__________ Itapema, suas histórias... __________

domingo, 18 de julho de 2010

ESCOLA 'PROFº WALTER SCHEP(P)IS'

AO FUNDO A ESCOLA 'PROFº WALTER SCHEPPIS', COM SUA ARQUITETURA CARACTERÍSTICA E A FAMOSA BANDA MARCIAL 'WS' (FINS DOS ANOS 90).

Dentre as escolas atuais do município certamente a unidade estadual 'Profº Walter Schepis', fundada em 1963 (a princípio chamava-se Colégio Estadual de "Paicará"), é a que possui arquitetura diferenciada. Seu projeto arquitetônico forma dois losangos equidistantes, lembrando a Bandeira Nacional. E entre estes compõem-se as salas de aula, sustentadas por grossas pilastras. O qual dava leveza à estrutura e visão de estar o prédio suspenso no terreno. Lamentavelmente alguns detalhes com as subsequentes reformas deformaram-lhe o desenho, as cores originais e o material utilizado na alvenaria.
AUTORIDADES INSPECIONAM A OBRA DO FUTURO G.E. 'WALTER SCHEP(P)IS' - ITAPEMA/SP.
DIA DE AULA NA ESCOLA 'WALTER SCHEPIS' - BAIRRO PAE CARÁ - ITAPEMA/SP.
CLASSE DO COLÉGIO ESTADUAL DE "PAICARÁ" (WALTER SCHEPIS) - DÉCADA DE 1960 [ITAPEMA/SP].
CAPA ANTIGA CADERNETA DE NOTAS DO COLÉGIO ESTADUAL DE "PAICARÁ' (WALTER SCHEPIS) ITAPEMA/SP.
CLASSE ESCOLA 'WALTER SCHEPIS' - BAIRRO PAE CARÁ - ITAPEMA/SP.

Intrigava-me a parede lateral do pátio interno sob o edifício, incrustada de cilindros vítreos, antes inexistente. Assim como subsistem na memória as inóspitas paredes verdes das classes. O quadro negro repleto de lições, garantujas, supostos namorados inscritos, contornados por corações de giz. As velhas carteiras compostas com assento dobrável e escrivaninha, o assoalho em tiras de madeira. Grandes janelas em vidro donde se avistava o casario do bairro, a caixa d'água do Tecon, lá adiante, pairar sobre os telhados feito uma espaçonave. O badalar do sino que chamava à aula, depois uma gritante sirene impositiva, que eu podia ouvir da casa de minha mãe.
AS GRANDES JANELAS ANTES EXISTENTES - ESCOLA 'WALTER SCHEPIS' - BAIRRO PAE CARÁ - ITAPEMA/SP [ANOS DE 1960].
ALUNOS DURANTE AULA DE EDUCAÇÃO FÍSICA - ESCOLA PROFº WALTER SCHEPIS - ITAPEMA/SP [1970].

A imagem mais recorrente dos meus dias no colégio são as andorinhas volteando sua arquitetura, ladeada pelas Livistonas Chinensis (palmeira introduzida na vegetação brasileira, com palmas em forma de leque e cachos de pequenos frutos verdes).
Como esquecer os pavores secretos com a assustadora "Loira do Banheiro" (uma moça de branco e algodão no nariz, que aparecia flutuando), lenda urbana oculta nos boxes do sanitário. Até que uma dor-de-barriga desgraçada encaminhasse uma solução praquele tamanho cagaço. As alternativas eram, ficar literalmente com o fiofó na mão ou enfrentar a tal assombração. Adivinha...
Não sem menos receio tive atendimento dentário no Consultório de Dentista (programa do Governo do Estado de São Paulo), que havia dentro da Escola.
"A LOIRA DO BANHEIRO" DOMINAVA AS MANCHETES DOS JORNAIS POPULARES À ÉPOCA, E O "DIZ QUE ME DIZ" DAS ESCOLAS PÚBLICAS.

Chegava-se ao G.E. 'Walter Schepis' pelo "Caminho Suave" de paralelepípedos da Rua Oliveira nº 857, reivindicação das professoras cansadas de caminhar descalças para não estragar os seus sapatos na lama em dias de chuva.
Schepis! (aliás, a grafia que consta dos seus documentos é com um "p" só) Para mim sempre fora um sobrenome instigante, assim como a figura do Mestre naquele quadro na parede do colégio. [Foto à esquerda] Alguns alunos tinham a impressão de que ao andarem de uma sala à outra, a pintura do Mestre virava os olhos na direção deles.
Informações extraídas do site 'Banda Walter Scheppis' revelam um pouco da biografia do Profº  Walter Schepis. Nasceu no dia 08/09/1915, filho de Cyro Schepis e Julia Palinkas Schepis. Em 1922 é matriculado na Escola Paroquial de São Vicente, onde aprenderia as primeiras letras. Com a morte do pai em 1930 transferiu-se com a família para a cidade de Rio Claro, onde no ano de 1932 ingressou na Escola Normal Puríssimo Coração de Maria. Voltando a Santos, na metade da década de 30, em 1936 formou-se como Professor abraçando a seguir o Magistério, sendo designado para o Grupo Escolar, na cidade de Bastos. Durante os oito anos em que exerceu o cargo de Professor, percorreu diversas cidades do Estado de São Paulo. No ano de 1945 foi nomeado Diretor-substituto do G.E. de Itariri. Em 12 de Janeiro de 1947 é efetivado no cargo de Diretor de Grupo Escolar passando a servir no G.E. 'Padre Leonardo Nunes', em Itanhaém. No ano de 1949 transferência para o G.E. 'Francisco Manoel' e em 1950 assume o G.E. 'Cel. Amâncio Bueno', de Jaguariúna. Em 1951 matricula-se no Curso de Administradores Escolares, mantido pelo Instituto de Educação 'Caetano de Campos', na capital paulista. No ano de 1954 retorna ao Magistério ocupando o cargo de Diretor do Grupo Escolar 'Azevedo Junior', de Santos. Em 1956 transfere-se para o G.E. 'Clóvis Bevilaqua' e dois anos após (1958) para o G.E. 'Cezar Martinez', ambos de São Paulo. 13 de Março de 1959 é nomeado Inspetor Escolar, lotado na Delegacia de Ensino de Itapetininga, com sede na cidade de Itapeva. No ano de 1960 passa a integrar a D.E. de Santos. Em 09/Junho/1962 falece vitimado por um Derrame Cerebral. Durante os vinte e cinco anos de existência que dedicou ao Magistério, o Profº Walter Schepis qualificou-se em diversos cursos organizados pelo Departamento de Educação e entidades afins.
A VEGETAÇÃO REMANESCENTE DA ESCOLA 'WALTER SCHEPIS' - BAIRRO PAE CARÁ [ITAPEMA/SP].

