITAPEMA/SP].
MORADIAS AO LONGO DOS TRILHOS DA FERROVIA DE CARGA - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
O TREM DE CARGA ATRAVESSA O COTIDIANO DO BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].

Nos anos de 1980, este processo apropriatório intensifica-se avançando por outros terrenos da "Prainha", além da margem estuarina. Ao descontrole tanto da municipalidade quanto da Companhia Portuária. Os barracos, muitos de madeiras remendadas, senão madeirites, aglomerados sobre o chão de mangue, acima d'água em palafitas, sob o risco eminente de incêndio coletivo. Vivendo sérios transtornos do deficiente fornecimento de água tratada, energia elétrica e despejo do esgoto in natura. Sujeitos ao ataque de insetos (mosquitos, moscas), infestação de pragas (baratas, ratos), daí desenvolver problemas de saúde.
AMANHECER NA MARGEM OCUPADA DO BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].

Sendo seus ocupantes, homens e mulheres trabalhadores, gente fugindo do aluguel, porque constituíram família precocemente, há quem avisado por conhecidos garantiu um lote, filhos casados de famílias já erradicadas no bairro, outros pra manterem-se fixados até a chegada de um projeto habitacional, de qualquer forma premidos pela carência de moradia. Oriundos doutras regiões da Ilha de Santo Amaro, e do próprio Distrito itapemense ou cidades vizinhas, quanto ainda de alguns vindos de Estados do nordeste por indicação de parentes ali estabelecidos. Embora tal fluxo migratório nordestino, não seja como nos anos de 1950 e 60.
CAMINHANDO PELA RUA QUARTA - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP] ANOS DE 1980.

A morosa ação do Poder Público dado o entrave burocrático de regularização continuou a marginalizar o Bairro Prainha, tanto mais acirrar as dificuldades sociais das pessoas. É às custas de reivindicações dos populares que mobilizam a Prefeitura a estabelecer a zeladoria e programas sociais. Para recolha do lixo acumulado nas caçambas ou esquinas, desobstrução da drenagem das chuvas, postes de luz no perímetro da comunidade adentrando onde possível, ligação regular de água encanada e também luz elétrica.
MORADORES INSTALAM MANILHA DE DRENAGEM - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].

Pela década de 1990, mostra-se evidente o alastramento dos barracos ao longo de toda à "Prainha". Determinadas condições econômicas, o déficit habitacional dos programas governamentais, empurram essa massa de pessoas a ocupar áreas como o Bairro Prainha. Perigosamente assentados ao lado da Ferrovia de Carga, aglomerados à beira d'água, sobre a antiga Restinga contíguos ante grandiosos Terminais Marítimos.
Mediante a caótica ocupação espontânea que a muito se avizinhava, a solução seria a segregação dos limites do Ramal Ferroviário Conceiçãozinha-Perequê, realocação das moradias nos possíveis terrenos do bairro consolidado, transferência das famílias inscritas em projetos habitacionais do Distrito, sobremodo à espera dos programas de desenvolvimento dos governos eleitos. Quadro qual tendeu a piorar a revelia pelo transcorrer de 4 décadas. 
BARRACOS SOBRE PALAFITAS À BEIRA DO ESTUÁRIO - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
ALASTRAMENTO DA OCUPAÇÃO DESORDENADA NO BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].

Isso em virtude da curta distância, fácil mobilidade entre ITAPEMA/SP com as cidades do entorno (ônibus, barcas, catráias), servindo como fixação na busca pela empregabilidade no porto, indústria, hotelaria, comércio, mão-de-obra terceirizada ou prestadores de serviços.
Até meados da segunda década de 2000, já somavam cerca de 3 mil famílias instaladas no Bairro Prainha. Da área formal 1. 250 moradias estão inclusas na regularização fundiária.
O BAIRRO PRAINHA VISTO DE CIMA - 2014 [ITAPEMA/SP].
VISTA DO CANAL DO PORTO ÀS MARGENS DO BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].

Salvo as condições econômicas remediadas de uns tantos moradores, certas famílias encontram maior dificuldade. Inúmeras chefiadas por mães criando a prole. Adolescentes e crianças compõem um contingente considerável entre seus residentes. Cotidianamente a brincar na maré, nos trilhos da ferrovia, nas vielas ou redondezas, enquanto os pais trabalham fora. Alguns adultos, seguidos de jovens de baixa renda, vivendo sob circunstâncias de vulnerabilidade social acabam por encaminharem-se no mundo do crime.
OCUPAÇÃO DESORDENADA DA MARGEM DO BAIRRO PRAINHA E O CRESCIMENTO DO PORTO ITAPEMENSE - LITORAL PAULISTA.
A MARGEM OCUPADA DO BAIRRO PRAINHA - ITAPEMA/SP [2010].
BANHO DE MARÉ COM ESTILO - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
MENINOS BRINCAM ENTRE OS TRILHOS DO RAMAL FERROVIÁRIO CONCEIÇÃOZINHA-PEREQUÊ - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
O CONTRASTE DO ASPECTO DA OCUPAÇÃO NO BAIRRO PRAINHA E A EXUBERÃNCIA DO TRANSATLÂNTICO [ITAPEMA/SP].
AÇÃO POLICIAL NUMA RUA DO BAIRRO PRAINHA - ITAPEMA/SP [2012]. 

