__________ Itapema, suas histórias... __________

terça-feira, 1 de julho de 2014

DUMONT ILHADO AMARO

SANTOS=DUMONT PASSA SEUS DIAS DE AMARGURA NA ILHA DE SANTO AMARO.

Em 1931, Santos=Dumont esteve internado em Casas de Saúde de Biarritz e Ortez, no sul da França. Seu sobrinho, Jorge Dumont Villares foi então buscá-lo.
A despedida dos vôos e a retirada de cena dos grandes acontecimentos deixaram o inventor brasileiro entristecido, sentindo-se deslocado na vida. Festejavam-se agora os grandes feitos das travessias transoceânicas e continentais a bordo dos primeiros aviões, melhorados a partir dos experimentos de Dumont... Seu tempo voara.
SANTOS=DUMONT NO SEU 14-BIS DÉCADAS ANTES EM PARIS.

Introjetou um estado depressivo, culminando com a enfermidade que desenvolveu após 40 anos de idade. Possivelmente, esclerose múltipla.
Na cidade de São Paulo (1931) recebia a visita quase diária do médico Sinésio Rangel Pestana, que recomendou ao inventor uma temporada na Estância Balneária da Ilha de Santo Amaro (Guarujá), Litoral Paulista, para recuperar a saúde, além de um grande abatimento que o afligia... Tanto mais que na Capital, já antecediam os dias conturbados da Revolução Constitucionalista de 1932. Assim, Guarujá prometia-lhe estada paradisíaca. Onde estivera algumas vezes, antes da década de 30.
'A PÉROLA DO ATLÂNTICO' QUE SANTOS=DUMONT CONHECEU.
SANTOS=DUMONT [O PRIMEIRO À DIREITA] NUMA DE SUAS HOSPEDAGENS NO 'HOTEL LA PLAGE', NA ESTÂNCIA BALNEÁRIA DA ILHA DE SANTO AMARO.

Na Ilha, descansa olhando o mar daquela praia tão formosa e o infinito céu sobre o Oceano Atlântico. Faz longos passeios de charrete pela orla meditante. Visitou lugares, descobriu paisagens e encontrou pessoas. Mas, não é mais aquele rapaz dinâmico que conquistara Paris, aos 28 anos, com a dirigibilidade dos Balões e o vôo do mais pesado que o ar. Agora rareia-lhe os cabelos, falta forças para viver.

[Santos=Dumont já no avançar da idade]

Segundo Iracy Sório Morone, à época camareira do 'Hotel La Plage', Santos=Dumont era um homem metódico, mantendo tudo extremamente arrumado e no lugar. Oswaldo Cáfaro diz que o inventor do avião era pessoa reservada, e que demonstrava a depressão sentida no dia-à dia.
Também hóspede do 'Hotel La Plage', Bidu Sayão (cantora lírica), cuja família possuía terras na Ilha de Santo Amaro, nesse período manteve um breve romance com Santos=Dumont. O retorno da cantora para a Europa em turnê e possível recusa de Bidu a viver o amor num paraíso tropical, teria motivado o aprofundamento de sua crise pessoal. Ele que ileso flertara com outras mulheres e até as levou para voar em suas asas.
Agitações políticas na Capital Paulista que antecederam o conflito bélico Constitucionalista, no mês de Julho de 1932, mobilizaram cidades de todo o Estado de São Paulo, inclusive no Litoral Bandeirante. Vitoriosa a Revolução Tenentista de 1930, liderados por Getúlio Vargas, suplantada a Velha República, os Liberais do Partido Democrático e as Elites Paulistas esperavam que o Brasil voltasse a normalidade democrática. Contudo, o Governo Provisório de Vargas negava-se a estabelecer uma nova Constituição, bem como mantinha a intervenção administrativa nos Estados brasileiros, cautelosamente o Estado de São Paulo. A mocidade impelida por um entusiasmo intraduzível correu a alistar-se decidida a seguir para as trincheiras. Autoridades civis e militares, instituições sociais agregaram-se entorno do Movimento Constitucionalista.
 OS JORNAIS PAULISTAS ESTAMPAM AS NOTÍCIAS DA GUERRA.