Devido ao aumento de matrículas no Ensino Médio, através do Decreto Estadual Nº 51.334, de 29 de Janeiro de 1969, são instituídos novos Ginásios Estaduais de grau médio, dentre eles o G.E. 'Profº Walter Schepis' (outrora Colégio Estadual de "Paicará"). Nos nossos dias a escola promove o ensino de 2000 alunos, distribuídos em 3 períodos (Ensino Fundamental e Médio).
PARTE LATERAL DA ESCOLA 'WALTER SCHEPIS', NA ANTIGA RUA OLIVEIRA - BAIRRO PAE CARÁ - ITAPEMA/SP.

Passados 47 anos de funcionamento, eu fui um dos 30 mil alunos que passaram por tuas salas de aula... Ali um segundo parto para as entranhas da vida. O palco onde deixei-me levar por pequenas ilusões, que acossam a alma de um garoto pobre. Os livros todos da biblioteca encapados num claro papel pardo. Algum tempo eu vivi entre eles, mantendo expediente de leitura e consulta, como guardião designado pelo Profº Coordenador do então Centro Cívico, denominação eufemística da Ditadura Militar rebatizando os extintos Grêmios Estudantis.
Participamos da Eleição Estudantil para Vereador-mirim. "Vote Certo - Vote Marcos Roberto!", era nosso slogan de campanha. Tendo entre as propostas a construção da Quadra Esportiva, inexistente à época.
URBAIN G. [1976] - "LOGO, ALÉM DO SABER ENCICLOPÉDICO APRENDI A LER AS NOTAS DE RODAPÉ DO MUNDO."

Quanta ironia (por volta da 6ª série) receber de presente da colega Bia um exemplar de 'O Ateneu', de Raul Pompéia, meu primeiro Romance sério. Logo, além do saber enciclopédico aprendi a ler estupefato as notas de rodapé do mundo.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

BOCAINA (Célula-mater itapemense)

VISTA AÉREA DA VILA DA BOCAINA -ITAPEMA/SP (ANOS 40), GRADATIVAMENTE EXPULSA DO SEU SÍTIO ORIGINAL DEFRONTE AO LARGO DE SANTA RITA.

No extremo noroeste da Ilha de Santo Amaro residiam os moradores da Vila da Bocaina, núcleo caiçara originador do Distrito de Vicente de Carvalho.
De origem túpica, "Bóc'aina", seundo João Mendes, abertura desbanatada, rasa - passagem rasa de um ponto a outro. Ficava defronte ao Largo de Santa Rita, e era antigo reduto de pescadores (mestiços de escravos, e portugueses com índios, que viviam da pesca, do plantio de roças, de onde tiravam o sustento), alguns remanescentes das primeiras ocupações, desde o século XVI. Ajuntaram-se tempos mais tarde imigrantes japoneses, portugueses e italianos, trabalhadores dos bananais vizinhos, do cais e carpinteiros navais.
"O riacho e a Bocaina, eu lembro ainda,
 Aquela boa gente, os pescadores,
 Homens distintos, nobres, só valores
 Desta história tão simples, porém linda..." - Nos remete Lydio Martins Corrêa, poeta itapemense, ao vilarejo de outrora.
A Bocaina compreendia as imediações do Forte de Itapema, onde havia um caminho e terminava pros lados do Saco da Embira, sendo a concentração maior de moradias.
As casas da Vila eram construídas em madeira (nossos tradicionais chalézinhos) e as ruas de terra batida (detalhe da foto à direita). Não havia água encanada e a mesma era obtida das bicas comunitárias. Os que não iam buscá-la no centro do Itapema, ali compravam a 200 réis cada uma lata d'água no bairro. A luz inicialmente era a base de lampião.
Por volta de 1910, a Vila da Bocaina contava com 400 casas e Escola para crianças do sexo feminino, atendia 32 alunas e tinha como Professora a Srª Maria dos Santos Lima.
 MARGEM DA VILA DA BOCAINA - ITAPEMA/SP - DÉCADA DE 40 (repare no Morro Magdatá ao fundo).