Diversas ações de cidadania, bem como projetos sociais acontecem no Bairro às margens de Itapema/SP, promovidos pelas lideranças comunitárias, entidades, secretarias de governo, associações, ongs, colaborando em minimizar as carências, sobretudo orientar e conscientizar os moradores. Contudo, requer de fato um programa estrutural que venha a sanar as demandas básicas da população. Onde o Bairro Prainha, cenário de documentários, figura como exemplo duma recorrente realidade das periferias brasileiras.
PROJETO HORTA COMUNITÁRIA - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
CUIDADOS NO CANTEIRO DA HORTA COMUNITÁRIA - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
 
SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE PROMOVE COLETA DE RESÍDUOS SÓLIDOS RECICLÁVEIS - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].
A QUADRA ESPORTIVA UTILIZADA COMO APOIO EM MOMENTOS DE TRIBULAÇÃO DA COMUNIDADE - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP].

Essa crescente densidade de moradores do bairro, no transcurso do tempo, obrigou que a municipalidade implanta-se equipamentos e serviços públicos. Ainda na década de 1990, tem instalado um Posto de Saúde, mais tarde remodelado em UBS (Unidade Básica de Saúde). Já na metade dos anos 2000, recebe uma Quadra Poliesportiva coberta, proporcionando um equipamento esportivo e de lazer à comunidade. Em Agosto de 2014, começou a entrega de 76 unidades do conjunto habitacional para o Bairro Prainha, no final da Rua Guilherme Guinle. Os prédios erguidos modelo triplex, ou seja comportando 3 moradias, cada unidade possui dois quartos, cozinha, sala, banheiro e área de serviço. Dotado de sistema de esgoto, rede de água encanada, energia elétrica, tubulação de drenagem das águas pluviais.
UBS - PRAINHA (ANTIGO POSTO DE SAÚDE) ITAPEMA/SP.
PRÉDIOS DO CONJUNTO HABITACIONAL NO BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP] 2014.

Convém destacar a capacidade de resiliência da comunidade, por exemplo, em criar seu próprio lazer ainda que as condições sejam mínimas. Haja visto, o surgimento de vários times de futebol amador (campo, quadra, rua) disputando campeonatos e torneios. Dentre eles: Meninos de Elite, Unidos do Beco, Mato Grosso F. C. (fundado em 04/Março/2004).
O VERDE ALTA-TENSÃO DA "PRAINHA".

No quesito criatividade o Bairro Prainha, com raiz sambista, trouxe para a passarela itapemense em antigos carnavais (2013), o G.R.E.S. 'MENINOS DE ELITE'.
Dentro do Movimento Hip-Hop ou Funk da Baixada Paulista tem revelado talentosos rappers e MCs. Cantando alto a mensagem poética, rítmica e melódica das "quebradas", sucesso reconhecido noutras tantas comunidades.
Charles Oliveira da Silva (Charles do Bronx), nascido em 1989, foi criado na "Prainha", onde a família residiu. Lutador profissional de Artes Marciais Mistas (MMA-brasileiro), sendo o atual Campeão (Peso-leve) do Ultimate Fighting Championship (UFC). É o maior finalizador da história da organização degladiadora com 14, no total. Noite de sábado, 15 de Maio de 2021 (Houston/Texas - USA), Charles do Bronx ao passar pela guarda do adversário o seu cruzado de esquerda abalou Michael "Iron" Chandler, nisso na sequência aplicou uma cotovelada, mais outro cruzado de esquerda para nocautear o oponente norte-americano, no 2º round, aos 0:19 s. e se sagrou Campeão Mundial UFC 262, vindo a ser o segundo brasileiro a conquistar tal feito. Sem negar as origens, consciente da importância de dar oportunidades, "do Bronx" apoia o Projeto #AFavelaVenceu.
CHARLES DO BRONX (MMA) - CAMPEÃO MUNDIAL UFC 262/2021 - BAIRRO PRAINHA [ITAPEMA/SP]. 
 
Sua parte consolidada, embora o loteamento desarranjado, mas anterior aos trilhos do Ramal Ferroviário de Carga Conceiçãozinha-Perequê, possibilitou o abairramento. Pavimentação de algumas ruas, melhor iluminação pública, fornecimento legalizado de água e luz elétrica, endereço identificável para recebimento de correspondências.
Com o passar dos anos, a melhoria dessas habitações reconstruídas em alvenaria deu aos moradores algum conforto. Além do uso residencial, os imóveis também tem utilidade mista (residência-comércio ou residência-religioso). Desenvolvendo um modesto, porém significativo comércio, tanto como prestadores de serviços. Estão entre estas atividades: mini-mercado, mercearia, quitanda, vendinha, bomboniere, lanchonete, pizzaria, bazar, papelaria, lojinha de roupa, salão de beleza, barbeiro, bicicletaria, ferro-velho, adega, bar, loja de conveniências, manicure, doceira, boleira, quituteira, eletricista, pedreiro, pintor, enfim.

Assim o almejado pedaço de chão, a casa própria, inseridos cotidianamente às mazelas sociais, ensejo de recorrentes operações policiais, manchetes negativas em sites jornalísticos, a estigmatizar sua criminalidade, sendo ali um ambiente suscetível à má índole, coisa que não é a tônica dos lares do Bairro Prainha. Cujo olhar destituído de preconceito identificará cidadãos cumpridores de seus deveres.
Tal como assinala a urbanista Moriel Fernanda Moraes, a consolidação do Bairro às margens de Itapema/SP, tem por parâmetro o direito constitucional à moradia e a inversão da lógica do valor da terra, principais justificativas para o desenvolvimento da área.
E parafraseando a cantiga popular, deixe de ser nosso Bairro pobre "de maré de si".

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