O Litoral estava todo guarnecido pelas Forças Militares com peças de artilharia e soldados vigilantes diuturnamente. Nas praias, em pontos estratégicos, sacos de areia como barricadas e trincheiras foram providenciadas.
A Ilha de Santo Amaro cedeu para o Front seus bravos jovens à Causa Paulista de 1932. Enquanto Thiago Ferreira, Francisco Guaraná Menezes, dentre outros tantos voluntários partiam para a Batalha, o inventor do avião vivia suas aflições pessoais por ver seu invento transformado num anjo sinistro da Guerra.
Aos seus olhos o teatro de Guerra da Frente Costeira Constitucionalista. Como medida de defesa do Porto de Santos foram colocadas minas explosivas em toda extensão da Barra Grande de Santo Amaro. Da janela do 'Hotel La Plage', ou mesmo da orla das praias avistava e ouvia de longe o som da passagem dos aviões em patrulha. Navios bélicos cruzavam ao largo do Farol da Moela.
SANTOS=DUMONT EM SUA ESTADA NA ILHA DE SANTO AMARO [1932].   

No dia 12 de Julho, sobrevoaram, desde as primeiras horas da manhã, a região da Baixada Paulista Hidroaviões, num vôo de reconhecimento, desaparecendo depois em direção ao Norte. Em 17 de Julho, pela manhã Aeronaves da Aviação Naval evoluíram sobre o Litoral para reconhecimento e distribuindo um Manifesto contrário a Causa Constitucionalista. No outro dia, 18 de Julho, os Aviões e Hidroplanos da Ditadura Varguista voam novamente, por volta das 13 horas, sobre a Região lançando aqui manifestos e jornais da Capital Federal, em pacotes. Um deles tendo passado pelo Forte Itaipu foi alvejado. Pelo dia seguinte, 19 daquele mês, aproximou-se da Ilha de Santo Amaro a Esquadra Naval foram enviados, sob comando da Ditadura, para atentarem contra o Porto. Logo entrou em Alerta o Forte Itaipu, em águas mais adiante, são ouvidos disparos que ecoam pelas cidades do Litoral. No dia 23, por volta das 10:00 horas, um Hidroavião do tipo Savoia-Marchetti, da Aviação Naval, voava cruzando toda a Região da Baixada Paulista e atentava contra a posição da Fortificação Litorânea, para depois rumar ao Norte.
ALBERTO SANTOS=DUMONT, BRASILEIRO INVENTOR DO AVIÃO.

Está escrito na página 137, do Livro 'A História da Revolução Constitucionalista de 1932:
"- Meu Deus, meu Deus! - Bradou Santos=Dumont, do 'Hotel La Plage' na Estância Balneária. - Não haverá meio de evitar o derramamento de sangue de irmãos? Por que fiz eu esta invenção que, em vez de concorrer para o amor entre os homens, se transformou numa arma maldita de guerra? Horrorizam-me estes aeroplanos que estão sempre pairando..." - Numa referência ao constantes sobrevoos das aeronaves federais. Ele presencia vôos rasantes e bombas explodindo no oceano.
Onde quer que houvesse um aparelho de rádio ligado, que Santos=Dumont escutara de passagem por uma das janelas abertas dos chalés, ouvia-se incessantemente a palavra flamejante dos oradores da Revolução entremeada de Hinos e Marchas Militares incitando a população à Guerra Cívica. Inclusive, a Carta Aberta de Santos=Dumont num apelo à Paz nacional.
CARTA ABERTA DE SANTOS=DUMONT EM PROL DA PAZ NACIONAL [1932].
  