Conforme pesquisa, a única praça da Bocaina chamava-se 'Largo do Riacho'. Nela estavam localizados os estabelecimentos comerciais: quitanda, armazém de secos e molhados, açougue etc. A Av. Beira-mar ladeava a praça (local onde também ficava o Cine 15 de Abril), percorrendo paralela à Avenida da Liberdade. Constavam ainda como logradouros, a Rua Terceira e a R. Áurea.
Apesar da origem modesta o bairro abrigou os nascentes clubes náuticos da época. O Clube de Regatas Santista, fundado em 1893, com sede na Bocaina, somente deixou a localidade em 1943. Que conjuntamente com o Clube Internacional de Regatas promoviam competições a remo defronte ao lagamar.
 ESTALEIRO NAVAL NA BOCAINA, DO MESTRE JOSÉ DOS SANTOS CLAUDIO.

Ao longo da margem da Bocaina desenvolveram-se diversas atividades marítimas, uma delas foi a carpintaria naval, como o estaleiro do Sr. Vicente Lazzarini ou do Mestre José dos Santos Claudio.
Contudo, o vilarejo padecia com o descaso das autoridades. Os moradores não deixavam de reivindicar melhorias. Pois havia serviço de navegação entre a Bocaina e Bertioga subvencionado pelo Governo do Estado, desativado pela Empresa contratante, por falta de fiscalização do Estado. A fim de suprir a carência o Sr. Manuel Sobradinho de Almeida dispunha de uma lancha que conduzia passageiros pela quantia de 500 réis, contando com o apoio do moradores, os quais pediam regularização. Devido a concorrência desorganizada de outras embarcações , em casos urgentes, para condução do médico, o preço de uma lancha era de até 25$.




Numa Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 1914 (detalhe da imagem à esquerda), o jornal santista 'A Tribuna' (em matéria redescoberta pelo site histórico Novo Milênio) noticiou melhorias no "futuroso" bairro da Bocaina, depois de visita do Prefeito Sr. Carlos Luiz de Affonseca. Estavam previstos melhoramentos no fornecimento de água, iluminação, transporte. Havia também a necessidade de capinação, de reparos de pontilhões e construir outros. Lamentavelmente muitas das tais promessas não foram levadas a termo devido a desapropiação da Vila da Bocaina para instalação da Base de Aviação Naval.
FAMÍLIA DE MORADORES DO BAIRRO BOCAINA [ITAPEMA/SP]

A partir de 1923, os habitantes do bairro são deslocados pela Força Aérea para as cercanias e imediações da atual Av. Thiago Ferreira.
A capela existente dentro da Base Aérea seria a antiga Capela de Santa Cruz do Riacho, remanescente da Vila da Bocaina. É possível que esta denominação e/ou sua construção no vilarejo esteja liagada a uma remota referência ao Farol, já nominado Forte de Santa Cruz do Itapema. O que restou do riacho deságua débil no estuário, junto ao campo de futebol do E.C. Canto da Coruja.
NOTÍCIA PUBLICADA NO JORNAL 'A TRIBUNA' (01/09/1942).

Após muita resistência, e com insistente pressão psicológica dos orgãos públicos, inclusive com anúncios em jornal, a Vila da Bocaina foi extinta em meados da década de 50.
 BOCAINA TOTALMENTE DESAPROPRIADA EM MEADOS DOS ANOS 50, COM AS INSTALAÇÕES DA BASE AÉREA (ao fundo percebe-se o Morro de Itapema).

É desta forma que Lydio Martins Corrêa expressa a saudade do lugar sentida por um amigo, morador da Bocaina. Sentimento este de tantos outros:

"O que tu sentes, Celso, é nostalgia
 Da Bocaina saudosa, sempre calma,
 O tempo, ali parava e dava à Alma,
 Motivo de beleza e de alegria.

 Tudo acabou, jamais vais vê-la um dia
 Isso que tens na mente ardente e incalma
 Vai aos poucos, cedendo e alcança a palma
 Junto do teu lirismo e da poesia."

MARGEM DA BOCAINA - SÉCULO XXI (nos fundos do campo do E.C. Canto da Coruja) ITAPEMA-SP.

domingo, 4 de julho de 2010

JORGE FERREIRA, Senhor de Itapema






jorge Ferreira, português de Antre Douro e Minho [detalhe de vitral à esquerda], filho de Gaspar Ferreira, nasceu em 1504 ou antes. Cavalheiro Fidalgo da Casa Real de Portugal, aportou por estas bandas no começo da década de 1530 com a Esquadra Expedicionária de Martim Afonso, participando ativamente da ocupação de terras da nossa região. Consideravam-no um nobre distinto, "homem de sangue, coração e mãos limpas". Casou-se com Joana Ramalho (filha de João Ramalho e Bartira, neta de Tibiriçá, portanto Marabá (brasilíndia) e não propriamente índia.
Transcrições dos textos de Frei Gaspar da Madre de Deus revelam que em fins de 1532, teria voltado a Portugal e retornou com mulher e filhos europeus. Daí presumir-se ter duas famílias. Uma vez que, a mestiçagem era uma das táticas de dominação do povo brasilis, ligação por parentesco. Reclamo dos jesuítas que aqui chegaram ao depararem-se com o alto grau de promiscuidade entre lusitanos e indígenas.
Registra assim o historiador Frei Gaspar:
"Este sujeito era dos primeiros da terra e dos mais nobres povoadores de S. Vicente. Estava casado com Joana Ramalho, filha de João Ramalho e neta de Martim Affonso Tibiriça, príncipe dos Guaianases, senhores da terra; era muito amigo de Christovam Monteiro, homem nobre, que depois casou com uma filha sua, e também de José Adorno, fidalgo genovês, muito rico e poderoso que veio a ser marido de uma neta sua. Todos os respeitavam muito por suas qualidades e alianças. Martim Afonso de Souza, quando cá esteve, e depois seus Loco-tenentes, haviam concedido sesmarias de terras em Guaibe a João Ramalho, Jorge Ferreira, Christovam Monteiro, José Adorno e Antonio Macedo, filho de João Ramalho, e a outros irmãos seus, cunhados do dito Ferreira; de sorte que eles, seus parentes e amigos - possuíam quase toda a Ilha, e por isso fez - com a sua autoridade - que os principais habitantes de Guaibe obedecessem ao filho de Pero Lopes."
Esteve presente, conforme Ata, à primeira reunião na Casa do Conselho (Câmara Municipal), ocasião da fundação da Vila de São Vicente (10 de Maio de 1532).
Era também conhecido como "Senhor de Itapema", onde estabeleceu sesmaria com plantações e criações por volta de 1533, motivado certamente segundo menção feita por Pero Lopes de Souza (Donatário da Capitania de Santo Amaro) em seu Diário da expedição afonsina:
"(...)A todos nos pareceu tam bem esta terra que o Capitam I. determinou de a povoar, e deu a todos los homes terra para fazerem fazendas..." - Inserindo Itapema (pertencente a Capitania Santo-amarense) na economia agrícola quinhentista, tanto mais uma década depois pela proximidade com o Porto da Vila de Santos.
DETALHE MAPA REGIÃO DE ITAPEMA NA ILHA DE SANTO AMARO - LITORAL PAULISTA [JOÃO TEIXEIRA ALBERNAZ] 1631.

Jorge Ferreira também intentou uma Vila que seria sede da Capitania de Santo Amaro, do outro lado da Ilha, no ano de 1559. Onde o genovês José Adorno e sua mulher Catarina Monteiro fundaram a capela dedicada a Santo Amaro, título que passou a distinguir antes de 1557, a Ilha e a Capitania. O historiador Francisco Adolfo de Varnhagen documenta a localização da Vila:
"Nesta ilha, da banda de fora, e a umas três léguas ao norte de São Vicente onde se faz uma enseada fronteira à ilha do (Pombeva), se fundou a primeira povoação com o nome de Vila de Santo Amaro." - Todavia, o povoado não prosperou, a capela ruiu e as alfaias foram entregues a Cristovão Diniz, almoxarife, em 24 de Setembro de 1576.
Levantamentos feitos por Frei Gaspar e Frei Vicente do Salvador, confirmam que teria ele iniciado "uma promoção na Ilha de Santo Amaro, a qual se extinguiu antes de ter pelourinho" (Memórias, 281, História do Brasil).
Registra o historiador Frei Gaspar:
"O mencionado Jorge Ferreira e mais habitantes principais de Guaibe, intentarão criar nela uma Vila e, com efeito, derão princípio a uma povoação, e nesta edificarão uma Capela dedicada a Santo Amaro. O título da Capela não só se comunicou à povoação, mas também à Ilha, como fica dito, e o nome desta passou às 50 léguas de Pero Lopes, as quais entrarão a chamar-se Capitania de Santo Amaro, depois que erradamente supuserão incluída nelas a Ilha do mesmo nome." - Essa povoação ou Vila de Santo [Mauro] teve duração efêmera. Na obra de Frei Gaspar há ainda este apontamento:
"Em Santo Amaro e Guaibe nunca houve Vila alguma; até a povoação de Jorge Ferreira se extingiu antes de ter Pelourinho, e subir a maior predicamento, igual foi o sucesso da primeira capela do santo abade, a qual também se arruinou totalmente e por esta razão os almoxarifados da Fazenda Real guardaram as suas alfaias, segundo consta de um Livro da Provedoria da Fazenda Real de S. Paulo onde vem a carga, que dela se ao almoxarife Christovão Diniz, aos 24 de Setembro de 1576."
DETALHE MAPA ASSINALA A ILHA E VILA DE SANTO AMARO, BEM COMO O FORTE DE ITAPEMA - LITORAL PAULISTA [SÉCULO XVI].

Recebeu Carta de Sesmaria da Ilha, passada a seu favor pelo Capitão-mor da Capitania Santo-amarense, Antonio Rodrigues de Almeida, datada em 10 de Maio de 1566. Possuía muitas terras na Ilha, e segundo menciona ainda Frei Gaspar, "opinava conforme os empregos que tinha" tendo arrogado a causa de D. Isabel de Gambôa, posteriormente da Condessa D. Mariana [Pero] de Souza Guerra, instigando a célebre questão de terras entre a Condessa de Vimieiro e o Conde de Monsanto pelas Capitanias de São Vicente e Santo Amaro.
Ata do RIHGSP, XLIV, pg 224, registra possuir casas e terras agrícolas nos arredores da região, situadas para os lados de um ribeiro que corria entre os primeiros manguezais.
Foi em propriedade pertencente a ele que construiu-se o Forte Vera Cruz de Itapema.
FORTE VERA CRUZ DE ITAPEMA - ERGUIDO EM TERRAS DE JORGE FERREIRA [LITORAL PAULISTA] 1557.