"Alberto passou seus últimos dias, passeando pela praia, conversando com crianças, entre elas Maria Villares da Silva e Christian Von Bulow, que moravam no Balneário. Christian conta ter presenciado Santos Dumont chorando na Praia de Pitangueiras, após ver o bombardeio do Cruzador 'Bahia' por aviões "vermelhinhos", leais ao Governo Federal, na Ilha da Moela."
Apesar de amanhecer ensolarado, aquele 23 de Julho de 1932, era um dia sombrio. Dumont passeou na orla e jardins com seu amigo, o Aviador Edu Chaves, quando assistiram o sobrevoo de um avião acima da Barra Grande de Santo Amaro, tal aeroplano iria provavelmente bombardear o Forte Itaipu. Dialogaram sobre o trágico destino da Aviação.
 ORLA DA PRAIA DE PITANGUEIRAS EM FRENTE AO 'HOTEL LA PLAGE'].

Antonio Mendes Filho, foi a última pessoa a vê-lo. Levara Santos=Dumont, de charrete à Ilha do Pombeva, que fica defronte à Praia de Pitangueiras, no período da maré em que é possível ir até lá a pé. Decerto para auscultar ou visualizar no horizonte, a ação bélica dos aviões da Ditadura na Baixada Paulista.
Santos=Dumont estava sereno e não havia nenhum indício, de que dali poucas horas cometeria um ato desesperado. Quando desceu da charrete, de volta, comentou com Antônio Mendes:
"- Eu inventei a desgraça do mundo... Minha invenção vai desgraçar o mundo!" - Desabafa. Ele que noutros momentos, ingenuamente, indicara o uso prático de Balões dirigíveis a vigilância da costa marinha dos países, resguardando-se de invasões... Então acendera o estopim da maldade! Tolo, admitira utilizar aviões na guerra pelas nações amigas contra os inimigos comuns... Por que sugerir ao governo brasileiro incrementar as Forças Militares com o uso de aviões?
SANTOS=DUMONT NUM DE SEUS DIAS NA ILHA DE SANTO AMARO [1932].

Com a 1ª Grande Guerra Mundial, desgostoso Dumont vira seus Balões, Dirigíveis e Aviões serem empregados militarmente. Na Revolução Constitucionalista novamente seu maior invento servindo para metralhar e bombardear cidades. De nada adiantou escrever ao Coronel Euclides Figueiredo (um dos líderes dos sublevados paulistas) protestando contra a utilização maléfica do avião. Amargurado lamentava ter contribuído para os horrores da Guerra, onde os aeroplanos se haviam transformado em engenhos de destruição.
O Charreteiro acrescenta, "ele não era de muita conversa, e não seria comigo, um moleque de 17 anos, que o faria mudar."
'HOTEL LA PLAGE' - ESTÂNCIA BALNEÁRIA DA ILHA DE SANTO AMARO.