Pelos seus préstimos seria nomeado Capitão-mor e Ouvidor da Capitania de Santo Amaro (1545 a 1556, com provisão da viúva de Pero Lopes de Souza, Isabel de Gamboa e nomeado por D. Duarte da Costa) e mais tarde Capitão-mor Locotenente, Governador da Capitania de São Vicente entre 1556 e 1558 pela  primeira vez, e de 1567 a 1572 uma segunda vez.
Contribuiu com atos administrativos de concessão de sesmarias para o progresso de São Paulo de Piratininga. Em questões políticas, como a que envolveu a Câmara de Santo André conduzia a seu gosto. Todavia, resguardava direitos. Quando a Casa Foral reclamou através de Requerimento pela demora da apuração do pleito de 08 de Janeiro de 1557, este "apressou-se em reconhecê-los, alimpando a pauta, apurando a eleição feita pelos homens bons".
MAPA DE JOÃO TEIXEIRA DE ALBERNAZ [SÉCULO XVII] ILUSTRA EXTENSÃO DA CAPITANIA DE SANTO AMARO - LITORAL PAULISTA.

Resistiu ao embate com Tupinambás no Litoral Paulista unido à Diogo Braga (vivente da terra), guarneceu a Ilha de Santo Amaro ao lado de Hans Staden, capturado depois pelos indígenas. Representante das autoridades portuguesas, em 1557 reconstruiu o Forte de São Filipe (rebatizado São Luís), ordenou a construção de uma fortificação definitiva (Forte São João) em Bertioga, localidade então pertencente à Capitania de Santo Amaro. E abriu o primeiro caminho ligando São Vicente à Itanhaém.
GRAVURA REPRESENTANDO AS LUTAS ENTRE TUPINAMBÁS E TUPINIQUINS ALIADOS DOS PORTUGUESES (DENTRE ELES, JORGE FERREIRA) NA REGIÃO DA CAPITANIA DE SANTO AMARO [SÉCULO XVI].
A ILHA DE SANTO AMARO E LOCALIDADES DO LITORAL PAULISTA COMO PALCO DE BATALHAS ENVOLVENDO TUPINIQUINS MAIS TUPINAMBÁS E COLONIZADORES LUSITANOS [HANS STADEN] SÉCULO XVI.

Consta ser pai do mameluco (de mesmo nome seu) canibalizado pelos Tupinambás, conforme relato de Hans Staden, prisioneiro por oito meses dos Tamoios, no ano de 1554, sobre a batalha ocorrida próximo de Boissucanga envolvendo Tupiniquins, Tupinambás e mamelucos do Litoral Paulista:
GRAVURA ESTAMPA A BATALHA DE BOISSUCANGA NA QUAL O FILHO DE JORGE FERREIRA FOI CAPTURADO PELOS TAMOIOS, NOS LIMITES DA CAPITANIA DE SANTO AMARO [HANS STADEN] SÉCULO XVI.

Vinham os guerreiros Tamoios, depois de pernoitar em São Sebastião (Maembipe), rumo à Buriquióca (Bertioga) quando deram com os Tupiniquins e mamelucos...  
"(...)Quiseram ainda assim [os Tupinambás] esconder-se com as suas canôas por detráz de um rochedo, para que os outros passassem sem os ver, mais foi debalde, viram-nos e fugiram para a sua terra. Remámos com toda força atráz delles, talvez umas quatro horas, e os alcançamos. Eram cinco canôas cheias... (...)Conhecí-os todos. Vinham seis mamelucos em uma dessas canôas... (...)Resistiram na sua canôa, durante duas horas, a trinta e tantas canôas nossas. Acabadas as suas flechas, os Tupin Inba os atacaram e os aprisionaram..." - De retorno a Maembipe. "(...)Levaram então os prisioneiros, cada um, para sua cabana; mas a muitos feridos desembarcaram e os mataram logo, cortaram-nos em pedaços e assaram a carne..." - Entre os que foram devorados de noite, "um era portuguez, filho de um capitão e se chamava George Ferrero (Jorge Ferreira)", feito cativo pelo índio Tatamiri. Hans Staden em conversas com prisioneiros revelou, "tinha visto já comerem um pedaço do filho de Ferrero". Como era de costume deles reuniam-se muitos para beber, cantar e folgar. A festa durava noites inteiras. Na manhã seguinte, depois de muito beberem, aqueciam a carne defumada e a comiam.
GRAVURA REPRESENTA A CAPTURA DE GEORGE FERRERO E O BANQUETE CANIBAL PREPARADO PELOS TAMOIOS EM MAEMBIPE [HANS STADEN] SÉCULO XVI.

[o monstro marinho Ipupiara morto por Baltasar Ferreira.]

Outro filho seu foi o Capitão e Lugar-tenente Baltazar Ferreira que matou um suposto "monstro marinho", o Hipupiara em águas vicentinas. Frei Vicente do Salvador, capítulo décimo, do livro I, 'História do Brasil', relata que no ano de 1564, em São Vicente o mancebo herói Baltasar Ferreira, filho dum militar, matou na praia a golpes de espada, uma temível criatura marinha de 15 palmos de comprimento.
Pai também de Belchior Ferreira, teve quatro filhas mais: Catharina Ramalho Ferreira, Joanna Ferreira, Vitória de Sá Ferreira e a Marquesa Ramalho Ferreira.
De acordo com as anotações de Ricardo Costa de Oliveira, Jorge Ferreira destacou-se nos conflitos contra os Tamoios (Tupinambás) na região. Em 1565 foi um dos chefes das canoas de guerra que partiram de Bertioga com destino ao Rio de Janeiro para participar do esforço de guerra contra os Tamoios, com a vitória é considerado um dos fundadores de São Sebastião do Rio de Janeiro (1567). Tomou parte ainda na última ofensiva contra os Tupinambás remanescentes em Cabo Frio, no ano de 1575.
JORGE FERREIRA PARTE DE BURIQUIÓCA COM ESTÁCIO DE SÁ, LEVANDO COMBATENTES RUMO A GUANABARA PARA LUTAR CONTRA OS INDÍGENAS TAMOIOS [BENEDITO CALIXTO].

Em 1573 recebera sesmaria no Rio de Janeiro para onde mudou-se com a família. Faleceu em idade avançada em 1591.

[à esquerda escudo da Família Ferreira.]

No ano de 1617, através de Escritura, o Capitão Manoel Antunes vendeu as terras que lhe pertenciam na Ilha de Santo Amaro à Francisco Nunes Cubas.

domingo, 27 de junho de 2010

E.F. ITAPEMA-Gjá (SP-2066)

ESTAÇÃO DE ITAPEMA - ESTRADA DE FERRO SP-2066 PLATAFORMA DE EMBARQUE - ANOS DE  1920.

Ao tornar-se rota de acesso à Vila Balneária de Guarujá para o veraneio da Alta Sociedade paulista, é implantado em 4 de Setembro de 1893, o Serviço de Transporte por locomotivas a vapor e tramway (bondes). Interligado à época também por Barcas na travessia do canal do porto, desde a Estação santista em frente a Alfândega (Pça. República) até ITAPEMA/SP.
Na margem itapemense constroem uma Estação com píer telhado ao longo do acesso e prédio em estilo maneirista neoclássico com uma grande arcada de acesso ornada com gradil decorativo em ferro e pilares à vista decorados de arabescos. Sua fachada estampava o nome 'Itapema', abaixo do brasão em relevo duma concha Vieira-rainha à guarda de dois peixes quiméricos. Possuía mastro para hasteamento de bandeira a encimar o ornato neoclássico do frontão e grandes janelas coloniais de cada lado.
PRÉDIO DA ESTAÇÃO DAS BARCAS NA MARGEM ESQUERDA [ITAPEMA-SP].
BARCA ITAPEMENSE APROXIMA-SE DA ESTAÇÃO EM ITAPEMA/SP.

Aqui ficava o ponto inicial da Estrada de Ferro (SP-2066), com extensão de 9 Km até o balneário guarujaense. Faziam o percurso duas locomotivas (Marias-Fumaças). Sua primeira composição era dotada de uma locomotiva a vapor, adquirida na Inglaterra, e dois vagões: um de 1ª classe e outro de 2ª classe. A outra modelo Baldwin Locomotive Works nº 2, de procedência americana, fabricada (12346) em Novembro de 1891, pela  Burnhab Williams & Co., Philadelphia - USA.
LOCOMOTIVA A VAPOR UTILIZADA NA ESTRADA DE FERRO ITAPEMA/GJÁ [SP-2066].

A inauguração contou com 60 convidados e as presenças de Bernardino de Campos (Presidente do Estado), Vicente de Carvalho (poeta), Joaquim Arcoverde (Bispo coadjutor), deputados estaduais, dentre outras autoridades.
Waldemar Stiel, relata no seu livro 'História dos Transportes Coletivos de São Paulo':
"(...)O trem da SPR, com várias autoridades chegou a Santos [Sábado] às 13:30, e em bondes especiais dirigiam-se à Alfândega, onde tomaram o vaporzinho 'Cidade de São Paulo' a fim de atravessar o estuário... (...)Em Itapema tomaram o trem inaugural, que em pouco tempo passava em frente ao Grande Hotel..."
ESTRADA DE FERRO ITAPEMA/GJÁ [SP-2066] - TRECHO ENTRE O MORRO SANTO AMARO E O GLÓRIA.

Eduardo Etzel em sua publicação 'Guarujá e Eu', também faz seu registro do itinerário:
"(...)do outro lado o estuário, a estação e outro trem... (...)com máquina de bitola estreita e dois vagões, o de carga e o de passageiros. Nova partida, e a viagem através do imenso mangue..."
Diz matéria do 'Correio Paulistano', sobre o trajeto da viagem inaugural, transcrita do livro 'Pérola ao Sol', de Mônica de Barros Damasceno e Paulo Mota:
"(...)Uma pequena linha férrea pertencente à empresa (Companhia Prado Chaves) fazia o percurso, transportando os convidados. Numa extensão de cerca de 6 Km, sendo que seu trajeto era feito em 10 minutos, a locomotiva com três vagões de primeira classe faziam parte do comboio..." - E seria exatamente este o único caminho até 1918.
"MARIAS-FUMAÇAS" E FUNCIONÁRIOS DA (CIA. PRADO, CHAVES) E.F. ITAPEMA/GJÁ [SP-2066]  EM FRENTE HOTEL LA PLAGE - DÉCADA DE 1900.