De retorno ao 'Hotel  La plage', Santos=Dumont entrou no quarto, e aparentemente não saiu mais. À hora do almoço funcionários sentiram sua ausência, pois não descera para a refeição e o procuraram. Bateram à porta do hóspede mas não obtiveram resposta. Seu sobrinho Jorge Dumont Villares, receoso está quase sempre em sua companhia, vigiando-o discretamente, temendo que algo possa acontecer. Todavia, sucedera o inesperado. Apesar da vigilância com que o cercavam, ele desaparecera. Talvez se tivesse afogado.
Eram 17:30 h. do fatídico dia 23 de Julho, quando o Delegado Raimundo Menezes recebeu uma solicitação estranha de amigos de Santos=Dumont, descansando na Estância Balneária da Ilha de Santo Amaro, pois pediam o comparecimento do Delegado local.
Relata Raimundo Menezes, a ocorrência ao Sr. Barros Ferreira:
"(...)Não havia tempo a perder. Dirigi-me para o Hotel, onde fui encontrar Edu Chaves e um sobrinho do inventor, muito preocupados. Contaram-me que Santos Dumont [imagem à esquerda], nos últimos dias, ficara muito impressionado com o lançamento de bombas por parte de aviões do Governo Ditatorial. Culpava-se pelo seu invento, que devia aproximar os Homens e não contribuir para maior matança. Penitenciava-se pelo mau uso que faziam da Aviação. Já sofrera uma crise muito grave..." - Tudo indicava que Dumont trancara-se no quarto e não respondia ao chamamento dos amigos. Decidiu-se entrar à força. O funcionário de limpeza do Hotel, Adelino Cardozo, arrombou a porta do apartamento 152. Não havia vivalma. Deram uma breve busca nas instalações do Hotel. Cogitou-se que talvez estivesse num dos banheiros. Após verificar o silêncio absoluto no interior do banheiro, o Delegado Raimundo Menezes autorizou que um dos dos homens verifica-se por uma clarabóia o que estaria acontecendo. Viria a constatação: o corpo de Santos=Dumont pendia enforcado pelo cordão do roupão de banho, amarrado ao cano do chuveiro. Vestia o roupão semi-aberto, estava pálido, magérrimo, sem pesar nãos mais do que 35 quilos... Sua morte não alterou o rumo da Guerra de 1932.
ACOMODAÇÕES DE SANTOS=DUMONT, APARTAMENTO 152, NO 'HOTEL LA PLAGE' [1932].   

"(...)Suicidou-se, sem dúvida alguma. por enforcamento. Apanhou o sobrinho distraído e escapou-lhe. (...)Retirado o corpo, o médico informou que nada mais havia a fazer. Estava morto. Restava dar cumprimento aos regulamentos. Conquanto se tratava de uma Glória Nacional, a autópsia se impunha..." - Todos do Hotel ficaram abatidos. Francília Mucci, camareira, constatando o suicídio chorosa exclamou ao Gerente Hércules Bertoldi, "Coitado do Doutor!"
O corpo inerme do Aviador foi transladado da Estância Balneária, num carro funerário modelo Chevrolet 1929 (preto), motor Ramona de 6 cilindros. Curioso, o jovem José de Souza pegou uma "carona" no veículo em seu percurso até o Ferry-boat.
CARRO FUNERÁRIO QUE TRANSLADOU O CORPO DE SANTOS=DUMONT.
   
"(...)Mas, quando cheguei à Delegacia, já me aguardava um telefonema do Chefe de Polícia, então Tirso Martins. Informou-me que a família de Santos Dumont obtivera do Governador Pedro de Toledo a entrega do corpo..." - O Chefe da Polícia impôs seu argumento. - "(...)Então não crie embaraços à família. Vamos dar o caso como morte natural. A família insiste na dispensa da autópsia. Não há motivo para não atender a essa solicitação. O Governador está de acordo. Eu assumo a responsabilidade. Já demos instruções à censura para que os jornais não divulguem a morte como suicídio." - E assim foi feito.
CERTIDÃO DE ÓBITO DE SANTOS=DUMONT.
    
Conforme Laudo Necrológico do Legista Roberto Catunda, nos arquivos policiais:

[Escrínio contendo o coração do Aviador]

"Guarujá - Alberto Santos Dumont - 23 de Julho - 1932. Alberto Santos Dumont - Brasileiro, Branco, Solteiro, com 59 anos de idade, Inventor. Ao que consta, foi encontrado morto em um dos apartamentos do Hotel La Plage, no Guarujá, onde residia. Trata-se do cadáver de um homem de estatura mediana e de constituição regular, ainda em estado de placidez muscular. Veste terno de casimira preto, gravata preta e calça botinas pretas. Não encontramos pelo corpo vestígio de lesão traumática. A morte se deu por Colapso Cardíaco." - Seu coração seria conservado em um hernético Escrínio, sob a guarda da Aeronáutica do Brasil.
Ou tal qual disse o poeta:
"Sois heureux, envole-toi dans les airs..."
   

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