Para instalação desse Serviço de  Transporte Ferroviário foi necessária a compra dos direitos de concessão, então pertencentes a Valêncio Teixeira Leomil, sob condição de ser nomeado Diretor Fiscal, sendo a Estrada de Ferro (SP-2066) e seu sistema de interligação (Barcas) mantido pela Cia. Balneária da Ilha de Santo Amaro (1893 à 1910). 
As Marias-Fumaças movidas a carvão, durante anos transportaram turistas, trabalhadores locais e personagens da História do Brasil em suas galeras com assentos de palhinha. Eis alguns: Campos Sales, Epitácio Pessoa e Santos Dumont.
Havia ainda um ramal de aproximadamente 3 Km, entre Guarujá e o Ferry-boat. O Serviço de Transporte da Ferrovia SP-2066 dispunha de uma equipe de reparos da Empresa Prado, Chaves & Cia. Era preciso logo cedo vistoriar os trilhos e verificar se não havia nenhum problema na linha para evitar acidentes, além da manutenção rotineira dos equipamentos (trens, vagões etc).
EQUIPE DE REPAROS FERROVIÁRIOS (CIA. PRADO, CHAVES) E.F. ITAPEMA/GJÁ [SP-2066] ANOS DE 1900.
 
Em 1910, o grupo econômico representado por Percival Farquhar (o mesmo empresário que levou avante a Ferrovia MadeiraMamoré) adquire o controle do transporte. A nova Empresa passou a denominar-se Companhia Guarujá. É desativado o ramal até o Ferry-boat.
A eletrificação do trajeto ferroviário (de bitola métrica) foi anunciada em 4 de Maio de 1923, sendo a responsabilidade pela execução a cargo do Engº Ettore Bertacin (Casa Siemens de São Paulo). A Siemens faria o fornecimento de materiais e o equipamento rodante ficou de responsabilidade das empresas Siemens-Schuckert e MAN - Maschinenfabrik Augsburg Nurnberg. O sistema foi executado em 8 meses e inaugurado em 11/01/1925.
ESTAÇÃO DE ITAPEMA PLATAFORMA DE EMBARQUE ESTRADA DE FERRO SP-2066.

A Subestação Elétrica principal, que também abastecia Itapema, estava localizada próximo da Torre Grande (na margem esquerda), recebendo corrente da Usina de Itatinga em 40.000 volts e transformando-a a 6.600 volts. Já a Subestação Convertedora ficava na Estrada do Itapema (Km 4), trecho de Conceiçãozinha. Tinha por função reduzir e retificar a Corrente Alternada de 6,6 Kv para 750 volts.
 ESTRADA DE FERRO SP-2066 - SUBESTAÇÃO CONVERTEDORA TRECHO CONCEIÇÃOZINHA- ITAPEMA [DÉCADA DE 1920].
ESTRADA DE FERRO SP-2066 TRECHO CONCEIÇÃOZINHA - ITAPEMA.
E.F. ITAPEMA/GJÁ [SP-2066] TRECHO CONCEIÇÃOZINHA.

Inicialmente foram adquiridos em 1924, dois bondes (nº 3 e nº 9) de 106 hp e uma locomotiva elétrica modelo Siemens E69, steeple-cab, (nº 1), de 104 hp para os serviços de carga. Esta máquina com 18 toneladas de peso tinha capacidade de tracionar trens de 47 toneladas de carga à uma velocidade de 45 Km/h. As melhorias contemplaram os usuários com carros de passageiros modernos, fechados e mais confortáveis.
LOCOMOTIVA ELÉTRICA SIEMENS E69 nº 1 - ESTRADA DE FERRO SP- 2066 [ANOS DE 1920].
BONDE nº 3 - ITINERÁRIO ITAPEMA - ESTRADA DE FERRO SP-2066 - ESTAÇÃO PRAIA DE PITANGUEIRAS [DÉCADA DE 1920].

Além das estações principais, nas proximidades do Grand Hotel La Plage (Praia de Pitangueiras) e na Estação em Itapema plataforma de embarque, a linha contava com mais pontos de parada: a Estação Alfaya (Km 3), imediações do Bairro Monteiro da Cruz. Estação Bento Pedro (Km 5) trecho de Conceiçãozinha. Estação 24 de Outubro (Km 6), próxima ao Rio Santo Amaro.
Foto em cartão postal (década de 20) do pesquisador Allen Morrison registra a Estação Bento Pedro, consistia numa pequena plataforma em madeira com telheiro de duas águas, mais dois bancos geminados (um de costas para o outro). Nota-se o denso bananal logo atrás.
Eduardo Etzel nos fala desse itinerário, no seu livro 'Guarujá e Eu':
"(...)Nova partida e a viagem através do imenso mangue com uma Estação no meio", próximo à Conceiçãozinha.
BONDE nº 3 - ESTRADA DE FERRO SP-2066 - ESTAÇÃO BENTO PEDRO [CONCEIÇÃOZINHA/ITAPEMA].
E.F. ITAPEMA/GJÁ [SP-2066] MAPA DO PERCURSO.
BONDE nº 9 - ITINERÁRIO ITAPEMA - ESTRADA DE FERRO SP-2066 [ESTAÇÃO PRAIA DE PITANGUEIRAS].

Em meados da década de 1920, o empreendedor Percival Farquhar passa por graves problemas financeiros e desfaz-se do negócio na Ilha de Santo Amaro. A Lei Estadual nº 2140 (1 de Outubro de 1926) permitiu a encampação pelo Estado da Companhia Guarujá, sendo seus bens incorporados ao Estado através do Decreto Estadual nº 4192, de 12 de Fevereiro de 1927, ganha nova denominação: Serviços Públicos do Guarujá/Repart. (autarquia municipal). São assentados novos trilhos para um ramal de aproximadamente 2,5 Km até o Sítio Cachoeira, destinado a vagões de carga visando o escoamento da produção bananeira.
Eduardo Etzel acrescenta sobre a viagem de trem por Itapema, no fim dos anos 40:
"(...)No mangue, a leste da ferrovia existiam inúmeras linhas de "decauville", ou seja, linhas com locomotivas pequenas muitas vezes movidas à gasolina e com bitola de 60 cm para o transporte de bananas, principalmente na região de Itapema... (ainda existentes no final dos anos 60) - Equipamento semelhante foi utilizado pela Base Aérea na retirada de aterro do Morro de Itapema para obras de suas instalações.
E.F. ITAPEMA/GJÁ [SP-2066] MAPA MALHA FERROVIÁRIA DECAUVILLE REGIÃO DE ITAPEMA.

Também foram adquiridos mais dois bondes da MAN (nº 5 e nº 7). Durante algum tempo as Marias-Fumaças continuaram a funcionar associadas aos bondes-elétricos, utilizadas no transporte de carga. Não rara as vezes, devido ao colapso do sistema de energia elétrica, os bondes eram rebocados pela Maria-Fumaças até a Estação de destino.
Por volta de 1930, um grave acidente inutiliza o bonde nº 3. No começo de 1935 são construídas nova Estação e oficinas na Av. Leomil.
 BONDE nº 5 - ITINERÁRIO ITAPEMA - ESTRADA DE FERRO SP-2066..

Silvio Cruz relata que muitos acontecimentos passaram-se sobre os trilhos da Estrada de Ferro: casamentos, batizados, primeira comunhão e até enterros. Havia mesmo um vagão funerário. Inclusive por ocasião da morte do ex-Presidente Campos Sales (que visitava Guarujá, em 28 de Junho de 1913), seu corpo foi transladado nele.
Um fato curioso é que nesta época algumas pessoas de famílias importantes eram enterradas nos cemitérios da vizinha Santos. Os caixões também eram vendidos lá, quando necessitava-se de algum este era encomendado e ao chegar ficava pendurado na Estação de Itapema, até a família do falecido ir buscar.
Em tempos de eleição os candidatos que realizavam comícios por aqui alugavam trens para transportar os partidários. O mesmo ocorria quando havia campeonatos de futebol.
As primeiras feiras-livres foram praticamente trazidas em vagões-plataformas para consumo dos moradores.
BONDE nº 7 - ITINERÁRIO ITAPEMA - ESTRADA DE FERRO SP-2066 [ESTAÇÃO AV. LEOMIL].
FUNCIONÁRIOS DA ESTRADA DE FERRO SP-2066 - ESTAÇÃO DE ITAPEMA [DÉCADA DE 1940].

Eduardo Etzel, em suas crônicas nos conta como funcionava a cobrança da passagem no final dos anos 40:
"(...)Naquela época se comprava um bilhete ainda na Estação de Barcas de Santos. Esse bilhete poderia ser simples (apenas a viagem de barca e o passageiro ficava em Vicente de Carvalho) ou duplo, metade verde, metade vermelho (ou rosa), sendo que os funcionários da empresa picotavam o verde para o embarque na barca (ainda em Santos) e o vermelho antes de se embarcar no Tramway, já no acesso às plataformas. Os bilhetes também valiam para a volta, e as partes vermelha e verde eram recolhidas durante as respectivas viagens..."
BONDE nº 9 - ESTRADA DE FERRO SP-2066 [PONTÃO DAS BARCAS] ESTAÇÃO DE ITAPEMA.

No ano de 1952, novas melhorias foram realizadas na linha de bondes, mas a concorrência com os ônibus logo se faria presente. Sucumbiria ao monopólio do transporte automotivo.
Decorridos 63 anos de atividades, em 13 de Julho de 1956, numa última viagem de tramway conduzida pelo motorneiro Sr. João Procópio, foi interrompido o serviço da E.F. ITAPEMA-Gjá [SP-2066]. No ano seguinte (1957) começou a retirada dos trilhos para dar lugar ao asfalto da Av. Thiago Ferreira e mais à frente (Praça 14 Bis) Av. Santos Dumont. O material rodante aproveitável passou a ser utilizado pela E.F. Campos de Jordão.
FOTO DA ÚLTIMA VIAGEM (1956) DO BONDE-ELÉTRICO PELA E.F. ITAPEMA-G [SP-2066].



No final dessa década (1959), por inciativa do IHGGB, foi inaugurada a Tenda Museu, na Av. Leomil, abrigando a Maria-Fumaça - Baldwin nº 2 (detalhe da foto ao lado), uma das locomotivas a vapor empregada na linha ferroviária Itapema-Gjá [SP-2066].